sábado, 27 de fevereiro de 2010

Europa

Na minha modesta visão de apaixonado pela História e visitante bem mais que casual ao continente europeu, a Comunidade Européia se estabeleceu quando, quase simultaneamente, os dinamarqueses decidiram entrar, os suíços decidiram ficar de fora e os ingleses, mais ou menos, sem adotar a moeda única. Logo depois veio o Euro. Pronto. Fim dos escudos, pesetas, francos, marcos, liras. Ficaram os euros, as libras e o franco suíço.
A Europa perdeu um pouco do charme. Era parte da viagem voltar com moedas de coroas suecas ou florins holandeses em meio aos dólares trocados em cima da hora e que tinham liquidez no Brasil.
Além disso, algumas fronteiras acabaram. Certa vez reparei que já devia estar há uns 30 quilômetros território holandês adentro, vindo da Bélgica, graças a uma bandeirinha numa casa à beira da estrada. Outra ocasião, entrei em Luxemburgo sem querer.
Ficou uma coisa assim, meio Mc Donald's das transações. Tudo em euro e nas maquininhas de cartão.
No entanto, não perco o encanto pelo pedaço de terra que chamamos Europa. Acho incrível viajar a mesma distância que do Rio a SP e passar por uns três países com identidades culturais próprias. E, claro, o sonho europeu de uma Grande Europa, pensado por estadistas sérios e lunáticos, desde o Império Romano, passando por Carlos Magno, Napoleão e Hitler, até chegar a Maastricht ( que é uma cidade e não um sujeito, para, se eventualmente a União Européia naufragar, a ideia não ficar personalizada), não poderia dar certo com tanta diversidade cultural, centenárias, e polvilhadas por algumas guerras por vezes traumatizantes.
E eis que vemos que a dita União tem seus problemas. E não poderia ser diferente. Quem já teve a oportunidade de visitar alguns países europeus algumas vezes, sabe que distinguir Portugal da Alemanha, como se distingue o Arkansas de Massachussets, para citar o espelho americano de "estados unidos", é muito mais fácil. Portugal é Portugal. Um país com uma história de unidade nacional de mais de 800 anos, que já foi potência mundial, sucumbiu na Revolução Industrial aos juros ingleses e teve um século XX muito apagado por conta de convulsões políticas internas. Já a Alemanha é país há pouco mais de 120 anos e mesmo assim, suas fronteiras mudaram completamente, já foi algoz e saco de pancada em guerras horripilantes, foi dividida ao meio por questões ideológicas e, na atual situação política, tem apenas 20 anos de idade. Além disso, a Alemanha importou a Revolução Industrial da Inglaterra na marra, aproveitando-se de uma população amante da manufatura e das coisas que requisitam raciocínios elaborados, aliás, como sua língua. E nunca foi financiada pela City londrina.
E a Grécia ? A situação da Grécia é parecida com a de Portugal, mas elevada ao cubo. A Grécia passou anos muito mais ligada ao Oriente que ao Ocidente, às voltas com vizinhos otomanos furiosos, entrões e sangrentos. Também na religião, a Grécia seguiu o caminho do catolicismo ortodoxo. Aquele, de Constantinopla e não o de Roma. A Alemanha foi o berço do Protestantismo e do pensamento moderno. A Grécia foi o berço da Filosofia antiga e parou. Afinal, o que as dracmas gregas tinham a ver com os marcos alemães ? Nada. Absolutamente nada.
Justificou-se trazer alguns países para o bloco único europeu com base exclusivamente em indicadores macro-econômicos. O deficit público deve ser X, o Investimento Y, a meta de inflação é Z. A Eslobodânia do Oeste, atingindo esses parâmetros, pode se candidatar a entrar para a União Europeia, desde que fique na Europa mesmo, claro.
Agora essas equações estão um pouquinho desequilibradas em Portugal, Espanha, Itália, Grécia e, para mim, os países do Leste tipo Hungria e Eslováquia, em breve terão os mesmos problemas.
E como se resolve ? Não existe a figura da suspensão da afiliação ao bloco. Então alguns remedinhos devem ser aplicados.
No caso grego, o governo gastou muito. Ao que tudo indica, o problema teria começado nos gastos para realizar a Olimpíada de 2004. De lá para cá, a Grécia se sentiu uma espécie de França de clima ameno.
Mas serviço público francês é o serviço público francês. E o serviço público grego é o serviço público grego. Gasta muito e mal.
O remédio é amargo. Fim de privilégios, achatamento salarial, aumento de juros, aumento de tarifas públicas. E o que foi feito em fevereiro parece que foi pouco. A navalha vai ter que entrar mais fundo na carne. Os gregos, que já não gostaram muito, aturarão em paz um tremendo arrocho orçamentário ? E quando o problema chegar na Espanha ? E na Itália ? E na Irlanda ?
Isto porque vai chegar. Não tenham dúvidas. A economia inglesa está calcada em serviços e num sistema financeiro arrojadísimo. A alemã, nas exportações. A Bélgica vive de exportar chocolates, cerveja e ficar discutindo se a língua principal é o francês ou o flamengo. Já a Espanha tem uma economia diversificada, industrializada e de serviços, principalmente tursmo. A Itália, que se parece mais com um aglomerado de países menores, tem tradição industrial no Norte, agrícola no meio e no meio-Norte, naval na costa do Golfo de Marselha e mercantil na costa do Adriático, e pobreza no Sul. A Irlanda virou o centro do"boom"imobiliário britânico.
Como, com essas diferenças, se faz todo mundo andar em passo sincronizado ? Me parece impossível.
A chacoalhada financeira de 2008 fez com que os governos das economias centrais lançassem mão de seus recursos para reestruturar o sistema. A autonomia do Banco Central alemão é totalmente diferente da do Banco Central Grego. E não adianta Estrasburgo ( sede da Comunidade Européia, junto com Bruxelas) impor isso ou aquilo porque quem elege o Chanceler alemão são os alemães e quem elege o Péricles da vez na Grécia são os gregos. E pronto.
O caipira do Arkansas e o intelectual de Massachussets usam o mesmo dólar e votam no seu governador, mas também no Presidente Republicano ou Democrata da vez.
Na Europa não. A União Europeia está diante de seu grande desafio. E deve estar pronta para manter barreiras fiscais e aumentar barreiras monetárias e criar proteção, talvez até recriando moedas assassinadas. O dracma, por exemplo, parece sério candidato a voltar a existir.
Dura decisão. Ou derruba-se o euro, ou permitem-sem governos oportunistas de crise na Grécia, Irlanda, Islândia, Espanha...( e isto porque o da Itália, com Berlusconi à frente, já é).
O que será da Europa ?

terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

Santos e Demônios

O período de início de ano normalmente é árido em boas notícias do esporte. O  futebol está a meia-boca, com torneios estaduais de tiro curto e poucos bons jogos. Outros esportes simplesmente ficam paralisados. O automobilismo entra nas especulações, mas sem corridas, e outros simplesmente somem. Os de inverno esquentam terrivelmente, mas, para nós tropicais, dowhnhil e slalom são termos desconhecidos.
Pelas bandas de Pindorama há também a folia momesca que paga tudo e todos do noticiário e que, neste ano de 2010 trouxe pelo menos a novidade de um governador passar o Carnaval fantasiado com o pijama listrado de preto-e-branco.
Mas duas excepcionais epopéias do esporte ocorreram neste modorrento e acalorado verão sub-tropical. Não aconteceram em esportes exatamente populares no Brasil. Mas em esportes para lá de profissionalizados, provocando a iminente reflexão sobre a profissionalização do esporte colaborar para definhar seus valores mais nobres. Ou não.
Para um lado da balança, vai a impressionante história do New Orleans Saints, o time de futebol americano que levantou, da forma mais improvável, desde a criação do Super Bowl, a taça de número 44 desta disputa que é considerada uma das de maior audiência e mais esperadas do mundo. Foi há uma semana.
Os Saints ( Santos) de New Orleans bateram os Colts, de Indianapolis, em jogo único e levaram pela primeira vez o Super Bowl para a Louisiana. Este Super Bowl, embora decidido em 2010, é considerado o da temporada de 2009.
Então vamos recapitular alguns fatos da trajetória do clube. Fundado em 1 de novembro de 1967, dia de Todos os Santos, os Saints assim foram batizados e sua sede, New Orleans, era a identidade da maioria católica. Aos olhos dos americanos do Norte, Louisiana, embora pitoresco, se parece com uma sucursal do Terceiro Mundo em pleno território norte-americano. A trajetória dos Saints sempre foi irregular. Sempre foram considerados os "underdogs" das Confederações de Futebol Americano. Mesmo tendo batido um recorde histórico, uma vitória por 47 a 0 sobre os Atlanta Falcons na década de 70, os Saints nunca entraram em nenhuma temporada apontados como favoritos ou sequer candidatos.
A única característica dos Saints apreciada era seu estádio, o Superdome. Como o final da temporada de futebol americano dos Estados Unidos se dá em pleno inverno, os estádios do Sul do País costumam receber as partidas nobres de fim de temporada. O estádio de New Orleans era praticamente o único orgulho verdadeiro e unânime dos Saints.
Era. Em 2005, New Orleans sofreu com os terríveis efeitos do furacão Katryna, inclusive com desconfianças sobre a atuação do Governo Central antes, durante e depois que o furacão destruiu a cidade. E o Superdome. O estádio teve sua cúpula arrancada e parte de sua estrutura abalada. Não obstante, serviu de hospital de campanha e abrigo para milhares de pessoas.
Os Saints passaram duas temporadas sem poder jogar em seu estádio, mandando seus jogos em Baton Rouge, South Dakota, Florida e outros lugares. A cidade estava em trauma profundo para se preocupar com o esporte. Os Saints foram mantidos nas Conferências por sua história e tradição, pois sequer atingiram os requisitos mínimos para estar na elite do futebol americano, esporte caríssimo, que movimenta milhões em  patrocínios e apostas legítimas. Para piorar tudo, em 2007, os Saints bateram seu recorde negativo, vencendo apenas quatro partidas na temporada. Em 2008, os proprietários dos Saints concluíram a recuperação do Superdome e trouxeram alguns jogadores caros dos bem sucedidos Green Bay Packers, San Francisco 49ers. e New England Patriots. Mas a campanha deixou a desejar.
Em 2009, tudo parecia se repetir para os Saints, mas as vitórias vieram e os milagres dos santos da crença   anglo-francesa da Louisiana começaram a operar. Para começar, com tudo quase pronto para a estréia, outro furacão, mais ameno, deslocou o Saints para uma pré-temporada em Indianapolis. Logo onde !!!
Ao voltar, bateram o Detroit Lions por 24-20, no remodelado Superdome. Com uma sequência regular, os Saints acabaram por chamar atenção ao baterem na casa dos adversários os muito mais bem cotados Philadelphia e Green Bay nos play-offs e foram às finais da NFC contra o Arizona Cardinals aplicando um chocolate que deixou meio mundo boquiaberto.
Na final, contra os Colts de Indianapolis, os mesmos que lhes cederam o estádio no início da temporada, os Saints saíram perdendo e feio. Os Colts chegaram a abrir 14 pontos, equivalentes a dois touchdowns, a jogada de sete pontos que vale mais pontos no futebol americano. Depois do intervalo, os Saints voltaram milagrosos. Reverteram a vantagem e no último quarto ninguém duvidadava mais da vitória.
A final foi realizada uma semana exatamente antes do Carnaval, que nos Estados Unidos é mais intensamente comemorada justamente em New Orleans, na celebração chamada Mardi Gras.
New Orleans está transformada. Recuperou seu orgulho. A percepção de ser uma ponta de Caribe encravada em território americano deu lugar a uma fantástica exibição de orgulho da cultura particular da Louisiana, o creole, o francês falado com sotaque estranho, o negro, o jazz, o blues. O que esta parte do país colaborou para a riqueza da riqueza maior dos Estados Unidos, chamada de "melting pot"desde a década e 30, e por vezes esquecida, estava marcada, relembrada e de novo, em moda.
New Orleans e seus santos foram a melhor notícia do esporte em janeiro. O Superdome volta a brilhar orgulhoso. A cidade comemorou o Mardi Gras mais efusivo de todos os tempos. O orgulho não estava na vitória. Estava em voltar ao Mapa. Ser esquecido é pior que que ser pouco celebrado. New Orleans não quer ser celebrada. Ela e seus santos não querem ser esquecidos.
E um detalhe. Os grandes nomes do Saints vieram de outros times. Os Saints provaram que podem sim encarar o Primeiro Mundo. E confesso que, por ter visitado a cidade em 2001 e ter tido a sensação de estar numa região carregada de preconceito, entendo perfeitamente o que eles sentem. Podem se sentir norte-americanos de novo. E o esporte, em quatro horas de um jogo que,  para mim, parece mais uma brincadeira de pique de escola com regras rígidas, alta tecnologia e um monte de juízes listrados, ou seja, não me diz nada em termos esportivos, me trouxe a verdadeira emoção da vitória esportiva.




