O hino do Flamengo tem várias estrofes que não considero dignas de um clube que conquistou o que o conquistou. É de uma infelicidade total. Lamaratine Babo deve ter desfiado alguns fios de maliciosidade nas letras horrorosas do hino de bela melodia.
Para começar é o único hino que faz referência a um rival. No caso , o Fluminense, na "pé-triturada" estrofe "nos fla-flus é um ai, jesus".
Obrigado, agradecem os tricolores pela deferência da filial, invocando inclusive o nome de nosso senhor.
Mas o pior está por vir.
"Eu teria um desgosto profundo
Se faltasse o Flamengo no mundo."
A lógica nega a possibilidade de tal fato. Se não houvesse Flamengo, não se conheceria Flamengo, sequer saberia se suas cores são vermelho, preto, azul ou amarelo. Zizinho teria jogado no Andaraí. Zico no Bangu. Adílson no Vasco. Júnior no Friburguense. Silva, o Batuta, estaria com a eterna camisa vascaína. Não haveria existência rubro-negra, com repercussões fantásticas no comportamento dos estádios. A Raça seria América. A Urubuzada, naturalmente tricolor, queda esta já observada nos dias de hoje.
E aí, vazio total ocupa minha mente. E se faltasse o Fluminense no mundo, fato impossível, vaticinado pelos mais belos cronistas tricolores, que são unânimes: "O Fluminense veio do Caos para o Título", "Estava escrito há dois mil anos que o Fluminense seria campeão"?
Mas me permito descartar Descartes. Tornar a lógica ilógica e supor que se não houvesse o Fluminense no mundo, em vez de desgosto, minha alternativa recairia sobre clubes que no imaginário nebuloso meu, seu e nosso, mais se adequeriam à minha personalidade e ao meu modo de ser.
Sem considerar Américas, Juventus, Central de Caruaru e São Raimundo, times confiáveis e amadíssamos Brasil afora e sem considerar também estrangeiros, pois eu certamente torceria por um time de Reykjavik ou pelo nobilíssimo Real Madrid ( ninguém sabe porque raios o clube é Real), vou assumir uma postura de muito macho e me declarar "casaca" sem o ser. Segue minha auto-análise-psico-clubística.
Acho que eu seria fortemente pressionado a ser vascaíno, dada a origem lusitana de metade da minha família, ou são-paulino, dada a influência meio aristocrática paulistana da outra metade. Mas nem a analogia de três cores teria influência.
Creio que o clube que me seduziria seria o Cruzeiro. Em primeiro lugar porque quando comecei a acompanhar futebol, em fins da década de 60, fui ao estádio num jogo do Cruzeiro e naquela época, a camisa do time era de um azul-marinho profundo e não tinha escudo, apenas as cinco estrelas bordadas do lado esquerdo do peito. Em segundo lugar porque Tostão foi um jogador dos mais inteligentes que vi em campo. E como temos a tendência a torcer pelo mais fraco, me impressionava que Tostão fosse pequeno, assim como Dirceu Lopes, outro baixinho infernal, e jogasse aquele bolão e encarasse o monstruoso zagueiro Galhardo, do Fluminense, por exemplo. Observei a torcida do Cruzeiro e aquele mar azul foi uma imagem inesquecível. E mais, o Cruzeiro era um timaço, mas era o time do quase. Tirando a Taça Brasil em que o Cruzeiro pulverizou o Santos em 1966, que não vi porque tinha apenas 3 anos de idade, o Cruzeiro sempre se apresentava bem, mas nunca ganhava. Amaldiçoei Manga na final do Brasileiro de 1975 por ter fechado o gol contra a artilharia pesada de Nelinho, com chutes de curvas múltiplas, que eu não conseguia entender.
E a torcida do Cruzeiro tinha uma característica que era diferente da do Atlético, da do Flamengo, do Corinthians, do Palmeiras, do Botafogo ( que tinha um lamentável líder de uma espécie inferior chamado "Russão"), do Grêmio e do Vasco. Eu nunca via briga envolvendo a torcida do Cruzeiro. Deviam ter várias, claro, mas não havia aquele ícone de fúria, agressão física, tipo Fiel, Raça, Fúria, Gladiadores, Manchas, Máfias associados ao Cruzeiro...ou tinha ? Se tinha era discreta, eu não via e não percebia. Enfim o Cruzeiro era o time que contou com minha simpatia.
E se não houvesse nem Fluminense, nem Cruzeiro ? Eu seria Santos, sem dúvida. Na verdade, eu tinha raiva do Santos porque ver aquele time ganhar quase sempre me irritava. Mas eu era fã absoluto de Pelé e de um outro jogador que atuou no Santos e no São Paulo, o Toninho Guerreiro. Mas no fundo a raiva era atração. No estádio, vi pouco brilhantismo do Santos, exceto um Santos vs. Vasco que meu tio vascaíno me impôs e o Pelé e o Edu acabaram com o jogo que se não me engano foi uns 4 a 1 ou 4 a 0.
Mas tinha a mística. O Santos era o Barcelona de hoje, só craque em campo.
E, agora a atitude de macho mesmo. O crítico feroz ( e conheço um muito simpático que atende pelo nome de Gustavo) dirá: "assim é mole, está escolhendo times de ouras cidades e estados. É um argumento válido, principalmente pela época em que fiz a opção pelo Fluminense. Hoje, um jogo Flamengo vs. Palmeiras, em Uberlândia, apresenta espectadores rubro-negros em maioria diante dos palmeirenses ou pelo menos, os números se equivalem. Na década de 60 não. Lembro que o Fluminense foi jogar em Curitiba contra o Atlético Paranaense e ouvi pelo rádio o empate em 1 a 1 e os gols, dois dias depois no inesquecível "Ataque e Defesa "do Ruy Porto.
Então vamos lá. Eu seria vascaíno por livre e espontânea pressão familiar. Mas ocorreu um um fato, que não lembro se foi em março de 67 ou novembro de 69 que me chamou a atenção de um time que passei a acompanhar quase como o Fluminense, quando era possível : a Portuguesa da Ilha do Governador aplicou um chocolate qualquer no então imbatível Botafogo. Aquilo me encantou. A magia do mito Davi e Golias, viva ali, traduzida em gols não evitados pelo arqueiro Cao. E as cores da Portuguesa eram as mesmas do Fluminense. Pode ser que o fato de ser inevitavelmente sacaneado impiedosamente em qualquer ambiente ao declarar que era toredor da Portuguesa da Ilha acabassem me demovendo desta ideia e eu recaísse nas graças do Almirante ( clube que inclusive, até vir de Alfa Centauro o incrível Eurico Miranda, eu nutri certa simpatia até o dia que o Vasco bateu o Cruzeiro no Brasileiro de 1974 - fiquei indignado...achei que foi uma roubada histórica trazer o jogo para o Maracanã...). Quis o destino que num teste que fiz no Vasco em 1979 eu fosse barrado mas conduzido à Portuguesa, onde joguei por rês meses na então categoria juvenil, com direito a demissão sumária após o segundo jogo. E agora, neste instante, descubro que o mascote da Portuguesa é uma zebra de três cores...
Mas é isso, como essas possibilidades inexistem, pois o Fluminense começoua ganhar títulos quando ainda era o Caos, portanto, é eterno, fica a divagação, a reflexão sobre um hino cuja letra sempre me incomodou e a metafísica de Lamartine Babo, que, como se sabe, era genial o suficiente para ser depreciado por um deslize de Lógica.
All the things I achieved in my life haven't been done by myself, exclusively. O owe a lot to my beloved friends. I've done a lot alone, but at the end of the day, people around made me better or worse. I can't write regularly without the help of my friends. They inspire me. I hope you all feel comfortable in this space.
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terça-feira, 21 de dezembro de 2010
terça-feira, 7 de dezembro de 2010
Muricy revogou a "Lei de Muricí"
Dito popular famoso quando a situação se desenha algo complicada e é impossível articular ação conjunta ou em grupo: "Agora é a Lei de Muricí, cada um por si".
Pois um personagem egresso do cada vez mais egocêntrico e estelar meio futebolístico, que chega de fato, por vezes, a provocar indignação com as extravagâncias e malfeitorias de algumas figuras típicas do meio do esporte, surgiu como padroeiro de que o referido ditado popular prega. E, curioso, tem o nome que serve à rima.
Atende o cidadão pelo nome de Muricy Ramalho, e sua atual profissão é a de técnico de futebol. Antes da digressão sobre a revogação da Lei, faz-se necessário um parênteses sobre uma característica deste pretenso blogueiro: eu torço pelo Fluminense, dois mil anos antes do meu nascimento eu já torcia pelo Fluminense, e mais que isso, fui sócio, e atleta do mais alto nível de mediocridade, defendendo as três cores que traduzem tradição. Portanto, sou muito pouco neutro ao falar do Fluminense. E, talvez, sempre o serei.
Mas o mote deste texto não é o fato de o Fluminense ontem ter conquistado, após uns bons vinte e seis anos recheados de episódios tristíssimos, o título de campeão brasileiro de futebol de 2010.
As linhas são dedicadas a um personagem deste título sim, mas não no seu mérito na conquista. Mérito, aliás, que a esta altura é incontestável. Não há voz que se erga e diga: o técnico Muricy Ramalho errou aqui, mudou mal ali, pensou errado acolá, coisa que aliás é bem típico do brasileiro, que como todo mundo sabe, nasce técnico de time de futebol.
As linhas são dedicadas a um profissional que impressiona por uma correção, coerência, coragem, força, controle emocional, inteligência e capacidade de reverter adversidades que bem poderiam caber num super-herói, ou num protótipo de super-herói, um herói humano como muitos outros líderes.
Para ficar apenas no campo do esporte, no que Muricy deixa a desejar se comparado a um Vanderlei Luxemburgo, um Zico, um Bernardinho, um Beckenbauer, um Fritz Walter, um Stanley Rous, um Cruijff entre outros e heresia das heresias, a um Pelé ? Na minha opinião nada, e, bem dito, talvez supere em muito alguns dos enumerados.
Nunca vi em minha vida um cidadão que se dedicou a uma pugna desportiva de proporções maratonísticas, como o Campeonato Brasileiro, tendo o conquistado ao final e se auto-elogiar sem modificar em absolutamente nada a expressão, o tom de voz e a lucidez quanto elogiou Conca, Washington, Leandro Euzébio e Fred ( sim, Fred, o quase candidato a "vilão por omissão do ano"). As declarações em caso de vitórias são sempre de divisão de responsabilidaes e ajudas inestimáveis, ressaltando o grupo e o trabalho em equipe, mesmo em esportes individuais ( Guga e Larri Passos são o exemplo que mais me reluz neste quesito). Recentemente, vimos um Sebastian Vettel chorar ao ser campeão mundial agradecendo a meia população da Áustria a colaboração recebida pelo título mundial de Fórmula 1. Vettel se cansou de fazer besteira o ano todo, inclusive bater no companheiro de equipe numa disputa pelo primeiro lugar em uma prova que tirou os dois carros da equipe da corrida. Mas dirigiu como ninguém na hora que importava. Eu não ouvi ele dizer que ele sabia ser mais rápido que os rivais quando o era. Apesar de ser velocidade absoluta.