Por outro lado, também tivemos outro evento que atrai a atenção do mundo todo, que foi a disputa da 33a. America's Cup, o troféu disputado desde 1851, e considerado o topo da carreira de um velejador. A edição 2010 foi única. E aqui, o que sobrou em New Orleans, faltou: santo. Graças a um controverso papelucho denominado Deed of Gift, escrito pelo último tripulante vivo do veleiro America que ganhou o troféu presenteado pela Marinha Britânica na primeira disputa ( daí o nome), a disputa segue rituais muito próprios. O vencedor tem prerrogativas, tais como escolher onde vai velejar e até elencar o desafiante da próxima disputa. Pode até decidir se vai ou não colocar em disputa. Como a America's Cup virou um tremendo evento esportivo de mídia, propaganda e público ( estima-se que só as Olimpíadas. o Super Bowl ( ver acima) e a Copa do Mundo tenham mais público que as regatas da America's Cup, que desbancou a Formula 1 com a edição de 2007), ninguém é suficientemente maluco para levantar o troféu, colocar em cima da lareira e ficar olhando até morrer e deixar passar oportunidades de faturar uma  quantia interessante e atrair meio mundo para seu umbigo. Ou seja, de três a quatro anos, o vencedor bota a cobiçada taça em disputa, sempre cheio de prerrogativas.
Pois bem, o último vencedor foi um improvável barco suíço, o Alinghi, inscrito oficialmente pelo clube Societé Nautique de Genéve. Na prática uma empresa do herdeiro de indústrias químicas e farmacêuticas ítalo-suíço Ernesto Bertarelli. O resultado de 2007 em si, foi fantástico. Era a primeira vez, em mais de 160 anos de disputa do troféu, que um barco europeu o conquistava, sendo o troféu originalmente concebido por um país europeu. Expandiu a disputa da AC das quase eternas raias norte-americanas, australianas e neo-zelandesas para o Mediterrâneo.
Mas Bertarelli começou a exagerar nas exigências. E foi contra atacado pelos americanos do sindicato BMW/Oracle/Sun, que pelo simples nome combinado, dispensa maiores comentários sobre sua disposição financeira de levar a briga até o fim. Até o fim da disputa da Taça, creiam. O tal Deed of Gift, é, na prática um testamento. E foi registrado em New York. Ou seja, qualquer contestação, é apreciada pela Corte de NY. Não consigo contar quantas apelações aconteceram nos dois últimos anos . A coisa foi tão confusa que até a raia escolhida, nos Emirados Árabes. foi mudada por decisão judicial. Só que, nesse meio tempo, um dos barcos, o defensor Alinghi, chegou a ser transportado até os Emirados, apar ter que voltar ao Mediterrâneo, ao largo de Valência, onde a prova seria enfim disputada.
Do lado dos americanos, os problemas não foram menores. Com a decisão do defensor Alinghi em correr com um catamaram, os americanos optaram por um trimaram, com mesmo comprimento, mas simplesmente gigantesco em tudo. A primeira versão do monstro de três cascos foi para a água em San Diego e se desmanchou com um vento de 9 nós !!! Na correria para aprontar um barco, os americanos resolveram reeditar um conceito da década de 80: uma asa rígida em lugar de uma vela. E que asa ! Maior que a de um Jumbo 747 ! O barco em sua versão final quando foi para a água parecia um daqueles projetos saídos dos laboratórios Wayne. Se fosse todo preto e tivesse o morcego estilizado eu diria que passaria tranquilamente por um delírio de criação de Hollywood para o Batman.
Para tornar a coisa mais chatinha ainda, resolveram que a disputa seria em melhor de três regatas. Com projetos tão distintos, a regata 1 seria decisiva, ou seja, não era uma questão de ver quem velejava melhor, mas quem tinha tido poder de fogo de ter concebido o projeto melhor.
Os monstros foram para a água e o barco americano simplesmente pulverizou o suíço, se dando ao luxo de velejar alguns trechos somente com a gigantesca asa rígida e sendo muito mais rápido que o adversário.
Demoníaco. Não precisamos mais do talento de velejadores para a disputa do troféu mais cobiçado do esporte e sim quem tem melhores advogados e tem mais dinheiro para desencravar da galeria de protótipos esquisitos da NASA, aquele que vai ser dominante.
Ao final da disputa, sinalização de que tudo mudará na próxima edição, garantida por vencedores e vencidos em apertos de mão midiáticos. Voltarão as regatas prévias entre desafiantes, os barcos deverão consumir menos dólares e mais talento...não sei...o ego das pessoas, e os times Alinghi e BMW/Oracle tem deles de sobra, quando exacerba, é a mais exuberante demonstração de infração conjunta ao Sete Pecados Capitais, cujo motor, sempre, é a Vaidade.
E, num esporte que aprecio, e eventualmente pratico, e por isso, teria meu envolvimento garantido, senti muito pouco prazer em ver o resultado. Fosse de quem fosse a vitória.

O esporte tem um Céu e tem um Inferno.  Tem Santos e Demônios.

domingo, 31 de janeiro de 2010

Uma Fórmula 1 para muitos

2010 pretende ser um marco da aproximação da Fórmula 1 de um público maior. Muita coisa aconteceu: trocas de pilotos, volta de Schumacher, criação de uma nova equipe de fábrica ( nova e velha ao mesmo tempo, a Mercedes), entrada de mais três equipes e, para variar, mudança no regulamento.
De tudo isso, acho que quatro aspectos merecem destaque.
O primeiro é a volta de Schumacher. Esta foi tipicamente para atarir público, embora o maior vencedor da F1 de todos os tempos tenha se aposentando de forma um pouco precoce. É inegável o apelo de Schumacher voltando a correr com feras como Raikkonen, Alonso, Button, Hamilton, Massa, Vettel e Kubica. Não tão feras quanto ele, Schumacher, mas que estão em pleno ritmo. Schumacher deixa de lado as experiências meio dolorosas com motos e a participação em eventos festivos para encarar de novo 1 hora e meia de pista em ritmo forte. Acredito num Schumacher forte e que até deve ganhar corridas, mas não acredito num Schumacher dominante. Acho que ele deve experimentar algumas posições intermediárias nos grids de largadas. Mas não me convençam que a dupla Brawn-Michael não pensará muito sobre a novidade do ano, que aproveito o ensejo, para começar a explicar o que penso.
Os carros estão sendo apresentado com grandes novidades aerodinâmicas. Ferrari e McLaren seguiram caminhos distintos na parte de cima do carro e parecidos na parte de baixo. A Mercedes não pode ser analisada. O carro mostrado nada mais era que um modelo 2009 com pintura nova. A Renault mostrou um carro semelhante à McLaren. Por baixo, por mais que as fotos estivessem proibidas e os difusores escondidos, acho difícil que a solução se diferencie da "sacada Brawn" de 2009, logo facilmente adaptada pela Red Bull, copiada com algum sucesso pela McLaren e sem sucesso pela Ferrari. Além disso, o conjunto aerodinâmico dianteiro de todos parece, com algumas diferenças pequenas com o que a Red Bull fez em 2009. Na parte superior, a McLaren, no entanto, inovou. Mudou as tomadas de ar para os radiadores de dimensão e posição e colocou uma barbatana que alguns carros já exibiam em 2009, mas que, nesse ano vem radical, quase engolindo o aerofólio traseiro. A carenagem do motor é diferente. Por causa das tomadas de ar redimensionadas, a McLaren não pode "enclausurar" seu motor num espaço restrito. Logo a parte traseira da McLaren tem mais aletas para conduzir o fluxo de ar e a Ferrari adotou a solucão "Red Bull 2009", com uma carenagem que quando se vê, mal se acredita que ali  dentro vai um V10 de 3 litros. A Renault foi no meio termo: colocou a super-barbatana e afunilou a carenagem traseira.
Acho que o espírito de Colin Chapman pode aparecer nessas mudanças, mas me chama mais atenção o terceiro ponto que gostaria de abordar: em 2010 não haverá reabastecimento.
Com isso os carros largarão com peso alto, maior que em 2009, e consequentemente exigindo mais do piloto e pneus. No primeiro terço de uma corrida, os tempos serão altos e vai valer quem conseguir ser rápido e poupar equipamento, coisa que esses detalhes aerodinâmicos, a menos que alguma inovação tipo Colin Chapman apareça, deverão incrementar pouco a performance. Nos dois terços seguintes, vai valer muito os pneus escolhidos, o estilo de guiar do piloto e aí sim, a aerodinâmica entra em cena, pois os tempos começarão a abaixar. Essa mudança no regulamento me parece muito mais importante na concepcão de um projeto e de estratégia de corrida que barbatanas e assemelhados. Isto porque a possibilidade de ajustar o equilíbrio de peso do carro conforme a pista vai valer e muito no acerto final.
E os tanques de combustível são uma espécie de lastro variável, que começa pesado e, deseja-se, termine muito leve, sem prejuízo do equilíbrio. Quem matar essa charada vai sair na frente. E. dentro dos carros ninguém viu ainda.
Por fim, o aumento das equipes. Lotus, USF1 e Campos entram aumentando o número de carros. Sinceramente, creio que as três farão figuração. A Lotus ( que não tem nada a ver com a antiga Lotus, só o nome) vem mais capitalizada, mas sem tradição em competições de ponta. A USF1 é uma daquelas tentativas de Bernie Ecclestone te atrair público no Estados Unidos. Trata-se de uma equipe tão esquisita que a FIA teve de vistroriar circuitos nos Estados Unidos, escolhendo um no Alabama, para a USF1 "economizar" nos testes pré-temporada. A Campos, que tentou usar o Bruno Senna como jogada de marketing, já declarou que não tem dinheiro nem para pagar os chassis Dallara...Dallara ??? Bem, vejamos a aventura do empresário espanhol Adrian Campos em que pode terminar.
As opções deste ano então são maiores em tudo. Em estratégia, em pilotos candidatos ao título, em equipes, em solucões e no desenrolar das corridas. E é uma temporada longa cheia de corridas que só serão vistas pela TV, como China, Malasia, Bahrein, Abu Dhabi. Vamos conferir se a F1 reverte a tendência de desinteresse dos últimos três anos

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

Don't get me wrong

I've never payed attention to the lyrics of this dancing hit of the Pretenders. It's beautiful, sincere. Says a lot about me, and I believe, about a lot of people I know. My tribute to this "pop poem".

Don't get me wrong
If I'm looking kind of dazzled
I see neon lights
Whenever you walk by

Don't get me wrong
If you say "Hello" and I take a ride
Upon a sea where the mystic moon
Is playing havoc with the tide
Don't get me wrong

Don't get me wrong
If I'm acting so distracted
I'm thinking about the fireworks
That go off when you smile

Don't get me wrong
If I split like light refracted
I'm only off to wonder
Across a moonlit mile

Once in a while
Two people meet
Seemingly for no reason
They just pass on the street
Suddenly thunder, shower everywhere
Who can explain the thunder and rain
But there's something in the air

Don't get me wrong
If I come and go like fashion
I might be great tomorrow
But hopeless yesterday

Don't get me wrong
If I fall in the "mode of passion"
It might be unbelievable
But let's not say "so long"
It might just be fantastic
Don't get me wrong



Mainly the part "I might be great tomorrow but hopeless yesterday". That's part of life, please, don't get me wrong. 

domingo, 3 de janeiro de 2010

Um canhota falador

Depois de um texto sobre o título de 1970, decidi escrever isoladamente sobre cada uma das figuras mais destacadas daquela que, para mim, foi a mãe de todas as Copas. A única em que haviam cinco equipes num mesmo patamar, prontinhas para ganhar o título ( Brasil, Itália, Alemanha, Uruguai e Inglaterra). A única que reuniu Pelé, Beckenbauer, Bobby Moore, Facchetti, Cubilla, Rivera, Uwe Seeler, Maneiro, Gordon Banks, Marzukiewicz e uma plêiade de outros brasileiros ( Tostão, Gerson, Rivelino, Felix). A única com média de gols acima de 3, depois da de 54. Enfim, a única em que para vencer, o time precisava ser de outro mundo, como o Brasil foi.
Não iria gastar minhas linhas escrevendo sobre Pelé e Zagalo. O primeiro, melhor do mundo e melhor daquela Copa. O segundo, um técnico abençoado por um elenco sobrenatural e que, de forma igualmnte sobrenatural, conseguiu acomodar todos os talentos no mesmo time.
Começarei, pois, por aquele que foi para mim, tão ou mais importante dentro de campo como Pelé e fora dele como Zagalo. Gerson, Gerson de Oliveira Nunes, niteroiense, jogando sua segunda e última Copa depois de 8 anos de serviços prestados ao futebol carioca ( Flamengo e Botafogo, com vários títulos estaduais).
Quando foi convocado, Gerson era jogador do São Paulo. Por pouco tempo, pois finda a Copa, Gerson voltou ao Rio para ser campeão novamente pelo Fluminense. O problema, e que todo mundo sabe : Gerson tem medo de viajar de avião.
Já no time de 67/68 do Botafogo, que tinha vários craques, Gerson era o líder. E como ser líder num time com Pelé ? Simples. Assistam aos jogos da Copa de 70. A bola rodava o meio de campo todo e passava pelo menos duas vezes nos pés de Gerson. Além disso, não pare de falar um minuto sequer durante os 90. Seu apelido pode virar Papagaio, mas vão te ouvir.
Jogando como meia avançado, Gerson já havia experimentado a necessidade de recuar no Botafogo, onde Jairizinho tinha mais explosão e velocidade para jogar na frente. Na Seleção, não se fez de rogado. Ficou ali ali...à frente de Clodoaldo, e numa linha bem atrás do quarteto Tostão-Pelé-Jairzinho-Rivelino.
A estreia naquela Copa, contra a Tchecoslováquia era simplesmente a reedição da final de oito anos antes, e os tchecos fizeram 1 a 0, aos 10 minutos...time nervoso ??? de jeito algum....todos queriam resolver do seu jeito, é incrível ver Gerson gritando com todo mundo. Gritava tanto que foi o único no Estadio Jalisco em Guadalajara que não viu a tentativa de Pelé encobrir o goleiro Viktor do meio-campo. O "canhota" estava parado de mãos nas cadeiras perguntando "Ô crioulo, endoidou, porra ?" Mas o Brasil empatou aos 24 e tranquilizou o time. Gerson então resolveu abrir sua caixinha de maldades. Em dois lançamentos primorosos, abriu o caminha da vitória, colocando um de 40 metros no peito e Pelé e um daqueles perfeitos, do qual era mestre, de 40 metros também e desmontando a linha de impedimento adversária, que pegou Jairzinho livre. Aí, sentiu e como 1970 era a primeira Copa em que substituições eram permitidas, acabou sendo o primeiro brasileiro oficialmente substituído em jogo de Copa do Mundo, dando lugar a Paulo Cesar Lima. Mas, antes, cantou a bola para seu substituto e para Zagalo, a mina é a direita....dêem a bola para o Jair que ele faz a festa, e Jair correspondeu e marcou o quarto gol.
A contusão o tirou do jogo contra a Inglaterra e do jogo contra a Romênia. Contra a Inglaterra, foi simplesmente substituído por Paulo Cesar. Contra a Romênia, Rivelino também estava machucado e Piazza foi para o meio, com Fontana entrando na zaga. No meio do jogo contra a Romênia, Zagalo entendeu que não estava dando muito certo, tirou Fontana, colocou o ponta esquerda Edu do Santos e recuou Paulo Cesar para o meio e Piazza para a zaga, em tentativa de simular a escalação original.
Contra o Peru, Rivelino mostrou logo que tinha se recuperado. Gerson não. Enquanto o primero fazia gol e corria muito Gerosn estava tímido.  Os peruanos também marcavam-no em cima, resultado de um amistoso de 1969 em que Gerson quebrara a perna de um meia peruano. Foi substituído.
Mas nos dois últimos jogos viria o solo de Gerson. Igualzinho aos tchecos, os uruguaios abriram o placar aos 19 minutos. Alguém nervoso aí ??? Pois surge a liderança de Gerson, conversando daqui e dali, Gerson fez Tostão se deslocar, observou que Jair recebia marcação dupla e desleal, assim como Pelé e ele próprio. Só que quem jogava bem e muito por estar num dia iluminado, era Rivelino. Bem...Gerson foi recuando, recuando, e de repente orientou Clodoaldo a se mandar...gol do Brasil, Clodoaldo, em passe de Tostão como se fora um ponta-esquerda...Gerson cantou a jogada.
Consta que no intervalo deste jogo, para afugentar de vez o fantasma de 1950, Gerson pediu a palavra e deu um dos poucos esporros da vida de Pelé, além de um dos piores esporros que os outros jogadores já ouviram.
O segundo tempo foi o "choque de futebol" total. Rivelino, inspiradíssimo, driblava, o meio-campo voltou a circular a bola, passando por Gerson. Pelé, nos seus 45 minutos mais vibrantes desde 1958. Só Jairizinho parecia desencontrado. Parecia. Bola de Gerson para Tostão que, no pivô, jogara para a velocidade de Jairizinho...ele e o goleiro sozinhos depois de deixar dois marcadores para trás....2 a 1.
Gerson troca bola com Pelé...Pelé com Tostão, com Pelé....e tá lá o negão na cara do gol, drible de corpo, mas caprichosamente a bola não entra. Lançamento de Gerson para Tostão que escora para Pelé. Ele mata e deve ouvir Rivelino pedir a bola que nem louco. Bomba de Rivelino....3 a 1 e fanstasma de 1950 devidamente liquidado...Gerson olha para Zagalo...trocam sorrisos...o time ia para a Final.
Contra a Itália, Gerson fez seu único gol na Copa. E que gol....Aos 19 minutos da etapa final, com a Italia totalmnte em "catenaccio"...pareciam não haver espaços. Bola para Jair que fugiu tentando alguma coisa na esquerda. Não conseguiu, mas Gerson pegou a sobra e soltou seu famoso tiro reto, que o fez famoso no Flamengo....2 a 1 Brasil, gol do tri. Gol do título.
Antes disso, Gerson havia visto a defesa brasileira falhar em conjunto e permitir o empate italaiano....bem, a bronca em campo dada por Gerson e Piazza foi ouvida por satélte aqui no Brasil.
Depois do seu gol , ele foi visto dando um lançamento de 40 metros para Pelé quase na pequena área, que não quis finalizar e deixou Jairzinho na cara do gol....3 a 1 Brasil.
Uma bronca, um golaço e um passe magistral. Definitivamente não podiam faltar estas três coisas com Gerson em campo. Um líder.

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

Efeito estufa na minha cabeça

Sinceramente, minha paciência com essas discussões climáticas estão se esvaindo quase tão rapidamente quanto a calota polar ártica. A diferença é que em vez de um processo de derretimento, a minha complacência em ser mero assistente deste embate, está sendo violentada todo dia.
Não é possível que subestimem tanto o poder de racionalizar de, pelo menos, metade da Humanidade, em fazer crer que vai sair algum acordo factível, sem divergências e sem faltas de assinaturas, ao juntar numa mesma mesa, China, Estados Unidos e países africanos por exemplo. e estabelecer regras plausíveis.
Não são as fronteiras políticas que encerram o emporcalhamento do planeta.
Mais ou menos assim: a Europa foi totalmente desmatada já há uns duzentos anos, ou até mais, em países como Reino Unido e França. Burkina Faso continua sendo só floresta ( e pretende deixar de sê-lo, para se "desenvolver").
Os Estados Unidos emitem mais efluentes de combustíveis derivados de petróleo sozinhos do que as outra nove maiores economias do mundo. É toda uma economia, por sinal a mais forte, firmemente baseada em automóveis, gasolina, óleo Diesel, caminhões e termo-elétricas. No Brasil, em que pese nossos combustíveis serem muito ruins sob o ponto de vista ambiental (enxofre, benzeno e outras quinquilharias carcinogênicas e que promovem a dança da chuva ácida, por exemplo), usamos mais biocombustível ( etanol) do que gasolina.
A China que só tem 1,3 bilhão de pessoas saltando da Idade Média para o século XXI em apenas vinte anos, precisa de energia. Vai usar, claro, a mais emporcalhante forma de energia conhecida, o carvão, que não só tem malefícios dos combustíveis de petróleo, como é campeão de emissão de particulados esquisitos ( particulado é aquele negócio que você respira, se aloja num lugar de seu corpo, que não o absorve e dali vira um tumor ou um enfisema). Em contraponto, a Noruega, que já colocou sua meia dúzia de habitantes no século XXI e vendeu seu petróleo quase todo, agora só quer saber de "fontes de energia limpa".
Convenhamos, dá para convergir para algum ponto ?
E de mais a mais, volta e meia surge um estudo bombástico dando conta que arrotos e peidos de vaca e ovelha no mundo todo emanam mais gases que a frota de veículos alemã. Que a Rússia, apesar de um vasto parque de usinas nucleares construídas com tecnologia que vem sendo desenvolvida desde o Império Romano ( são usinas-ruínas), também usa carvão à vera, dado que fica difícil convencer um cidadão casaque ou siberiano a não se aquecer nesse inverno, quando o carvão está ali, no quintal de casa.
Outra coisa interessante. Nunca vi ninguém mais criticado que Thomas Malthus, economista que previu que a população cresceria geometricamente e os meios de produção aritmeticamente...."Ho, ho, ho, tolo Thomas, esqueceste da tecnologia que aumenta a escala e a eficiência"...o tolo Thomas só deve ter pensado num contexto mais amplo. De fato, maquinario agrícola e fertilizantes aumentam a produtividade, fazendo com que mais alimentos sejam produzidos em áreas menores. Só que o maquinário consumiu recursos em outro lugar e o fertilizante, seja de fósforo, potássio ou nitrogênio, ou dos três, emporcalhou um outro lugar longe da plantação. Tenho a leve lembrança de uma fábrica de fertilizantes em Bhopal, na Índia, que teve um probleminha de troca de turno e contaminou uns 3000 elencos de novela de Gloria Peres, que morreram mal, cegos, com peles queimadas.
Enfim, Malthus, esse maluco primata, previu o que está na cara. A Terra comporta com algum conforto uns 3 bilhões de seres humanos. Somos seis bilhões.
Um acordo interessante para Copenhague seria nomear o Hitler, o Stalin e o Genghis Khan da vez e fazê-los trabalhar coordenadamente para eliminar ( sem preferências estilísticas, raciais ou comportamentais, ok, Herr Hitler ?), metade da Humanidade. Fazendo sumir rapidamente 3 bilhões de pessoas do planeta, o consumo de tudo cairá bastante, então teremos menos carros na rua, menos carvão queimado, menos batata frita sendo consumida, menos coxinhas de galinha necessárias, enfim, tudo se ajustaria naturalmente. Adeus efeito estufa.
Mas por ser pouco razoável, que mesmo esse incrível trio trabalhando em conjunto, tenha alguma aprovação que dure, digamos, até o segundo genocídio promovido sob o nome pomposo de "redução de consumo natural por sequestro de consumidores", talvez seja mais prudente partir para outra solução.
E então entram em cena as soluções bodosas. Com metas de redução de emissão de gases e sequestros de carbono.
Vamos por partes. Metas de redução de emissão de gases...hmmm...ou seja, meu país chega a Copenhague com um estudo feito durante dez anos por pesquisadores multi-disciplinares e apresenta: vou reduzir a emissão dos gases do efeito-estufa em 28,333% em 96 meses, a começar em 2015. Tal redução será obtida com veículos híbridos ( tecnologia a desenvolver), uso de biocombustíveis ( efeitos maléficos ambientais em estudos) e sequestro maciço de carbono. E aqui, vamos a uma pausa.
O que raios quer dizer exatamente "sequestro de carbono" ? "Sequestro" eu sei o que é. Pega-se um desavisado da família Getty ou politicamente proeminente, enclausura-se o cidadão, apresentam-se pedaços de seu corpo para provar que está sendo morto aos pouquinhos, exige-se um resgate ou contra-partida e, se os sequestradores forem caras legais, devolvem o sequestrado, talvez sem uma orelha. Ministros brasileiros atuais usaram bastante esta tática na ditadura militar e como bons sequestradores, devolveram, sem muitos desmanches, os diplomatas sequestrados.
Agora, voltemos ao tal "sequestro de carbono". Florestões seriam responsáveis por retirar o excesso de dióxido e monóxido de carbono. Até aí não vejo configurado o delito penal "sequestro". E depois ? Do claustro da fotossíntese ao que os carbonos sofrerão, terão que confessar que formaram compostos mais limpinhos e serão devolvidos à livre circulação atmosférica, sob condicional. Só pode ser isso. Senão o termo técnico não seria sequestro e sim absorção de carbono.
Tudo me confunde, esquenta minhas sinapses e aumenta o efeito estufa particular. Se dessa COP-15, que já teve a Presidente renunciando, o Obama informando que não vai, o Lula lançando um factóide aparentemente genial, mas, que por ser impossível de ser cumprido, é só corajoso mesmo, e pancadarias de Ultimate Fight nas ruas da plácida Copenhague sair algo que seja minimanete conclusivo será uma baita surpresa.
Nesse meio tempo, sinto falta de mais presença do Al Gore, do Greenpeace, dos japoneses. Será que estão com um comportamento "low-profile" proposital, já prevendo que COP-15 corre o risco de um fiasco ?
Borbulham meu neurônios. Não vejo solução a não ser a tríplice entente Hitler-Stalin-Genghis Khan. 6 bilhões é gente prá chuchu, e para qualquer outro hortifrutigranjeiro, incluindo a mandioca.
Será que o documento final de COP-15 definirá regras de crescimento populacional ?
Como diz um amigo meu, ambientalista das antigas, talvez o resto da conversa seja "merda de boi" - "bullshit" - espressão em inglês para blá-blá-blá.
A propósito. O cocô das vacas poluiu mais que os gases emanados por motocicletas da Indochina em 2008/2009.