Muricy falou, calmo, frio, quase como um diagnóstico médico banal: "minha importância para o título foi grande, quando o time precisou de um técnico eu fui o técnico que o time precisava, atuei nas dificuldades, arrisquei, investi em jogadores que andavam desacreditados e fizeram um belo trabalho, tenho certeza que minha contribuição foi decisiva" . Tá bom, coloquei entre aspas um texto que ele não falou. Mas que bem poderia ter sido falado por Muricy se somadas suas declarações logo após o último jogo do campeonato.
E quem ousou contestar ? O próprio tom com que o auto-elogio foi proferido não deu brecha a questionamento algum. Até mesmo quem poderia ter alguma autoridade para falar alguma coisa sobre algum momento em que a liderança de Muricy deixou a desejar, fez coro ao técnico, o jogador mais valioso do elenco na conquista, o argentino Dario Conca. O lacônico argentino simplesmente declarou nunca haver trabalhado com um técnico tão agregador quanto Muricy.
O técnico do Fluminense se viu em grandes enrascadas ao longo do campeonato. A primeira delas, logo após a Copa, o convite de Ricardo Teixeira, aberto, na imprensa, para que ele assumisse a Seleção. Naquele momento, o Fluminense já liderava o campeonato e Muricy tinha seu nome gritado nas arquibancadas. A torcida tricolor acusou o golpe. Eis que veio a surpresa. Muricy declinou do convite. E, meses depois, com todas as suposições estudadas e analisadas, afastou-se a possibilidade de qualquer interferência ameaçadora de dirigentes ou patrocinadores do clube, ou falta de acordo financeiro. A história foi clara. Muricy foi ético. Se a CBF procurasse o Fluminense e negociasse com o clube a rescisão do seu contrato e aí sim, o consultassem, talvez Muricy estivese hoje trabalhando com a geração Neymar. Mas Ricardo Teixeira, ou seja lá quem o fez na CBF foi diretamente ao técnico, deixando o clube à margem. A postura desagradou a Muricy. E quando a Diretoria do Fluminense foi ouvi-lo ( sim porque nem no Fluminense acreditavam que ele ficaria), e ele deixou claro que o contato tinha sido direto ao mesmo tempo em que era informado que o clube não recebeu nenhum representante da CBF, o trato com o Fluminense foi mantido.
É lógico que Muricy gostaria de dirigir a Seleção Brasileira. Neste momento, o homem Muricy mostrou que mais importante que metas individuais, valem os acordos. Mudar regra do jogo enquanto o jogo está sendo jogado é mau caratismo. No jantar definitivo, Ricardo Teixeira saboreou a sobremesa sozinho. Muricy se retirou da mesa, preferindo o compromisso ético.
Em seguida vieram os problemas com o Maracanã. Onde o Fluminense mandaria seus jogos ? ( Uma boa lição para os dirigentes tricolores pensarem seriamente em investir num estádio, ou como a moda determina, numa arena própria, ou em sociedade com outro clube desabrigado). Na siderúrgica Volta Redonda ? No desajeitado Engenhão ? Muricy defendeu arduamente o Engenhão. Sabia da importância da torcida em um clube que havia beirado a degola meses antes. O acordo com o Botafogo saiu por um pedido de Muricy para que os dirigentes levassem a bom termo a conversa com os dirigentes botafoguenses. E, dizem, por uma conversa que ele teve com Joel Santana. Mas esta fica para o rol das lendas.
Pois o Engenhão se mostrou uma moradia desconfortável. O time perdeu pontos importantes jogando lá. Até que Muricy lançou o apelo, seguido pelo elenco, para a torcida ir ao estádio. Justo no jogo contra o Grêmio, time que fez a melhor campanha do segundo turno do campeonato. E uma firme vitória de 2 a 0 sobre os gaúchos ratificou o que Muricy sabia: aquele time era movido a motivação, no sentido mais puro desta palavra, já que não ocorrerarm atrasos em prêmios e outros problemas financeiros com jogadores como é comum ocorrer.
Outro abacaxi indigesto foi lidar com jogadores de renome com seguidas contusões e tendo que lançar mão de alguns novatos, já que os substitutos naturais, por força,obra e graça de empresários, debandavam do clube. Montar e remontar o time, trabalhar egos para mudanças de função, crises existenciais de alguns jogadores ( me recuso a usar a terminlogia "peça") como Washington e Fred. Aproveitar os exemplos de profissionalismo de Deco, Marquinhos e Conca para os demais componentes do grupo e, simplesmente, falar a linguagem dos jogadores. Nisso, Muricy já era reconhecido. Foi um meia veloz e inteligente que habitou o meio de campo do São Paulo junto com Pedro Rocha, entre outros.
O que chama a atenção em Muricy é que ele é um líder que não parece ter estudado para isso. Não é elegante, exibe uma extensa barriga, cabelos desalinhados, pouca preocupação em escolher palavras suaves. Não me parece que tenha frequentado seminários de liderança e motivação. Não me parece que tenha assessores de imagem, ou atue no esquema de dupla com um segundo obscuro no melhor estilo Murtosa.