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

Momento Inesquecível

A Copa do Mundo de 1970, no México dificilmente será substituída nas minhas lembranças sobre futebol por outro evento ou episódio mais marcante. Nestes dias em que muito se falou de um fim de Campeonato Brasileiro eletrizante e vimos o sorteio dos grupo da Copa das Vuvuzelas de 2010, cheguei à conclusão que muita coisa mudou entre 1970 e 2009. Para começar, minha idade, claro. E, naturalmente, o próprio futebol.
A idade que eu tinha em 1970 ( 7 anos) me levava ao lúdico, à idolatria de Pelé, Tostão, Rivelino, Gerson, Jairzinho e até de alguns que apareceram menos, como Paulo César e Marco Antonio. Hoje, 40 anos mais velho, sou crítico, rabugento, vejo mais o erro que o brilho, enxergo más intenções onde elas provavelmente não existem e entendo como sensacional algo que em 1970 era mais visível que é o improviso, o jogador voluntarioso, o drible. Com toda a sinceridade, não consigo ver o Petkovic de 2009 sentado nem no banco de reservas do América da década de 70, que tinha no meio-de-campo Ivo, Thadeu, Braulio e Gilson Nunes.
Por isso, acho que a Copa de 70 foi o meu momento inesquecível no futebol em todos os tempos. Para começar a justificar isso, cabe ressaltar que, apesar de 7 anos de idade, registrei e nunca mais apaguei da memória alguns detalhes daquela Copa. Lembro, por exemplo, do sorteio dos grupos. Os cabeças-de-chave eram México (anfitrião), Itália (campeã européia), Inglaterra (campeã do mundo) e Alemanha Ocidental (vice mundial e europeia). O Brasil não era cabeça-de-chave. No sorteio, caiu no Grupo C, logo chamado de Grupo da Morte, com Inglaterra, Tchecoslováquia ( que seria campeã europeia dois anos depois) e Romenia, que tinha desbancado Espanha e França nas Eliminatórias.
João Saldanha foi substituído por Zagalo alguns meses antes. A campanha nas Eliminatórias tinha empolgado, sob o comando de Saldanha. O Brasil massacrou Colômbia, Venezuela e Paraguai numa sequência de jogos fabulosos de Tostão. Entre as Eliminatórias e a Copa, Tostão levou uma bolada no olho e quase ficou fora da Copa. E esse problema seria o que o iria tirar dos campos precocemente, em 1973. Pelé tinha tido um mau ano em 66, mas recuperara-se em 67 e 68. Em 1969, Pelé começou a dar sinais de esgotamento. Foi quando surgiu a notícia do problema de visão que ele teria. Hoje, sabe-se que Pelé era fisicamente mais bem preparado que 90 % dos jogadores de seu tempo e sua presença em qualquer jogo parava até guerra. Ele simplesmente estava esgotado fisicamente, porque tinha que jogar tudo que é jogo. Não parece muito hoje, mas o jogo de Pelé dependia de suas arrancadas, de uma velocidade impressionante e de uma impulsão que o fazia, com 1,70, subir mais que gigantes de 1,85. Haviam também nomes bons em profusão atuando no Brasil: Rivelino, Paulo César, Jairzinho, Edu ( do América - RJ), Ademir da Guia, Samarone, Dirceu Lopes, todos de meio-campo. O Brasil era pobre em zagueiros e goleiros. Volantes, como hoje vemos jogar então, nem pensar. Talvez Dudu, do Palmeiras fosse o mais próximo do que se chama de "volante de contenção" atualmente. Haviam Zanata, Liminha, Denílson, Zé Carlos, todos muito técnicos. E havia Piazza, que marcava mais duro.
Pois bem. Imagine-se no lugar de Saldanha para acomodar isso tudo no time. Ele avançou Tostão para centro-avante, deslocou Jairzinho para as laterais, recuou um pouco Gerson e colocou o ponta Edu, do Santos. Piazza era o meio-campo recuado. A zaga era Britto e Joel ( ou Fontana, do Vasco). Nas laterais, Carlos Alberto e Marco Antonio, um moleque promissor do Fluminense. No gol, problemaço: Felix, Leão e Ado ( Corinthians) disputavam quem seria titular, mas nenhum inspirava confiança.
Quando Zagalo chegou, resolveu fazer umas mudanças. Tirou Joel da zaga e recuou Piazza. Lançou Clodoaldo, jovem do Santos, habilidoso mas não muito bom marcador, como volante, e surpreendeu o mundo ao escalar Rivelino na ponta-esquerda.
O Brasil entrou em campo para a estreia contra a Tchecoslováquia com Felix, Carlos Alberto, Britto, Piazza e Marco Antonio ( substituído por Everaldo, que ganhou o lugar); Clodoaldo, Gerson e Pelé; Jairzinho, Tostão e Rivelino. Ou seja, eram cinco jogadores de meio-ataque no mesmo time, um cabeca-de área transformado em zagueiro, uma lateral-esquerda com dois novatos e um goleiro prá lá de inconsistente. Lembro que cheguei da escola e liguei a televisão, em preto-e-branco, hipnotizado para ver o jogo. Começou mal. Uma bobeada de Britto e Carlos Alberto e um tcheco faz 1 a 0 logo aos 15 minutos. Para completar, comemorou com um sinal da cruz. Como pode ??? País comunista aceita prática religiosa ??? Roí unhas 25 minutos. Aí Pelé cavou uma falta inexistente na entrada da área, O goleiro tcheco Viktor era considerado um dos melhores do mundo, mas quase tinha tomado um chapéu do meio-de-campo de Pelé a alguns minutos e parecia nervoso. Uns 5 estavam colocados para bater a falta, que pedia a clássica batida por cima da barreira, buscando o alto do gol. Nada disso. Rivelino deu um pique e soltou um foguete bem em cima do tal do Viktor. O cara estava na bola, mas não deteve o chute. 1 a 1 e Rivelino comemorando como se estivesse exorcizando traumas antigos, agitando os braços com força.
O segundo tempo começou com o time europeu medroso e aparentemente cansado. Aí, Gerson, como faria outras várias vezes na Copa, fez um lançamento de uns 5 quilômetros para Pelé, que estava marcado. Entra em cena o gênio. Pelé se antecipou ao marcador, com sua impulsão fenomenal aparou a bola no peito lá na cota dos três metros de altura, deixou cair no chão, e empurrou para o gol. Saí igual um louco correndo pela casa. Era um golaço. Eu não escondia o fascínio de ver o meio-campo do Brasil tocando a bola, de uma lateral a outra, sempre parando em Gerson. Numa dessas escalas forçosas no canhotinha, ele descobriu um Jairzinho tentando bater o recorde mundial dos 100 m rasos pela direita e pimba ! outra bola de 5 quilômetros. Jairzinho fez graça, jogou por cima do agora totalmente apavorado Viktor e emendou para o gol vazio. Fui para a janela, olhei a bandeira que tinha feito em verde e amarelo e que modéstia à parte era a maior da rua em que eu morava. Eu estava vibrando. Mas ainda tinha mais. Numa jogada individual, Jairzinho driblou a defesa adversária toda e fez o quarto. 4 a 1. Desci para a rua, festa na rua, com muito papel picado e a criançada se divertindo.
O jogo seguinte era contra a Inglaterra. O mais temido. Os 4 a 1 tinham me dado a falsa impressão que tudo seria fácil. Não lembro de detalhes do primeiro tempo, apenas do chute de um atacante inglês no rosto de Felix. Aliás, neste jogo, Felix justificou sua convocação. No tradicional chuveirinho inglês, Felix se virou socando bolas de tudo que foi jeito. Gerson não estava em campo. Paulo César, em seu lugar, meio isolado na esquerda. A defesa inglesa parecia a muralha de um castelo. Pelo menos, os ingleses não aprontavam muito com a bola no chão.
No intervalo fui para o quarto e rezei. Juro.
No segundo tempo o Brasil dominou mas nada de gol sair. Enfim, Tostão fez uma jogada maluca na meia-esquerda e cruzou para Pelé, que, com calma ajeitou para Jairzinho que, sem calma nenhuma, disparou um foguete para ver se aquele impressionante goleiro segurava. Gol. Não lembro do resto do jogo. Desci para a rua para comemorar de novo. Uma cena desse dia nunca mais esquecerei. Passou na minha frente um Opala pintado de verde e amarelo com o placar do jogo Brasil 1 Inglaterra 0. Pensei: qual maluco faria isso ? Acho que muitos. Havia uma euforia absoluta no ar.
O terceiro jogo foi contra a Romenia e o menos emocionante pois o Brasil já estava classificado e logo da cara fez 2 a 0, com o Paulo César arrebentando na ponta esquerda. Mas a Romenia fez um gol. Então, me lembro que, com raiva, me debati e bati com a cabeça numa mesa de tampo de mármore que meus pais tinham na sala. Na mesma hora, Brasil  3 a 1. Meu pai pegou gelo, botei na testa, doía prá burro, mas eu nem ligava para a dor. Mas a Romenia fez o segundo e meu pai, gaiato, me disse: enfia a testa de novo na mesa para ver se o Brasil faz mais um gol. Lembro como se fosse ontem.
No mata-mata, o Brasil caiu contra o Peru. A lembrança das Colômbias, Venezuelas e Paraguais arrasados me deixavam calmos. Desconhecia eu completamente que os peruanos haviam eliminado a Argentina e para falar a verdade, eu não sabia que o futebol argentino era forte. Ouvia-se muito do Uruguai na época, fruto do trauma de 1950, mas pouco da Argentina. Início de jogo, 2 a 0, Tostão fazendo gol, parecia tudo tranquilo até que Britto e Felix resolveram complicar. Mas no final, com uma atuação de gala de Tostão, ficou 4 a 2. Me lembro de encarar o resultado como normal. Estava ficando convencido.
Aí veio o Uruguai. Pela primeira vez na minha vida, virei de costas para um jogo. Quase fui para o quarto chorar. O Uruguai fez 1 a 0, num frango premiado de granja de Felix e o Brasil não jogava nada. Para completar, os uruguaios se impunham na porrada e na arrogância. Tremi. De repente, Clodoaldo, que eu já até tinha esquecido que era jogador, recebeu um passe de Tostão e mandou para o gol. 1 a 1. Curioso que fiquei quieto. Só pensei na hora: falta um gol do Gerson...vai ser hoje...hoje, nem sei se o Gerson estava em campo, pois estava às voltas com uma contratura.
E não vou pesquisar para ver se estava ou não porque no segundo tempo surgiu em campo um herói que depois fui ter enorme orgulho de ver jogando com a camisa do Fluminense: Rivelino. O cara resolveu encarar os uruguaios, com dribles, elásticos, tomado porrada e levantando e encarando os celestes. Rivelino fez o segundo tempo contra o Uruguai encarnando a raça e a categoria. Mas o gol demorou até quase 30 minutos do segundo tempo, quando Jairzinho deu uma disparada e recebeu passe de Tostão para desempatar. Aí o Brasil abriu a caixinha de maldades contra o Uruguai. Pelé tentou gol de tudo que foi jeito. Rivelino pisava na bola e provocava os uruguaios. Carlos Alberto e Pelé se revezaram em retribuir as "gentilezas" dos adversários no primeiro tempo. Uruguaios na roda. Para fechar o show, um gol de linha de passe de treino com Pelé ajeitando para trás e Rivelino soltando uma bomba no canto. Rivelino comemorava com raiva. Transbordava alívio do stress, de sua entrega em campo. Talvez essa comemoração tenha sido a cena que mais me marcou nessa Copa.
Fim de jogo e a televisão começa a passar a prorrogação de Itália e Alemanha. Terminou 4 a 3 para os italianos, mas tiveram umas cinco viradas no jogo...que jogão...e eu não desgrudava da televisão. Só quando acabou, desci para a tradicional comemoração na rua e de lá de baixo, olhar o bandeirão que tinha pendurado da janela e que a esta altura já provocava certa ira de vizinhos de três andares abaixo, mas que sentiam que não podiam pedir para retirar...
Entre o jogo do Uruguai e a final eu lembro de muita coisa. O clima era positivíssimo. Haviam dúvidas se Gerson jogaria. Felix iria optar por jogar de luvas pela primeira vez na carreira...umas coisas esquisitas eram ditas sobre uniformes da seleção ( só recentemente soube que tratou-se de uma briga entre Adidas e Puma para calçarem os pés do Pelé na final). Os palpites diziam que seria 3 a 0, 3 a 1. Mas a Itália tinha um belo time, misto de Inter e Cagliari.
O jogo começou e eu tinha um nome em mente: Luigi Gigi Riva, artilheiro do italiano 69/70 jogando pelo modesto Cagliari. No início, Felix fez uma defesa de tirar o fôlego, mas me lembro de ficar calmo. Pelé subiu num cruzamento improvável de Rivelino e fez 1 a 0. Aí o Brasil resolveu dar show. Ao contrário de Jairzinho que jogava mal, Rivelino colocava sangue na ponta da chuteira. Facchetti não tinha a quem marcar: ora era Tostão, ora era Jair, ora era Pelé. Mas numa troca de bola boba na defesa, Clodoaldo foi dar de calcanhar e o bom Boninsegna ( que depois fez dupla de ataque com o Fabio Capello, hoje técnico da Inglaterra, na azzurra) aproveitou e empatou. O time brasilero ficou nervoso ainda mais com um gol anulado no final do primeiro tempo pelo juiz, que apitou fim do tempo antes de Pelé chutar livre de dentro da área.
O segundo tempo começou calmo, mas lá pelos 25 minutos eu já estava com várias almofadas em cima escondendo o rosto. O jogo persistia 1 a 1. Mas, numa jogada de força de Jair após bom passe de Everaldo, Gerson emendou uma bomba de canhota. Do meio para a frente, era o único jogador que não tinha marcado. Pronto, agora tinha feito. Golaço, e ânimo quadruplicado na Seleção Brasileira, italianos cansados e de guarda-baixa...showtime...
Gerson, em outro lançamento de 5 quilômetros para Pelé escorar de cabeça e Jairzinho entrar com bola e tudo, comandava o toque de bola no meio e o show. Dribles desconcertantes de Rivelino, jogando de novo um partidaço. Itália na roda, com Gerson apontando e distribuindo o jogo. Na jogada mas bonita de toda a Copa, Clodoaldo se livra de 4 italianos no meio, joga para Tostão que lança para Jairzinho como ponta-esquerda. Bola para Pelé na meia-lua da grande área. Sem olhar, o toque para o lado onde entrava na velocidade do som, o capitão Carlos Alberto para soltar uma bomba num gol apoteótico.
O desfecho ideal. O estádio idolatrando o futebol brasileiro. Unanimidade internacional. Era o time dos craques. Nunca se vira domínio tão predominante em finais de Copa desde 1958. Para completar conquista definitiva da Jules Rimet.
No dia da final não desci para festa tradicional na rua. Lembro de deitar no sofá da sala e ficar olhando para o céu. Como criança, a conquista daquele time era minha também. Me senti no topo no mundo. Mas com um sentimento de tranquilidade, e não de dominância. Era bom ter vivido aquilo. Era como se eu estivesse estado em campo.
Vi muita coisa emocionante no esporte depois disso. No futebol também, nas vitórias de Senna, no vôlei, nas lutas de Muhammad Ali. Sempre me envolveram emocionalmente. Mas acho que só em 1970 eu entrei em campo com a seleção.
Talvez isso explique porque lembro mais da Copa de 1970, quando tinha 7 anos, do que da 1974, quando tinha 11.
No dia seguinte da final. Com o Brasil tri-campeão, fui conferir a minha super-bandeira. Uma ventania da noite a rasgara e ela tinha ido embora. Chorei porque queria guardá-la. Era o meu símbolo particular de ter jogado naquela Copa.

terça-feira, 17 de novembro de 2009

Eu ouso criticar Orwell

Quase todo mundo leu "A Revolução dos Bichos", de Orwell. Eu o fiz já meio entrado em anos, mais precisamente em um final de semana de 1998. Comecei no sábado à tarde e terminei domingo de manhã numa bucólica paisagem que lembrava uma fazenda, de fato, em Itaipava. Ou seja, o ambiente favorecia a leitura e vice-versa.
O tempo passa e sempre ouvi um monte de coisas sobre a fábula dos bichos que se revoltam contra um fazendeiro beberrão e mal-educado para tomar conta de uma fazenda eles mesmos.
Como não se criam macacos em fazendas, principalmente na Grã-Bretanha, Orwell deve ter tido dificuldade para escolher o animal que ocuparia as funções de liderança na nova sociedade neo-zoolista ( termo que acaba de ser inventado por mim mesmo, e que, desconfio, soa estranho). Escolheu os porcos. Porcos são espertos, é verdade, mas ariscos. Também, e mesmo aqueles porquinhos cor-de-rosa ingleses, não primam muito pela higiene. Logo, acho que faltou algo para Orwell. Um bicho inteligente, mas que posto no poder, aos poucos sucumbisse ao conforto e às tentações deste mesmo poder.
Mas, realmente, se a fábula estava pronta na cabeça de Orwell sem contar com os porcos como protagonistas de poder, o que pode ter lhe passado pela cabeça ?
Em primeiro lugar, devemos situar o autor. O livro foi escrito na década de 40 e é uma nítida crítica aos rumos do comunismo soviético. No entanto, a URSS ainda não havia dividido a Europa com os Aliados Ocidentais e invadiria a Hungria somente em 1956, ano em que muito comunista de primeira hora e de paixão começou a desconfiar do modelo russo estendido para os países vizinhos. Ou seja, Orwell anteviu, acertou na mosca, mas ainda não haviam tantos dados para que ele montasse sua narrativa. Haviam sinais claros de problemas e assassinatos em massa promovidos por Stalin nas reformas agrária e cultural das décadas de 20 e 30. Havia também um prazer indescritível de determinada classe pensante russa quando visitava ou se refugiava no Ocidente, sugerindo que lá dentro do mundo comunista, as coisas eram ruins. Mas não estava na moda entre intelectuais ser reacionário, e aí entenda-se reacionário por anti-reformista e anti-reformista por um sujeito que via como alernativa ao capitalismo do rombo de 1929 o comunismo inexorável.
Orwell teve que equilibrar isto tudo. O fez com maestria em toda a fábula, mas, desculpem-me se pareço idiota insistindo neste assunto. Porque os porcos como classe dominante ? Que não fossem os macacos já entendemos porque. Fosse uma fazenda sul-africana ou bôere, e certamente um grupo de mandris ou gorilas ou chimpanzés seriam candidatos mais fortes.
Bem, examinemos a predisposição do mundo animal, pelo menos no âmbito doméstico rural, espécie por espécie.
O gato, por exemplo. Não daria um bom líder. Muito preguiçoso, de hábitos noturnos, esquivo, distante...ficou bem no livro.
Vacas e ovelhas e seus pares machos castrados então não dá nem para pensar. Totalmente pacíficos, provedores de ovos, leite e carne, abatidos aos poucos, sendo que os que sobram veem claramente o destino final do indivíduo sacrificado para alimentar outrem há séculos e ainda não aprenderam nada com isso. O carneiro, reprodutor, é, com o perdão da expressão, a definição mais clara que me vem à cabeça para traduzir o adjetivo "bundão". Entenderam ? Pois é. Sem maiores explicações.
Touros são ou comilões ou totalmente anti-sociais, como se veem em rodeios.
O galo seria um líder estranho, pois transmite valentia até a hora que chega a raposa, quando bate asa como a mais afetada galinha. Também não prima por ser muito inteligente.
Os gansos são corajosos e barulhentos. Poderiam ser uma espécie de Hugo Chávez, se alçados ao Poder. Muito barulho por nada, e tudo do jeito deles. Sem contar que, com toda a valentia, um bom Rottweiler liquida um ganso sem muito trabalho.
E os cães ? os melhores amigos do homem, inteligentes, que sabem andar pela casa, fazer truques, farejam, vigiam... Porque não dar o Poder aos cães ? Pois bem, nessa Orwell foi genial: a fortaleza do cão é sua dependência do homem, que chega à subserviência. No livro, os cães passam a ser a "polícia" dos porcos. É perfeito. Se me fosse dado o fardo de ser Presidente de um País, escolheria um cão super treinado como Ministro do Interior. Mas não escolheria nunca um cão como assessor. Iria me aconselhar mal e me adular demais.
Vejam a sinuca. Não sobra ninguém. Ahhh.... os cavalos. Orwell colocou os cavalos como proletários, servis, obedientes e explorados. Mas os garanhões não são exatamente assim. Padecem da mesma anti-sociabilidade dos touros, o que os desqualificaria também. Mas são garbosos, nobres. O que me leva a crer que se um puro-sangue fosse eleito presidente sofreria processo de impeachment em, no máximo, três anos. E numa ditadura não se preocupariam com coisas práticas a não ser desfilar, e acabariam muito mal.
E, finalmente, chegamos ao burro. Que qualidade, ou melhor, que defeito teria o burro para não ser o líder ? Confesso que venho comparando porcos e burros e não cheguei à minha preferência ainda.
No lugar de Orwell, talvez eu elegesse os porcos mesmo, para sutileza do texto.
Mas, observando de fato a realpolitik, as ditaduras, os tropeços de revoluções e de como seus líderes se comportam ao longo do tempo, os socialismos de século XXI, o conservadorismo norte-americano e a preservação do bem -estar europeu acima de tudo, eu fico com os burros.
Os burros !!! Esses sim, deveriam ser a classe dominante na "Revolução dos Bichos" !!!

domingo, 8 de novembro de 2009

O Muro caiu, todo mundo viu, mas eu não

Fazem 20 anos da chamada "Queda do Muro de Berlim". Nestes 20 anos muita coisa foi analisada, estudada, reconstruída e elocubrada sobre o que poderia ter feito, num espaço curto de horas, aniquilar uma barreira política e ideológica que durava mais de 30 anos.
Como sempre, meu compromisso com precisão de dados, fatos e versões será pequeno. Simplesmente porque os dias compreendidos entre meados de outubro e o Natal de 1989 serão sempre inesquecíveis para mim.
Em outubro de 1989, minha ex-mulher estava grávida de nosso primeiro filho. A previsão do nascimento dava conta de algo entre 25 de outubro e 5 de novembro. No início de outubro tive de fazer uma viagem rápida a Londres. Quando cheguei lá, passado um dia ou dois, as imagens de alemães orientais lotando trens para a Hungria e de lá para o Ocidente passavam repetidamente na televisão. Um mês antes, a Polônia havia aberto a fronteira, com a vitória nas eleições do Solidariedade. Mas o êxodo de poloneses era pequeno.
Os húngaros então, deixaram a fronteira com a Áustria aberta. Poucos húngaros foram ao Tirol até porque nem passaporte tinham. Mas os alemães orientais vislumbraram um ardil. Orientais ou ocidentais, eram alemães. Hungria e Áustria eram escalas para os destinos na então Alemanha Ocidental.
Voltei ao Brasil com as imagens na cabeça. Aquilo não iria parar por ali. Num encontro de líderes do Pacto de Varsóvia, Gorbatchov ignorou solenemente Erich Honecker, da Alemanha Oriental e se esmerou em conversas  com húngaros, tchecoslovacos e poloneses.
Nesse meio tempo, nasceu o Guilherme, em 31 de outubro de 1989. Internado no "Spa para pais novatos" da Clínica São Vicente, na Gávea, Rio de Janeiro, acompanhando mãe e filho que passavam otimamente bem, não desgrudava os olhos dos noticiários.
Os trens cada vez mais abarrotados. Protestos de uma Alemanha unida cada vez maiores. Líderes comunistas calados e acuados.
Quatro dias depois, a recém incrementada família voltava para casa. E eu, ao trabalho.
Primeira notícia ao chegar em casa e ligar a televisão: todo mundo em cima do muro, celebrando o fim da divisão.
Primeira notícia ao chegar no trabalho: reunião em Haia, na Holanda. Fiquei dividido. Meu filho recém nascido e minha mulher em casa, sem muitos sintomas de síndrome pós-parto. Aceitei ir, com muito medo de dar a notícia para a nova mamãe. Mas vislumbrando a possibilidade de chegar perto daquele momento histórico.
Embarquei num vôo da Varig que fazia Rio-Paris-Amsterdam. No Galeão, as imagens eram daquele povo todo alegre em cima do Muro, e de caras entre consternadas e surpresas de políticos. Em Schiphol, idem
Nem me lembro do que fiz em Haia. Aluguei um carro minúsculo e fui para a Alemanha. Minha intenção era ir a Berlin. Tolinho. Quando cheguei a Dusseldorf soube que tudo estava bloqueado. Mas o mais impressionante não foi a frustração. Foi sentir o clima. A tradicional sisudez alemã dava lugar à euforia em alguns e a um pessimismo em alto grau surpreendente em outros. Os eufóricos celebravam a possibilidade de reunificação do País. Os pessimistas tinham medo de mudanças, bruscas, num país que as teve em sequência no século XX, sempre traumatizantes.
Lembrei de meu filho pequeno e da minha ex-mulher. Vi que não viria muito mais do que já havia visto. Quem conhece a Alemanha sabe que é impossível imaginar a Alemanha desorganizada, confusa, tumultuada. Pois estava. Fiquei preocupado e voltei ao Brasil no primeiro vôo, e passei a acompanhar os fatos pela televisão mesmo ( não existia internet, muito menos twitter, é bom lembrar).
Mas aqueles dias não terminariam na Alemanha. Como castelo de cartas, uma a uma das repúblicas comunistas ruíram. A mais marcante foi a da Romênia, bem no Natal de 1989. O ditador Nicolau Ceausescu foi discursar na sacada do Palácio Presidencial e recebeu estrondosa vaia. Se retirou da sacada e sumiu. Cinco horas depois, ele e a mulher estavam presos. Julgamento transmitido pela televisão. Ceausescu e a estranha mulher humilhados e surrados em frente às câmeras. Doze horas depois, estavam sendo encaminhados a uma sala para serem...enforcados ! E foram, ao vivo e a televisão ainda mostrou os corpos com pescoço quebrado e olhos esbugalhados. Chocante.
Aqueles dias não saíram da minha memória. Fiquei obcecado por visitar aqueles países. A primeira chance veio em 1993. Aluguei um carro e dirigi sozinho de Amsterdam a Berlin, em um tiro só.
Achei que, em quatro anos, já haviam despejado dinheiro suficiente para melhorar Berlin Oriental. Errei. Continuavam sendo duas cidades. O lado oriental povoado por veículos Trabant, pessoas com expressão sofrida, roupas velhas, sujeitos estranhos, vendedores de souvenirs comunistas ( até peça de blindado russo podia ser comprada). Por questão de tempo, passei poucos dias, mas era a minha primeira ida a Berlin e foi inesquecível.
Depois voltei em 1995. Mesmo roteiro automobilístico Amsterdam-Berlin, mas, desta vez, com um amigo. A estrada em antigo território comunista estava melhor. Mas Berlin Oriental continuava quase igual. A mesma gente com semblante sofrido, roupas surradas e os imortais Trabants. O metrô tinha sido interligado, mas quando se entrava no antigo lado oriental a velocidade do trem caía à metade. As estações eram cenários de filmes tipo "O Albergue". Do lado antigo ocidental, vi profusão de mansões, gente bonita, shopping centers novos, Mercedes-Benz e BMW novos.
Arriscamos uma ida a Dresden. A cidade com história trágica: já tomada e pacificada pelos soviéticos na II Guerra foi alvo do mais violento bombardeio aliado não-atômico. Pelo simples motivo de destruir o legado artístico e cultural da cidade que abrigou uma das mais afamadas Universidades da Europa e que foi simplesmente o centro da música durante 5 séculos. Só vi prédios cinzentos em estilo mesclado Stalin-Mobutu-Niemeyer. Ou seja, o planejamento do Niemeyer, a austeridade do Stalin e o acabamento do Mobutu. Terra arrasada. Identidade alemã inexistente e dinheiro, bem, dinheiro dos ocidentais. Os orientais continuavam em estado pré-capitalista.
Fui à recém criada República Tcheca. Apesar de Praga ter renovado minhas esperanças de que o legado comunista teria um fim não muito longo, nas estradas proliferavam prostitutas e tudo o que se pode imaginar ligado à pornografia.
Voltei mais vezes, principalmente entre 1996 e 2000. Melhoras daqui e dali. Mas não adiantava, a divisão era visível. Desde 1989, a população da antiga Alemanha Oriental encolheu em dois milhões de pessoas, mesmo com investimentos pesados em cidades como Dresden e Leipzig. A crise de 2008 atingiu em cheio os países da antiga Cortina de Ferro. Uma viagem de Londres a Beograd por exemplo, é quase tão chocante quanto ir da Zona Sul do Rio de Janeiro até o Complexo do Alemão.
Hoje surgem detalhes. O muro não caiu exatamente. Um oficial do "check-point" Charlie, aliás o ponto de passagem de um lado para o outro, e não o Portal de Brandenburgo, teria interpretado uma ordem de dispersar a multidão como deixar a multidão passar para o outro lado.
E que o colapso comunista era inevitável. O deficit do sistema comunista era financiado com dinheiro de abastados capitalistas ocidentais. E o dinheiro secava e a carestia no lado comunista crescia. Os governos precisavam ou exportar gente ou importar insumos para os países não pararem. E Reagan sabia muito bem disto, por isto teria discursado no mesmo ponto simbólico do Portal de Brandemburgo em 1987, ao alcance de rifles russos, exortando os alemães a derrubarem o muro.
Seja como for, talvez tenha sido o momento simbólico ( tipo "Queda da Bastilha" e "Grito do Ipiranga") da História que vivi mais de perto.
E, apesar de tudo, da emoção da hora, da adrenalina de tentar chegar a Berlin, de comprar bugigangas de  soldados russos mutilados, de viajar Eslováquia adentro vendo camponeses que talvez nunca tenham ido ao dentista, de ver soldados sérvios de 2 m de altura intimidando camponeses croatas, bósnios, albaneses e outros, enfim, de ir à Europa e ver miséria e drama, hoje posso contar que vi o episódio.
Mas não vi ainda a História mudar.