Mas é um líder. O grupo reconheceu. Nas fases mais complicadas, depositaram a confiança no técnico. Uma única vez, Conca reclamou de uma substituição. Meia hora depois já havia entendido. Muricy ouviu o técnico adversário dar a ordem para "quebrarem o Conca", e um Neanderthal começou a segui-lo pelo campo.
Em outra situacão, o meia Marquinhos insistia em ter lugar no time. Muricy o fez ver que realmente tinha. Vários, de meia, de volante, de lateral-esquerdo e de ponta esquerda.
Washington quase expeliu seus "stents" com o jejum de gols. Muricy o elogiava ao final dos jogos. Bem, o gol do título saiu de uma bola desviada por Washington.
Fred, rebelde, foi chamado às falas. Pouco fez, mas tê-lo em campo foi importante na reta final. Os goleiros apresentaram seguidos problemas. O time encerrou o campeonato com o seu terceiro goleiro sendo saudado como um dos heróis.
Pois é, Muricy tem razão, ele agiu, mas, ao contrário do ditado popular, não por si, mas pelo grupo, e fez o grupo agir pelo grupo, ainda que um ou outro episódio estressante tenha ocorrido.
Sem dúvida, Muricy Ramalho é um dos mais gratos personagens do esporte, e justo no futebol, onde ética, correção, trabalho em grupo, observar o indivíduo e seu potencial, e sobretudo, com isso tudo, ser um vencedor.
A única pessoa que conheço que revogou a Lei que tem seu nome.
Pois um personagem egresso do cada vez mais egocêntrico e estelar meio futebolístico, que chega de fato, por vezes, a provocar indignação com as extravagâncias e malfeitorias de algumas figuras típicas do meio do esporte, surgiu como padroeiro de que o referido ditado popular prega. E, curioso, tem o nome que serve à rima.
Atende o cidadão pelo nome de Muricy Ramalho, e sua atual profissão é a de técnico de futebol. Antes da digressão sobre a revogação da Lei, faz-se necessário um parênteses sobre uma característica deste pretenso blogueiro: eu torço pelo Fluminense, dois mil anos antes do meu nascimento eu já torcia pelo Fluminense, e mais que isso, fui sócio, e atleta do mais alto nível de mediocridade, defendendo as três cores que traduzem tradição. Portanto, sou muito pouco neutro ao falar do Fluminense. E, talvez, sempre o serei.
Mas o mote deste texto não é o fato de o Fluminense ontem ter conquistado, após uns bons vinte e seis anos recheados de episódios tristíssimos, o título de campeão brasileiro de futebol de 2010.
As linhas são dedicadas a um personagem deste título sim, mas não no seu mérito na conquista. Mérito, aliás, que a esta altura é incontestável. Não há voz que se erga e diga: o técnico Muricy Ramalho errou aqui, mudou mal ali, pensou errado acolá, coisa que aliás é bem típico do brasileiro, que como todo mundo sabe, nasce técnico de time de futebol.
As linhas são dedicadas a um profissional que impressiona por uma correção, coerência, coragem, força, controle emocional, inteligência e capacidade de reverter adversidades que bem poderiam caber num super-herói, ou num protótipo de super-herói, um herói humano como muitos outros líderes.
Para ficar apenas no campo do esporte, no que Muricy deixa a desejar se comparado a um Vanderlei Luxemburgo, um Zico, um Bernardinho, um Beckenbauer, um Fritz Walter, um Stanley Rous, um Cruijff entre outros e heresia das heresias, a um Pelé ? Na minha opinião nada, e, bem dito, talvez supere em muito alguns dos enumerados.
Nunca vi em minha vida um cidadão que se dedicou a uma pugna desportiva de proporções maratonísticas, como o Campeonato Brasileiro, tendo o conquistado ao final e se auto-elogiar sem modificar em absolutamente nada a expressão, o tom de voz e a lucidez quanto elogiou Conca, Washington, Leandro Euzébio e Fred ( sim, Fred, o quase candidato a "vilão por omissão do ano"). As declarações em caso de vitórias são sempre de divisão de responsabilidaes e ajudas inestimáveis, ressaltando o grupo e o trabalho em equipe, mesmo em esportes individuais ( Guga e Larri Passos são o exemplo que mais me reluz neste quesito). Recentemente, vimos um Sebastian Vettel chorar ao ser campeão mundial agradecendo a meia população da Áustria a colaboração recebida pelo título mundial de Fórmula 1. Vettel se cansou de fazer besteira o ano todo, inclusive bater no companheiro de equipe numa disputa pelo primeiro lugar em uma prova que tirou os dois carros da equipe da corrida. Mas dirigiu como ninguém na hora que importava. Eu não ouvi ele dizer que ele sabia ser mais rápido que os rivais quando o era. Apesar de ser velocidade absoluta.
Muricy falou, calmo, frio, quase como um diagnóstico médico banal: "minha importância para o título foi grande, quando o time precisou de um técnico eu fui o técnico que o time precisava, atuei nas dificuldades, arrisquei, investi em jogadores que andavam desacreditados e fizeram um belo trabalho, tenho certeza que minha contribuição foi decisiva" . Tá bom, coloquei entre aspas um texto que ele não falou. Mas que bem poderia ter sido falado por Muricy se somadas suas declarações logo após o último jogo do campeonato.