domingo, 1 de novembro de 2009

2012 e o Fim do Mundo

Estava hoje, ou melhor, ontem, em 31 de outubro de 2009, despreocupadamente fazendo umas comprinhas de supermercado quando me deparei com a capa de uma revista semanal (bons tempos em que se chamava isso de hebdomadário !!!) de grande circulação e o meu estado de despreocupação passou instantaneamente ao de inquietação, para logo depois virar preocupação mesmo.
Para completar a introdução visivelmente paranóica, hoje, ou melhor, ontem, 31 de outubro de 2009, foi aniversário do meu filho, e no jantar de comemoração o assunto dominante foi o mesmo da capa do tal hebdomadário. O fim do mundo em 2012. Mais exatamente em 21/12/2012. E cá estou sem sono porque estou realmente preocupado com o Fim do Mundo em 2012.
Não li muito a respeito, não vi o tal filme que traz imagens inéditas do fim do mundo, sequer comprei a revista para ler a matéria, mas estou em pânico quase.
Explico porque.
Tudo começa com uma coincidência de calendários desenvolvidos por civilizações antigas, como os maias e os chineses de muito antes de Mao-Tse-Tung, entre outros. Passa por uma linha comum em várias religiões que entendem que haverá inexoravelmente um momento de ruptura com o todo atual e algo evolucionista acontecerá, principiando uma nova civilizacão ou uma nova "raça". Segue passando por previsões de físicos, botânicos, biólogos, climatologstas e outros cientistas respeitados com indicadores de um colapso da Humanidade tal e qual a conhecemos hoje. Por exemplo, Einstein teria predito que o decréscimo populacional de abelhas no Hemisfério Norte seria um indicador de uma catástrofe ambiental e alimentar pois são as abelhas que respondem por 80 % da polinização de tudo que é vegetal acima do Equador ( se esses dados são válidos nem discuto). Pois bem: a população de abelhas acima do Equador despencou nos últimos dez anos e a continuar neste ritmo, haverão pouquíssimas em 2012.
Há a questão da mudança rapidíssima do polo norte magnético da Terra. Este pólo norte nada tem a ver com o Pólo Norte Geográfico. Mas era próximo, tanto que as bússolas guiaram todo mundo por muito tempo sem muitos erros grosseiros ( talvez tirando o de Colombo, que pensou estar na Índia quando, na verdade, estava passeando pelo Caribe ). E agora não está mais tão próximo assim. Disto sou testemunha e posso assegurar. Comparando uma boa bússola náutica e um aparelinho de GPS, no Rio de Janeiro, a diferença entre os dois já passa de 22 graus. Ou seja, quem olha uma bússola magnética e acha que achou o Norte, na verdade achou uma vila que fica entre Vancouver e o Alaska. E daí vem umas teorias que dão conta de que o teimoso polo norte magnético resolverá parar de passear e dará um salto, trocando de lugar com o polo sul magnético. E isto seria o fim do mundo, ou algo muito perto disto. O cálculo para isto acontecer aponta o mesmo ano de 2012.
Realmente, parece que, desta vez, depois de tantas previsões de fim dos tempos, há um acordo mais amplo entre religiosos de todas as orientações, místicos, cientistas, historiadores, curiosos e compradores de publicações espetaculosas. O fim do mundo será mesmo em 2012.
Não é mesmo um terrível motivo de preocupação ?
Eu estou muito preocupado. Afinal, tanta gente inteligente e sabedora de informação privilegiada está de acordo, porque eu que não estudei nada sobre o tema não deverei ficar também ?
Talvez porque esteja preocupado demais com a degeneração de valores de nossa sociedade, com as desigualdades entre ricos e pobres da Europa e da África, por exemplo. Porque estou preocupado com a falta de ética e de um mínimo de senso de coletividade de quase todos os membros de nossa classe política, porque Hugo Chávez aos poucos instala um regime neo-nazista pertinho daqui, com apoio do governo do meu país e isso me preocupa muito. Porque me preocupo demais com o que e como vamos deixar estas coisas para nossos filhos e netos. Enfim, porque minhas preocupações não estão baseadas em ligações complicadas entre arqueologia, religião, estatísticas parciais e pouco ilustrativas. Não são preocupações que vem de deduções elaboradas e elocubradas. São quase constatações.
Constatações simples, como ver uma publicação de grande circulação colocar o tema como matéria de capa, quando para mim , existem coisas muito mais sérias, que afetam o dia seguinte de todos nós e que mereciam ter espaço sim em capas de revistas, de jornais, de livros, de forma que se torne informação útil, que possa se traduzir em movimento contrário, em conscientização de problemas nos quais podemos interferir, tanto no comportamento diário, quanto na conduta geral, como na hora de pagar o imposto e escolher o seu candidato a qualquer cargo eletivo.
Por isto estou extremamente preocupado. Simplesmente porque o mundo não vai acabar em 2012. Há muito trabalho e muito estudo para ser feito para que tratemos disso como coisa séria.
Estou preocupado com balelas, com cataclismas que nunca acontecem. Eu habito a Terra há 47 anos. Já vi umas cinco previsões firmes de fim do mundo. Provavelmente, na história do homem depois de inventada a escrita, das primeiras civilizações, de uns 10.000 anos para cá, o mundo já teria acabado umas quatrocentas vezes.
Não me empulhem com esse assunto. Para mim a pauta do dia é outra.
Isso sim, para mim é o fim do mundo.

sábado, 17 de outubro de 2009

Viajar e conhecer lugares

Por dever de ofício em 90 % das vezes, e a turismo em 10%, tive a oportunidade de conhecer o Brasil quase todo. Curiosamente, só me faltam no currículo dois destinos bem turísticos: Natal e Fernando de Noronha. O resto, pelo menos por 24 horas eu já estive. Desde vilas ribeirinhas isoladas do mundo na mais remota Amazônia até cidades de fronteira com o Uruguay onde se atravessa a rua desavisadamente e, pronto, saiu do país!
Mas, isso não importa nada. Cada vez que viajo continuo observando e aprendendo os costumes de cada local. E vendo novidades, e procurando alguma coisa para comprar no local que seja ao mesmo tempo original  e me lembre da minha passagem por lá. E, principalmente, me lembre do que gostei e do que me incomodou.
E, recentemente, viajei bastante pelo interior dos estados de São Paulo e Minas. Já tinha ido várias vezes. Fui sem expectativas. Mas, no fim das contas, cheguei à conclusão que, para uma pessoa que passa a maior parte de seu tempo em uma área pequena da cidade do Rio de Janeiro, sempre há o que conhecer e, sobretudo, aprender.
As paisagens tem sua importância, naturalmente, mas nada como observar as pessoas, hábitos, comidas, costumes,  e detalhes que formam o que chamo de micro-culturas, se apropriadamente ou não, deixo para o semânticos de plantão.
O interior de São Paulo, por exemplo não pode ser agrupado em uma coisa só. Ribeirão Preto e Bauru podem ser até parecidas, mas a coisa toda funciona completamente diferente num lugar e no outro. Explico melhor: há diferenças de sotaque, a atividade econômica predominante impõe costumes e atrai pessoas de formação e lugares distintos, alguns nomes de pessoas são mais comuns em um lugar e outros nomes em outro, enfim, há um "jeito" de ser distinto nas duas cidades.
E entre Ribeirão Preto e Barretos, que estão separadas por uma hora de estrada, também. A primeira é sucro-alcoleira, a segunda, pecuarista. Ribeirão tem uma dinâmica própria. Barretos tem uma vida no ritmo dos eventos. E quis o destino que eu estivesse nestas duas cidades justo na semana da Festa do Peão Boiadeiro 2009, de Barretos, considerada a maior do mundo. Muita gente vai para a festa a partir de Ribeirão. Quem faz isso, normalmente chega de avião, vem em família, tem um poder aquisitivo maior.
Conforme Barretos fica mais próximo, o pessoal que vai para a festa muda. Mais ônibus de turismo, mais  gente jovem, pessoas que chegam para acampar, aventureiros, viajantes de moto, caroneiros.
O pavilhão onde se realiza a Festa é um capítulo à parte. Não dá para descrever em poucas palavras. Primeiro, porque é realmente muito grande. Segundo porque a festa não me pareceu ter um caráter único.    É tradicional, é rural, mas também é americanizada. É grandioso, mas é kitsch. Tem coisas muito interessantes e outras absolutamente sem sentido algum, como três touros clonados do legendário touro "Bandido" (aliás, há um memorial ao dito cujo, tão bonito quando o de Portinari, que nasceu na vizinha Brodosqui, e na minha modesta opinião merecia mais homenagens que qualquer touro) e uma estátua gigantesca do peão que seria o fundador e mentor do Rodeio e  de quem esqueci o nome completamente. Prova que tamanho de estátua não é documento.
Mas, o saldo final é muito positivo. A Festa é realmente um evento que devia ser visto e presenciado pelo menos uma vez na vida por todos os brasileiros. As pessoas que estão lá estão alegres, dançando, vibrando com os cavalos, touros e montadores.
Mas depois, quando se sai do Pavilhão, a impressão é a de voltar para um Brasil mais real.
Como também impressiona a realidade do Sul de Minas. Recentemente, passei sete dias viajando por várias cidades da região. Fiquei baseado em Varginha. Ali, concluí que não se deve confundir um tricordiano ( natural de Três Corações) com um varginhense (natural de Varginha). Vi que a complicada história ( ou estória) do ET de Varginha tem duas facetas. Uma, de ser utilizada como atrativo para a cidade. Tem uma praça com um boneco de um suposto ET verde e uma torre com um disco-voador em cima. Mais mau gosto impossível. E outra faceta, a de que os habitantes levam a coisa no maior espírito esportivo.
Descobri também que, com toda a simplicidade das pessoas do interior mineiro e com uma velocidade para fazer as coisas muito própria também, há uma ótica em Varginha artesanal que salvou um par de óculos que me custou os olhos que eles teoricamente deveriam ajudar a enxergar melhor, mas que quebrou de repente. Nesta ótica, um senhor muito idoso examinou as lentes por muito mais tempo que eu gostaria. Me mostrou umas 38 armações novas diferentes para tentar recortar e encaixar as lentes. Resolvi deixar as lentes, caríssimas, e apostar no trabalho do velho, atencioso, mas muito lento ( pensava eu) fabricante de lentes e óculos. Ele me pediu duas horas para o serviço. Não acreditei. Mas ele fez e fez um trabalho belíssimo. Como uso lente multifocal, se ele recortasse errado, era pegar o par de óculos, testar e usar ou jogar fora. Ficou melhor que na armação anterior, feita numa ótica bacana do centro do Rio.
Observei também as meninas. Muitas, bonitas mas deselegantes nas roupas, no andar, na maquiagem. Lembrei até do verso de Caetano para as mulheres e São Paulo ( "...da deselegância discreta de tuas meninas"). Mas, quem sou eu para julgar isso ? O forasteiro era eu. Aos olhos dos locais, o deselegante deveria ser eu. Talvez esquisito como o ET da praça de Varginha.
Como o deslocado em Barretos era eu.
Como, quando vou a Manaus, ouço sempre as lendas de botos, iaras, amazonas e me contenho quando alguma explicação parece sobrenatural demais. Lá, eu sou o sobrenatural. Sou eu que não compreendo o óbvio da vida ribeirinha.
Como, quando vou ao Rio Grande do Sul, aceito o chimarrão e como carne de ovelha.
Para mim, viajar e tirar fotografias não é o mesmo que viajar. Atualmente, eu tenho que conviver com as pessoas dos locais para poder dizer que realmente conheci o lugar.
Em uma dessas situações meio complicadas de explicar, certa vez me vi na cidade sérvia de Novi Sad. A guerra da Bósnia, ali do lado, estava a toda. No total, passei umas quatro horas na cidade e, depois embarquei num avião e nunca mais voltei. Vi a cidade nas margens do Danúbio, vi um imponente castelo, mas haviam, por todos os lugares, soldados sérvios de 2 m de altura e barbas por fazer. No ano passado um amigo meu esteve nesta cidade e me mostrou as fotos. Vi o Danúbio e vi o castelo, iguais. Mas vi uma foto com uma praça cheia de gente, com mesinhas espalhadas, e restaurantes abertos. Conclusão: eu não conheci Novi Sad.
E quando vou para algum lugar, atualmente, mesmo que já tenha ido, vou com espírito de primeira vez.
É mais divertido.

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Blog e embromação

Pronto. Chegou o momento que eu temia. Tenho que atualizar o Blog, mas lamento profundamente que não tenho absolutamente nenhum assunto em mente - "assunto em mente", "assunto e mente", "mente, mentira"...poderia ser um início lacaniano, mas acho esse sujeito um porre - então vai ser uma enrolação só. Espero apenas que o estilo pouco formal e bem mais descontraído o que último texto que publiquei seja lido pelo Tutty Vasques e ele me chame para seu assistente.
Pensei em falar sobre verdadeiras provas olímpicas que os cidadão cariocas já são obrigados a cumprir todos os dias, mas o jornal "Extra" saiu na minha frente. Com trem parado, metrô funcionando mal e muita chuva, ontem e hoje tivemos material de sobra para concluir que os cariocas são decatetlas. Correm, pulam,  socam o do lado, são socados, se equilibram, enfim, cumprem tarefas de gincana para a simples atividade de chegar ao trabalho. Até 2016, o carioca terá muito tempo para treinar
E Herta Muller ganhou  Nobel de Literatura. Sensacional, não ? Ela só tem um livro traduzido para Português. Há un frisson nas rodas literárias do país. Comenta-se muito o que ninguém leu. Mas o pior foi alguém achar que o Paulo Coelho poderia ser premiado...ele estava na comitiva das Olimpíadas, em Copenhaguem e ficou por lá mesmo, já que o prêmio é anunciado em Oslo e/ou Estocolmo. Seria a tríplice coroa. Paulo Coelho ganhou a Copa de 2014 e as Olimpíadas de 2016. Nenhum escritor nunca conseguiu os três títulos em menos de um ano.
E os prazos do Zelaya e do Micheletti ? Mudam todo dia !!! A Embaixada do Brasil em Tegucigalpa vai acabar sediando um encontro amoroso.
E o Obama com sua popularidade despencando ? Daqui a pouco, o McCain vira a voz da razão !!!
George Bush, o pai e Michael Jackson (post-mortem, naturalmente) podem ser os laureados com o Prêmio Nobel da Paz. O Bushão deve ser por ter controlado um pouco o filho e evitado o pior. Não consigo ver outra razão. Já Jacko deve ser por "We are the world", que já foi gravado há mais de 20 anos. Só pode ser também. Pelo resto do que fez, não deve ser.
E chega de enrolação. Espero estar mais inspirado na próxima atualização.

Dicas para a Primavera, ainda em tempo:


- Daqui a dois dias, regatas do Ciaga e Escola Naval, para todas as classes de Vela, até radio-controlados. A Escola Naval reúne o maior número de embarcações num único evento na América Latina.
- Curtir uns petiscos à espanhola e comidinha japonesa no Tapas & Japa, na Barra. Na terceira transversal da Olegário Maciel, entre à direita e onde tiver um barzinho é ali mesmo. Além dos petiscos e dos japinhas bem feitos, tem a simpatia do Malibu, o dono, velho amigo e grande figura.
- Shows do Exalta Rei, que se lançou no Carnaval carioca deste ano e bombou. Os shows são impagáveis, com as músicas do Roberto Carlos em ritmo de samba e uma super-improvável combinação Bohemian Rhapsody do Queen, com Debaixo dos Caracóis dos Seus Cabelos...por vezes cantada em...japonês. Dispensa maiores detalhes.

domingo, 4 de outubro de 2009

O segundo convite, mas este é com RSVP

Já habito a Terra há algum tempo. E, na maior parte deste tempo, no Brasil. E confesso que nunca havia visto um sentimento de orgulho pelo Brasil e pelo Rio tão disseminado e com poucas divergências como foi a escolha da cidade como sede das Olimpíadas de 2016.
Na minha opinião, pouco estudada, mesmo deixando passar 48 horas da escolha para tentar entender um pouquinho do emocional da coisa e lendo algumas publicações que já abordaram o assunto, concluí que há um simbolismo por trás desta escolha. Há um convite. Um convite para o Brasil mostrar para o mundo os pré-requisitos para ingressar no que antigamente era chamado Primeiro Mundo. Para o Brasil mostrar sua alegria, receptividade, o bom clima do Rio de Janeiro, as paisagens espetaculares, enfim, coisas que sabemos. Mas, para além disso, mostrar seriedade, mostrar uma sociedade mais justa, tentar encontrar soluções para os cinturões de pobreza e o caótico transporte público. E, principalmente, passar por cima das brigas politico-partidárias, já que até 2016 haverão duas eleições gerais e duas municipais.
A estabilidade política do Brasil foi necessária para sustentar a candidatura. Sua evolução também o será. A tentação de transformar Olimpíada e Copa do Mundo em ítens de campanha é enorme. Até aí, vá lá. Mas se o viés começar a dar impressão de "Jogos Bolivarianos", ou os "Jogos dos Trabalhadores", ou os "Jogos dos Excluídos", ou como uma versão única do já muito chato e pouco importante "Forum Social" que é paralelo ao Forum de Davos...hmmm...sei não.  Hitler usou as Olimpíadas como propaganda. Os acochambrados Jogos de 1948, em Londres, foram, na prática, a celebração da vitória na guerra. Os Jogos de Moscou e Los Angeles, em 1980 e 1984, viram seu brilho embaçado por boicotes causados pela "guerra fria". Foram edições que ficaram claramente empanadas pelo conteúdo político que circunstanciou um evento que deveria ser só esportivo.
Mostrar ao mundo que o Brasil é capaz de iniciar a trilha de um crescimento sustentado, com distribuição de renda mais justa, com redução da violência nos grandes centros e, principalmente, a um nível de custos que não seja pornográfico, e, durante os Jogos deixar correr no tradicional clima praieiro-festivo do carioca, sem politizações, seria o salto triplo olímpico ideal.
Para mim, o recado foi claro. Vocês querem e acham que podem fazer Copa do Mundo e Olimpíada em dois anos ? Pois bem, concordamos, mas estaremos de olho se podem mesmo. E, se bem sucedidos, bem-vindos ao grupo de liderança mundial.
Frio assim ? Frio assim !
Porque lembro do início da década de 70. A geopolítica era outra, o governo era uma ditadura militar apoiada pela Otan. Havia um incipiente e pouco preocupante movimento guerrilheiro. Apesar da ditadura, o clima era de tranquilidade geral. Os indicadores eram de país pobre, agrário, sub-desenvolvido. Mas o Brasil exibia índices de crescimento exorbitantes. A classe média crescia, o brasileiro já não achava Paris um local para embaixadores e meia dúzia visitarem e depois contarem, orgulhosos, como foi a noitada no Moulin Rouge. Em 1972, o Brasil foi apontado como uma das forças econômicas da década seguinte. Naquela época, imaginar Rússia e China adeptas do livre mercado era coisa para doido mesmo. O Brasil seria um dos "grandes" do mundo capitalista, apesar de uma economia estatizante.
O historiador Eric Hobsbawn várias vezes insinuou não entender bem porque a América Latina não conseguia traçar a trajetória de modernidade da Austrália. Além da cultura européia, a América Latina teve uma rara miscigenação de raças, tem recursos naturais, teve centros de estudo entre os melhores do mundo. O que estava diferente ? Buscou no modelo oligárquico dos colonizadores ibéricos uma explicação. Como este flagelo perdura até hoje no Brasil, botar a conta neste problema é o caminho mais fácil. Mas ter um povo de índole ovina complementa a vocação da pobreza e do atraso, e isso é mais complicado analisar.
Mas, enfim, até 1973 o Brasil viveu um convite para a elite ocidental. E, então veio o primeiro choque do petróleo, recessão nos Estados Unidos, crise de liquidez e o "plano Marshall" silencioso para a América do Sul minguou. Na abertura da Copa do Mundo de 1974, o Brasil teve papel especial. Bem, era o campeão do mundo de futebol, mas o tratamento foi VIP, inclusive com a eleição improvável de um brasileiro para a Presidência da FIFA. Mas o governo ditatorial não soube reagir às mudanças na economia, fingindo que tudo ia bem, como convem aos regimes de força, e aos poucos, submergiu, encontrando seu fundo de poço no governo de João Figueiredo. Foram anos de vergonhas nacionais, cujo maior símbolo talvez tenha sido o roubo da Jules Rimet, derretida. Perdemos este convite.
Depois, o modelo econômico e político brasileiro foi para o brejo. Inflação alta, protecionismo exagerado, meios de controle de imprensa. Lembro com vergonha de ter que viajar pelo mundo com um maço de dólares ou francos suíços e os "travellers checks". Nada de cartão de crédito internacional. E ainda teve um período em que, se você quisesse viajar havia um depósito compulsório alto, restituído sabe-se lá quando. O Brasil se isolou.
Nossa redemocratização foi no mínimo engraçada. Primeiro numa eleição indireta, cujo eleito morreu e assumiu o vice que era o presidente civil do partido dos militares ! O sujeito, com seu vasto bigode, bem que tentou, mas mergulhou o Brasil num regime inflacionário que era motivo de piada no mundo todo...depois, a campanha baixa de 1989, que resultou num presidente que foi apeado do Poder dois anos depois. Ou seja, nossa estabilidade é recente, e como um adolescente, ainda carregada de hormônios novos, defesas ideológicas apaixonadas e tentações imediatistas.
Mas, sem entrar no mérito de quem fez ou quem não fez, o fato é que o Brasil de 2009 está se jogando na área, para, no caso de um pênalti, converter-se em liderança mundial. As coisas conspiram a favor. O Presidente tem carisma e apoio popular. A crise de 2008 foi uma cacetada nas economias do eixo central ( EUA, Japão, Europa, tigres, onças e assemelhados, e os "novos capitalistas" do Leste Europeu). A China vai bem, obrigado, e dos que aumentam sua importância no cenário mundial, o Brasil saiu  fortalecido. Indicadores da economia vão, com cuidado, melhorando. O Brasil vem com relativo sucesso sediando eventos internacionais, tanto esportivos como políticos. Por aqui, a violência é urbana e mesquinho-capitalista, não tem nada de ideologia política, o que minimiza o problema do terrorismo. Enfim, as condições estão aí.
E, na última sexta-feira, 2 de outubro de 2009, o Brasil caiu na área e foi dado o pênalti. Para ser gol, precisa ser bem cobrado. Não há espaço para discursos de desculpas. Se o pênalti for perdido, a torcida não vibra. Ninguém gosta.
Sendo assim, além do que precisa ser feito diretamente para sediar uma Olimpíada, os brasileiros precisam entender o que significa ter um IDH ruim. Precisam saber quantos analfabetos ainda temos. Qual o montante de dinheiro lavado em coisas escusas que permeiam o noticiário. Porque não há nas grandes cidades ( com a provável exceção de Curitiba) um planejamento urbano mínimo, com transportes de massa decentes. Porque a Baía da Guanabara continua poluída. Enfim, cabe aos governantes atuais e que vierem até 2016 trocar a retórica do "tudo vai bem" pela da realidade constatada, e o ataque claro aos problemas de raiz e não aos sintomas.
Porque a Olimpíada traz essa responsabilidade ? Pois, na minha visão, é um convite para entrar no Country Club. Desta vez, sem a motivação da política bipolarizada capitalismo-comunismo da década de 70. Desta vez, a opinião de todos os habitantes da Terra, com exceção dos brasileiros, dependerá dos sinais que o Brasil der.
Afinal, de que vai adiantar sediar tantos eventos de Primeira Divisão se continuarmos jogando como país de Segunda ?
O convite para o Brasil na década de 70 ficou sem resposta e quem convidou também não se importou. Agora é diferente, fomos convidados e temos que confirmar que podemos ir à festa.
E, deixando claro, não se trata de copiar modelos ideológicos, políticos, econômicos. Ou se engajar num receituário de um clube fechado. Trata-se de colocar a ética em tudo na pauta do desenvolvimento. Ética, etiqueta, como responder a um convite com RSVP, e claro, comparecer.

domingo, 27 de setembro de 2009

A primavera nos ensina. Aproveite !