E quem ousou contestar ? O próprio tom com que o auto-elogio foi proferido não deu brecha a questionamento algum. Até mesmo quem poderia ter alguma autoridade para falar alguma coisa sobre algum momento em que a liderança de Muricy deixou a desejar, fez coro ao técnico, o jogador mais valioso do elenco na conquista, o argentino Dario Conca. O lacônico argentino simplesmente declarou nunca haver trabalhado com um técnico tão agregador quanto Muricy.
O técnico do Fluminense se viu em grandes enrascadas ao longo do campeonato. A primeira delas, logo após a Copa, o convite de Ricardo Teixeira, aberto, na imprensa, para que ele assumisse a Seleção. Naquele momento, o Fluminense já liderava o campeonato e Muricy tinha seu nome gritado nas arquibancadas. A torcida tricolor acusou o golpe. Eis que veio a surpresa. Muricy declinou do convite. E, meses depois, com todas as suposições estudadas e analisadas, afastou-se a possibilidade de qualquer interferência ameaçadora de dirigentes ou patrocinadores do clube, ou falta de acordo financeiro. A história foi clara. Muricy foi ético. Se a CBF procurasse o Fluminense e negociasse com o clube a rescisão do seu contrato e aí sim, o consultassem, talvez Muricy estivese hoje trabalhando com a geração Neymar. Mas Ricardo Teixeira, ou seja lá quem o fez na CBF foi diretamente ao técnico, deixando o clube à margem. A postura desagradou a Muricy. E quando a Diretoria do Fluminense foi ouvi-lo ( sim porque nem no Fluminense acreditavam que ele ficaria), e ele deixou claro que o contato tinha sido direto ao mesmo tempo em que era informado que o clube não recebeu nenhum representante da CBF, o trato com o Fluminense foi mantido.
É lógico que Muricy gostaria de dirigir a Seleção Brasileira. Neste momento, o homem Muricy mostrou que mais importante que metas individuais, valem os acordos. Mudar regra do jogo enquanto o jogo está sendo jogado é mau caratismo. No jantar definitivo, Ricardo Teixeira saboreou a sobremesa sozinho. Muricy se retirou da mesa, preferindo o compromisso ético.
Em seguida vieram os problemas com o Maracanã. Onde o Fluminense mandaria seus jogos ? ( Uma boa lição para os dirigentes tricolores pensarem seriamente em investir num estádio, ou como a moda determina, numa arena própria, ou em sociedade com outro clube desabrigado). Na siderúrgica Volta Redonda ? No desajeitado Engenhão ? Muricy defendeu arduamente o Engenhão. Sabia da importância da torcida em um clube que havia beirado a degola meses antes. O acordo com o Botafogo saiu por um pedido de Muricy para que os dirigentes levassem a bom termo a conversa com os dirigentes botafoguenses. E, dizem, por uma conversa que ele teve com Joel Santana. Mas esta fica para o rol das lendas.
Pois o Engenhão se mostrou uma moradia desconfortável. O time perdeu pontos importantes jogando lá. Até que Muricy lançou o apelo, seguido pelo elenco, para a torcida ir ao estádio. Justo no jogo contra o Grêmio, time que fez a melhor campanha do segundo turno do campeonato. E uma firme vitória de 2 a 0 sobre os gaúchos ratificou o que Muricy sabia: aquele time era movido a motivação, no sentido mais puro desta palavra, já que não ocorrerarm atrasos em prêmios e outros problemas financeiros com jogadores como é comum ocorrer.
Outro abacaxi indigesto foi lidar com jogadores de renome com seguidas contusões e tendo que lançar mão de alguns novatos, já que os substitutos naturais, por força,obra e graça de empresários, debandavam do clube. Montar e remontar o time, trabalhar egos para mudanças de função, crises existenciais de alguns jogadores ( me recuso a usar a terminlogia "peça") como Washington e Fred. Aproveitar os exemplos de profissionalismo de Deco, Marquinhos e Conca para os demais componentes do grupo e, simplesmente, falar a linguagem dos jogadores. Nisso, Muricy já era reconhecido. Foi um meia veloz e inteligente que habitou o meio de campo do São Paulo junto com Pedro Rocha, entre outros.
O que chama a atenção em Muricy é que ele é um líder que não parece ter estudado para isso. Não é elegante, exibe uma extensa barriga, cabelos desalinhados, pouca preocupação em escolher palavras suaves. Não me parece que tenha frequentado seminários de liderança e motivação. Não me parece que tenha assessores de imagem, ou atue no esquema de dupla com um segundo obscuro no melhor estilo Murtosa.
Mas é um líder. O grupo reconheceu. Nas fases mais complicadas, depositaram a confiança no técnico. Uma única vez, Conca reclamou de uma substituição. Meia hora depois já havia entendido. Muricy ouviu o técnico adversário dar a ordem para "quebrarem o Conca", e um Neanderthal começou a segui-lo pelo campo.
Em outra situacão, o meia Marquinhos insistia em ter lugar no time. Muricy o fez ver que realmente tinha. Vários, de meia, de volante, de lateral-esquerdo e de ponta esquerda.
Washington quase expeliu seus "stents" com o jejum de gols. Muricy o elogiava ao final dos jogos. Bem, o gol do título saiu de uma bola desviada por Washington.
Fred, rebelde, foi chamado às falas. Pouco fez, mas tê-lo em campo foi importante na reta final. Os goleiros apresentaram seguidos problemas. O time encerrou o campeonato com o seu terceiro goleiro sendo saudado como um dos heróis.
Pois é, Muricy tem razão, ele agiu, mas, ao contrário do ditado popular, não por si, mas pelo grupo, e fez o grupo agir pelo grupo, ainda que um ou outro episódio estressante tenha ocorrido.
Sem dúvida, Muricy Ramalho é um dos mais gratos personagens do esporte, e justo no futebol, onde ética, correção, trabalho em grupo, observar o indivíduo e seu potencial, e sobretudo, com isso tudo, ser um vencedor.
A única pessoa que conheço que revogou a Lei que tem seu nome.
quarta-feira, 9 de dezembro de 2009
Momento Inesquecível
A Copa do Mundo de 1970, no México dificilmente será substituída nas minhas lembranças sobre futebol por outro evento ou episódio mais marcante. Nestes dias em que muito se falou de um fim de Campeonato Brasileiro eletrizante e vimos o sorteio dos grupo da Copa das Vuvuzelas de 2010, cheguei à conclusão que muita coisa mudou entre 1970 e 2009. Para começar, minha idade, claro. E, naturalmente, o próprio futebol.
A idade que eu tinha em 1970 ( 7 anos) me levava ao lúdico, à idolatria de Pelé, Tostão, Rivelino, Gerson, Jairzinho e até de alguns que apareceram menos, como Paulo César e Marco Antonio. Hoje, 40 anos mais velho, sou crítico, rabugento, vejo mais o erro que o brilho, enxergo más intenções onde elas provavelmente não existem e entendo como sensacional algo que em 1970 era mais visível que é o improviso, o jogador voluntarioso, o drible. Com toda a sinceridade, não consigo ver o Petkovic de 2009 sentado nem no banco de reservas do América da década de 70, que tinha no meio-de-campo Ivo, Thadeu, Braulio e Gilson Nunes.
Por isso, acho que a Copa de 70 foi o meu momento inesquecível no futebol em todos os tempos. Para começar a justificar isso, cabe ressaltar que, apesar de 7 anos de idade, registrei e nunca mais apaguei da memória alguns detalhes daquela Copa. Lembro, por exemplo, do sorteio dos grupos. Os cabeças-de-chave eram México (anfitrião), Itália (campeã européia), Inglaterra (campeã do mundo) e Alemanha Ocidental (vice mundial e europeia). O Brasil não era cabeça-de-chave. No sorteio, caiu no Grupo C, logo chamado de Grupo da Morte, com Inglaterra, Tchecoslováquia ( que seria campeã europeia dois anos depois) e Romenia, que tinha desbancado Espanha e França nas Eliminatórias.
João Saldanha foi substituído por Zagalo alguns meses antes. A campanha nas Eliminatórias tinha empolgado, sob o comando de Saldanha. O Brasil massacrou Colômbia, Venezuela e Paraguai numa sequência de jogos fabulosos de Tostão. Entre as Eliminatórias e a Copa, Tostão levou uma bolada no olho e quase ficou fora da Copa. E esse problema seria o que o iria tirar dos campos precocemente, em 1973. Pelé tinha tido um mau ano em 66, mas recuperara-se em 67 e 68. Em 1969, Pelé começou a dar sinais de esgotamento. Foi quando surgiu a notícia do problema de visão que ele teria. Hoje, sabe-se que Pelé era fisicamente mais bem preparado que 90 % dos jogadores de seu tempo e sua presença em qualquer jogo parava até guerra. Ele simplesmente estava esgotado fisicamente, porque tinha que jogar tudo que é jogo. Não parece muito hoje, mas o jogo de Pelé dependia de suas arrancadas, de uma velocidade impressionante e de uma impulsão que o fazia, com 1,70, subir mais que gigantes de 1,85. Haviam também nomes bons em profusão atuando no Brasil: Rivelino, Paulo César, Jairzinho, Edu ( do América - RJ), Ademir da Guia, Samarone, Dirceu Lopes, todos de meio-campo. O Brasil era pobre em zagueiros e goleiros. Volantes, como hoje vemos jogar então, nem pensar. Talvez Dudu, do Palmeiras fosse o mais próximo do que se chama de "volante de contenção" atualmente. Haviam Zanata, Liminha, Denílson, Zé Carlos, todos muito técnicos. E havia Piazza, que marcava mais duro.
Pois bem. Imagine-se no lugar de Saldanha para acomodar isso tudo no time. Ele avançou Tostão para centro-avante, deslocou Jairzinho para as laterais, recuou um pouco Gerson e colocou o ponta Edu, do Santos. Piazza era o meio-campo recuado. A zaga era Britto e Joel ( ou Fontana, do Vasco). Nas laterais, Carlos Alberto e Marco Antonio, um moleque promissor do Fluminense. No gol, problemaço: Felix, Leão e Ado ( Corinthians) disputavam quem seria titular, mas nenhum inspirava confiança.
Quando Zagalo chegou, resolveu fazer umas mudanças. Tirou Joel da zaga e recuou Piazza. Lançou Clodoaldo, jovem do Santos, habilidoso mas não muito bom marcador, como volante, e surpreendeu o mundo ao escalar Rivelino na ponta-esquerda.