Começou a primavera. Depois de uma friaca que há muito não se via no Rio de Janeiro, e por isso acho que carioca não acredita em efeito-estufa, há esperanças de tempos melhores. Este primeiro fim-de-semana que está acabando hoje foi um belo presentinho de São Pedro. Mas, estive pensando como esta estação promete e segue umas dicas, muito pessoais, de como aproveitá-la.
Pode ser que se o Rio for escolhido como sede olímpica de 2016,  o que será conhecido no próximo dia 3 de outubro, a primavera seja naturalmente muito festiva. De cara, a Prefeitura e o Estado já declararam ponto facultativo e programam muita festa no dia.
Como não costumo contar com ovo que ainda não saiu da galinha, ignorarei solenemente o dia 3 e o que poderá se suceder a partir dele, seja alegria ou tristeza. Então vamos ao que acho que merece ser feito antes do calorão do verão, das festas de fim de ano, e de 2010, que como se sabe, não terá primavera, pois coincidirá com o período de eleições.

Esportes Náuticos - Vou tomar a liberdade de incluir o surfe. A estacão promete períodos de mar grande, para felicidade dos surfistas. Deve rolar uns dias bons para tow-in, como foi hoje e como foi ontem. Também devemos ter períodos de terral. Os points tradicionais, tipo meio-da-Barra, Macumba e Prainha são as dicas. Para kite surf, é a estação de ventos variáveis, mas vai ser possível empinar a pipa quase todo dia, com um pouquinho de paciência, depois de 14:00. Para a Vela, calendário cheio: Regata do Ciaga e da Escola Naval, chegada da Santos-Rio e circuito Rio. Da metade de novembro em diante, começam as regatas festivas e de fim de ano. Para quem só curte passeio, vai a dica: observe a Baía da Guanabara e se pergunte: porque não despoluem logo isso aqui ?
Para os da Pesca, na primavera começa a alternância de correntes de águas quentes e frias e aumenta a variedade de espécies de peixes. Para quem gosta de barco a motor, passeios às Cagarras e Tijucas. Atenção às ondulações, principalmente embarcações pequenas e jetskis. Começa a ficar bom para planejar esticadas a Angra.

Happy-hour na Orla - Bom demais, seja no quiosque de sua preferência ou na varanda de um clube. Bate-papo com amigos na varanda do Iate Clube ou do Marimbás ou, atravessando a ponte, no Sailing e no Jurujuba, ou na Marina da Glória, pertinho do Centro, são meus locais preferidos, com os barquinhos dando o tom de bucolismo e tranquilidade.

Paineiras e Vista Chinesa - Estação ideal para caminhadas ou pedaladas nas Paineiras e subir a Vista Chinesa. Lá em cima fica mais fresco - no bom sentido, claro - e tem as duchas e as cachoeiras. E o visual sem igual.

Mulheres de Chico - As componentes se auto-intitulam como um "bloco". Para mim, é mais que isso. Trata-se de um conjunto bem afinado centrado nos arranjos de percussão, só de (belas) mulheres, com repertório selecionado do Chico Buarque. O alto astral é certo, e para os ouvidos mais apurados vale a pena ver o que as moças fizeram com músicas como "Tanto Mar", "Roda Viva" e "Construção". A agenda delas é cheia. Consulte o site www.mulheresdechico.com.br.

Tocar um instrumento - Nunca é tarde para aprender a tocar um instrumento. E, se for de percussão, consulte a programação de cursos e clínicas da Maracatu. O espaço fica em Laranjeiras, na rua Ypiranga. Veja o site www.maracatubrasil.com.br. Você poderá até pensar em ser ritmista no próximo Carnaval.

E se chover ? - E não se iludam, porque teremos fins de semana de chuva. Se a opção for ficar em casa, a dica é se associar à Super Video. A locadora tem duas lojas na Zona Sul do Rio de Janeiro: uma em Ipanema e outra no Humaitá, garantindo cobertura de leva-e traz do Flamengo à Gávea. Tem de tudo: lançamentos, filmes-pipoca, filmes-cabeça, filmes de autor, raridades, blu-ray e ainda "aluga" curtas nacionais gratuitamente. Informações no site www.supervideobrasil.com.br.
Outra opção é reunir amigos, fazer uma vaquinha e comprar um monte de coisas para comer no Talho Capixaba, no Leblon, ou em algumas lojas dos supermercados Zona Sul , como a da Dias Ferreira, a da Praça General Osório, a do Leme e a do Parque das Rosas.

Calçadão e ciclovias - Dia 19 de outubro começa o horário de verão. Aproveite a malha de ciclovias, do Santos Dumont ao Pontal, incluindo Lagoa e algumas ruas de Copacabana e Botafogo, e saia no horário do trabalho e dê uma pedalada. Se o negócio for andar, ande, e se for correr, corra. Além de saudável ( aliás, os cariocas não valorizam o fato de terem em sua orla o ar menos poluído de qualquer cidade com mais de 5 milhões de habitantes do mundo !), dá para ver e ser visto. Mas respeite as regras porque ultimamente as ciclovias estão virando terra de ninguém, de tanto abuso.

Off-Rio - Búzios e Angra valem se o cidadão estiver disposto a sair em horários esquisitos ou tolerar engarrafamentos. A Serra é a melhor pedida, antes que tudo fique tomado e reservado pelas férias de verão. Se você tem um carro bom de tranco, vá a Visconde de Mauá e ao Parque da Bocaina. Em Mauá não deixe de visitar o Alcantilado e na Bocaina, o Vale dos Veados. Se seu caso é ficar um pouco menos escondido e com acesso mais fácil, Itaipava e o trio Mury/Lumiar/São Pedro da Serra são as dicas. Em Itaipava, se esbalde nos restaurantes. Em Mury, idem. Em Lumiar e São Pedro se informe sobre as cachoeiras e os roteiros de aventura. Uma dica para os mais animadinhos é o Parque Estadual de Ibitipoca, perto de Juiz de Fora, com sua paisagem única e trilhas dentro, eu disse, dentro mesmo, de riozinhos do parque.

E aproveite a Primavera. Que como disse o Beto Guedes, "abre a janela do meu peito, porque a lição sabemos de cor, só nos resta aprender"...

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

Zelaya e a falta de zelo

Em 28 de junho deste ano, escrevi aqui mesmo sobre a mudança abrupta no comando do Executivo de Honduras.
Me surpreendi ao reler o que tinha sido escrito. Na minha opinião àquela época, o assunto era merecedor de muito pouco interesse da opinião pública, mas eu, de alguma forma, havia me interessado. Na época li sobre a História de Honduras e cheguei a analisar dados da sua economia, de sua balança de pagamentos e de sua balança comercial. Concluí que um país tão pequeno, cuja população tem 45 % de jovens menores e 15 anos, e tão dependente dos Estados Unidos economicamente não poderia ter sido o cenário de um "golpe de estado" tão limpo quanto foi o afastamento de Manuel Zelaya do poder. Senão, relembremos: o tal Zelaya, à margem da Suprema Corte e do Legislativo, resolveu sustentar um plebiscito sobre a extensão do mandato presidencial, fato que não foi bem aceito nem pala Suprema Corte e pelo Legislativo, o que parece bastante óbvio, mas recebeu também a oposição das Forças Armadas. Pois bem, com o impasse criado e com o Presidente Zelaya descumprindo visivelmente o rito constitucional do País, um grupo se articulou e, em vez de mandar o Zelaya desta para melhor, como costuma acontecer na América latina, resolveu exportá-lo compulsoriamente para a Costa Rica. Sem uma gota de sangue derramado sequer.
Algum tempo depois, atendendo a apelos de Hugo Chávez e da condenação que o "golpe" recebeu da OEA é que começaram os distúrbios em Honduras. Zelaya foi recebido em alguns países. Inclusive no Brasil.
E então a história começou a despertar interesse por aqui.
Mas eu jamais poderia imaginar, em 28 de junho, que o Brasil se envolveria de forma tão intensiva, controversa e central em um imbroglio em um país pequeno e distante, que deveria despertar interesse menor ou pequeno na geopolítica racional de um governo brasileiro. Nem em meus piores pesadelos imaginaria que o que escrevi até com ironia tinha o profético tom de causar o embate ideológico que se sucedeu e culminar com a estapafúrdia situação atual. Senão, mais uma vez, relembremos: Zelaya, já na Costa Rica, recebeu primeiro o apoio incondicional do alucinado Hugo Chávez, e depois dos líderes adeptos da "democracia direta", o inca equatoriano e o bugre boliviano. Uma adesão pouco prudente e estranha, a da presidente do Chile, Michele Bachelet, depois veio o anúncio da OEA condenando o golpe, aí sim entrou em cena o Brasil. O retrado da entrada do Brasil no clamor internacional pode ter sido só resultado do caráter semanal do badaladíssimo programa de rádio "Café com o Presidente". Mas o tom do Brasil foi duro. Depois vieram os países do Primeiro Mundo, mais exatamente França e Estados Unidos, com manifestacões tímidas.
Bom, lamento profundamente dizer que todas estas manifestações estavam inundadas de salvas à democracia, mas vazias em conhecimentos básicos sobre o caso hondurenho. Primeiro, Zelaya é um populista, adepto da ideologia da democracia anti-democrática em voga no hemisfério, e pesavam sobre ele denúncias de corrupção e perepetuação no cargo. Em segundo, porque o bigode e o chapéu dele formam um figurino que é impossível associar a alguém normal. Em terceiro, porque manobrava para driblar a Constituição. Em quarto, porque ele se isolou dos dois outros poderes tradicionais da República, o Judiciário e o Legislativo. Em quinto, porque ameaçou as instituições todas com a elite da Polícia. E em sexto, porque a Constituição hondurenha, por mais esquisita que seja, prevê a remoção do Chefe do Executivo em caso de descumprimento de duas decisões da Suprema Corte, como Manoel Zelaya se achou capaz de fazer. Então, cabe a pergunta: foi golpe ?
Mas vá lá, o rito hondurenho é sumário demais. Para comparar, Collor teria perdido o timão do navio em duas semanas, se fosse hondurenho e, por aqui, só foi posto no bote salva-vidas uns meses mais tarde. E ninguém achou anti-democrático.
A ignorância então pareceu dar lugar ao casuísmo ideológico lulo-bolivariano. Afinal, Zelaya joga no time de Lula, de Chávez, de Morales, de Kirchner, do Ortega, do Correa. E ganhou visitas com status de chefe de Estado em todos este países, inclusive em Brasília.
Tentou voltar à Honduras uma vez. Ficou no Posto de Fronteria.
E tentou uma segunda, aparecendo na embaixada...do Brasil !!!
Agora que a coisa está esquentando é que resolveram analisar o caso com mais calma. Mas agora é tarde. E o mais triste de tudo: o Brasil  ocupa posição central e dúbia na questão. Afinal, o sujeito é hóspede da embaixada brasileira em Tegucigalpa.
Alega-se que Zelaya está asilado na Embaixada. Mas quem é idiota de acreditar nisto ? Asilo é matéria difusa no Direito Constitucional e no Direito Internacional. O cidadão que pede asilo em uma representação diplomática estrangeira, o faz porque não reconhece que suas garantias pessoais estão sendo respeitadas pela autoridade de seu país e nascimento. Mas cada caso é um caso. Um "serial-killer", um traficante ou um pedófilo, pode se sentir assim e pedir asilo, o que não quer dizer absolutamente que esteja certo. O Cesare Battisti, por exemplo: era militante do falido PCB italiano, e em sua ideologia cabia a praxis de atentados que subtraíam vidas de pessoas que nada ou pouco tinham a ver com o diálogo político. Ele merece a condição de refugiado político no Brasil ? Certamente não. Seja lá o que for decidido no Supremo, ele sabe, eu sei, o Tarso Genro sabe, e a Itália toda sabe que o sujeito matou gente.
Mas voltando ao Zelaya, asilado do quê ? De ter tentado entrar num país que, apesar de exótico, o inclui na pauta de exportações com pleno respaldo constitucional e com rara convergência de interesses, de tão fulminante que foi ? Mais uma vez, eu sei, o Lula sabe, o Zelaya sabe e todo mundo sabe que a forma certa era obter o respaldo da comunidade internacional. E ele estava conseguindo !!!
Voltar ao país parece pouco oportuno e, sobretudo, pouco patriótico, pois o confronto seria certo. Era óbvio que sua volta mergulharia Honduras numa confusão só. E o Brasil, salvo maiores explicações, parece ter patrocinado o tumulto !!!  Sinceramente, eu sei, o guarda da Embaixada brasileira sabe e o Amorim sabe que o sujeito não apareceu disfarçado, às duas da manhã, tocando a campainha da Embaixada e avisou pelo interfone:
- Hola, que tal ? Acá es Zelaya ? Tienes abrigo ?
E a porta se abriu e ele entrou.
E agora a batata assa à hondurenha. E está claro que o Brasil sozinho não resolve.
Ou seja, o asilo do Zelaya é questão de zelo. Ou de falta dele.