O Brasil entrou em campo para a estreia contra a Tchecoslováquia com Felix, Carlos Alberto, Britto, Piazza e Marco Antonio ( substituído por Everaldo, que ganhou o lugar); Clodoaldo, Gerson e Pelé; Jairzinho, Tostão e Rivelino. Ou seja, eram cinco jogadores de meio-ataque no mesmo time, um cabeca-de área transformado em zagueiro, uma lateral-esquerda com dois novatos e um goleiro prá lá de inconsistente. Lembro que cheguei da escola e liguei a televisão, em preto-e-branco, hipnotizado para ver o jogo. Começou mal. Uma bobeada de Britto e Carlos Alberto e um tcheco faz 1 a 0 logo aos 15 minutos. Para completar, comemorou com um sinal da cruz. Como pode ??? País comunista aceita prática religiosa ??? Roí unhas 25 minutos. Aí Pelé cavou uma falta inexistente na entrada da área, O goleiro tcheco Viktor era considerado um dos melhores do mundo, mas quase tinha tomado um chapéu do meio-de-campo de Pelé a alguns minutos e parecia nervoso. Uns 5 estavam colocados para bater a falta, que pedia a clássica batida por cima da barreira, buscando o alto do gol. Nada disso. Rivelino deu um pique e soltou um foguete bem em cima do tal do Viktor. O cara estava na bola, mas não deteve o chute. 1 a 1 e Rivelino comemorando como se estivesse exorcizando traumas antigos, agitando os braços com força.
O segundo tempo começou com o time europeu medroso e aparentemente cansado. Aí, Gerson, como faria outras várias vezes na Copa, fez um lançamento de uns 5 quilômetros para Pelé, que estava marcado. Entra em cena o gênio. Pelé se antecipou ao marcador, com sua impulsão fenomenal aparou a bola no peito lá na cota dos três metros de altura, deixou cair no chão, e empurrou para o gol. Saí igual um louco correndo pela casa. Era um golaço. Eu não escondia o fascínio de ver o meio-campo do Brasil tocando a bola, de uma lateral a outra, sempre parando em Gerson. Numa dessas escalas forçosas no canhotinha, ele descobriu um Jairzinho tentando bater o recorde mundial dos 100 m rasos pela direita e pimba ! outra bola de 5 quilômetros. Jairzinho fez graça, jogou por cima do agora totalmente apavorado Viktor e emendou para o gol vazio. Fui para a janela, olhei a bandeira que tinha feito em verde e amarelo e que modéstia à parte era a maior da rua em que eu morava. Eu estava vibrando. Mas ainda tinha mais. Numa jogada individual, Jairzinho driblou a defesa adversária toda e fez o quarto. 4 a 1. Desci para a rua, festa na rua, com muito papel picado e a criançada se divertindo.
O jogo seguinte era contra a Inglaterra. O mais temido. Os 4 a 1 tinham me dado a falsa impressão que tudo seria fácil. Não lembro de detalhes do primeiro tempo, apenas do chute de um atacante inglês no rosto de Felix. Aliás, neste jogo, Felix justificou sua convocação. No tradicional chuveirinho inglês, Felix se virou socando bolas de tudo que foi jeito. Gerson não estava em campo. Paulo César, em seu lugar, meio isolado na esquerda. A defesa inglesa parecia a muralha de um castelo. Pelo menos, os ingleses não aprontavam muito com a bola no chão.
No intervalo fui para o quarto e rezei. Juro.
No segundo tempo o Brasil dominou mas nada de gol sair. Enfim, Tostão fez uma jogada maluca na meia-esquerda e cruzou para Pelé, que, com calma ajeitou para Jairzinho que, sem calma nenhuma, disparou um foguete para ver se aquele impressionante goleiro segurava. Gol. Não lembro do resto do jogo. Desci para a rua para comemorar de novo. Uma cena desse dia nunca mais esquecerei. Passou na minha frente um Opala pintado de verde e amarelo com o placar do jogo Brasil 1 Inglaterra 0. Pensei: qual maluco faria isso ? Acho que muitos. Havia uma euforia absoluta no ar.
O terceiro jogo foi contra a Romenia e o menos emocionante pois o Brasil já estava classificado e logo da cara fez 2 a 0, com o Paulo César arrebentando na ponta esquerda. Mas a Romenia fez um gol. Então, me lembro que, com raiva, me debati e bati com a cabeça numa mesa de tampo de mármore que meus pais tinham na sala. Na mesma hora, Brasil 3 a 1. Meu pai pegou gelo, botei na testa, doía prá burro, mas eu nem ligava para a dor. Mas a Romenia fez o segundo e meu pai, gaiato, me disse: enfia a testa de novo na mesa para ver se o Brasil faz mais um gol. Lembro como se fosse ontem.
No mata-mata, o Brasil caiu contra o Peru. A lembrança das Colômbias, Venezuelas e Paraguais arrasados me deixavam calmos. Desconhecia eu completamente que os peruanos haviam eliminado a Argentina e para falar a verdade, eu não sabia que o futebol argentino era forte. Ouvia-se muito do Uruguai na época, fruto do trauma de 1950, mas pouco da Argentina. Início de jogo, 2 a 0, Tostão fazendo gol, parecia tudo tranquilo até que Britto e Felix resolveram complicar. Mas no final, com uma atuação de gala de Tostão, ficou 4 a 2. Me lembro de encarar o resultado como normal. Estava ficando convencido.
Aí veio o Uruguai. Pela primeira vez na minha vida, virei de costas para um jogo. Quase fui para o quarto chorar. O Uruguai fez 1 a 0, num frango premiado de granja de Felix e o Brasil não jogava nada. Para completar, os uruguaios se impunham na porrada e na arrogância. Tremi. De repente, Clodoaldo, que eu já até tinha esquecido que era jogador, recebeu um passe de Tostão e mandou para o gol. 1 a 1. Curioso que fiquei quieto. Só pensei na hora: falta um gol do Gerson...vai ser hoje...hoje, nem sei se o Gerson estava em campo, pois estava às voltas com uma contratura.
E não vou pesquisar para ver se estava ou não porque no segundo tempo surgiu em campo um herói que depois fui ter enorme orgulho de ver jogando com a camisa do Fluminense: Rivelino. O cara resolveu encarar os uruguaios, com dribles, elásticos, tomado porrada e levantando e encarando os celestes. Rivelino fez o segundo tempo contra o Uruguai encarnando a raça e a categoria. Mas o gol demorou até quase 30 minutos do segundo tempo, quando Jairzinho deu uma disparada e recebeu passe de Tostão para desempatar. Aí o Brasil abriu a caixinha de maldades contra o Uruguai. Pelé tentou gol de tudo que foi jeito. Rivelino pisava na bola e provocava os uruguaios. Carlos Alberto e Pelé se revezaram em retribuir as "gentilezas" dos adversários no primeiro tempo. Uruguaios na roda. Para fechar o show, um gol de linha de passe de treino com Pelé ajeitando para trás e Rivelino soltando uma bomba no canto. Rivelino comemorava com raiva. Transbordava alívio do stress, de sua entrega em campo. Talvez essa comemoração tenha sido a cena que mais me marcou nessa Copa.
Fim de jogo e a televisão começa a passar a prorrogação de Itália e Alemanha. Terminou 4 a 3 para os italianos, mas tiveram umas cinco viradas no jogo...que jogão...e eu não desgrudava da televisão. Só quando acabou, desci para a tradicional comemoração na rua e de lá de baixo, olhar o bandeirão que tinha pendurado da janela e que a esta altura já provocava certa ira de vizinhos de três andares abaixo, mas que sentiam que não podiam pedir para retirar...
Entre o jogo do Uruguai e a final eu lembro de muita coisa. O clima era positivíssimo. Haviam dúvidas se Gerson jogaria. Felix iria optar por jogar de luvas pela primeira vez na carreira...umas coisas esquisitas eram ditas sobre uniformes da seleção ( só recentemente soube que tratou-se de uma briga entre Adidas e Puma para calçarem os pés do Pelé na final). Os palpites diziam que seria 3 a 0, 3 a 1. Mas a Itália tinha um belo time, misto de Inter e Cagliari.
O jogo começou e eu tinha um nome em mente: Luigi Gigi Riva, artilheiro do italiano 69/70 jogando pelo modesto Cagliari. No início, Felix fez uma defesa de tirar o fôlego, mas me lembro de ficar calmo. Pelé subiu num cruzamento improvável de Rivelino e fez 1 a 0. Aí o Brasil resolveu dar show. Ao contrário de Jairzinho que jogava mal, Rivelino colocava sangue na ponta da chuteira. Facchetti não tinha a quem marcar: ora era Tostão, ora era Jair, ora era Pelé. Mas numa troca de bola boba na defesa, Clodoaldo foi dar de calcanhar e o bom Boninsegna ( que depois fez dupla de ataque com o Fabio Capello, hoje técnico da Inglaterra, na azzurra) aproveitou e empatou. O time brasilero ficou nervoso ainda mais com um gol anulado no final do primeiro tempo pelo juiz, que apitou fim do tempo antes de Pelé chutar livre de dentro da área.
O segundo tempo começou calmo, mas lá pelos 25 minutos eu já estava com várias almofadas em cima escondendo o rosto. O jogo persistia 1 a 1. Mas, numa jogada de força de Jair após bom passe de Everaldo, Gerson emendou uma bomba de canhota. Do meio para a frente, era o único jogador que não tinha marcado. Pronto, agora tinha feito. Golaço, e ânimo quadruplicado na Seleção Brasileira, italianos cansados e de guarda-baixa...showtime...
Gerson, em outro lançamento de 5 quilômetros para Pelé escorar de cabeça e Jairzinho entrar com bola e tudo, comandava o toque de bola no meio e o show. Dribles desconcertantes de Rivelino, jogando de novo um partidaço. Itália na roda, com Gerson apontando e distribuindo o jogo. Na jogada mas bonita de toda a Copa, Clodoaldo se livra de 4 italianos no meio, joga para Tostão que lança para Jairzinho como ponta-esquerda. Bola para Pelé na meia-lua da grande área. Sem olhar, o toque para o lado onde entrava na velocidade do som, o capitão Carlos Alberto para soltar uma bomba num gol apoteótico.
O desfecho ideal. O estádio idolatrando o futebol brasileiro. Unanimidade internacional. Era o time dos craques. Nunca se vira domínio tão predominante em finais de Copa desde 1958. Para completar conquista definitiva da Jules Rimet.
No dia da final não desci para festa tradicional na rua. Lembro de deitar no sofá da sala e ficar olhando para o céu. Como criança, a conquista daquele time era minha também. Me senti no topo no mundo. Mas com um sentimento de tranquilidade, e não de dominância. Era bom ter vivido aquilo. Era como se eu estivesse estado em campo.
Vi muita coisa emocionante no esporte depois disso. No futebol também, nas vitórias de Senna, no vôlei, nas lutas de Muhammad Ali. Sempre me envolveram emocionalmente. Mas acho que só em 1970 eu entrei em campo com a seleção.
Talvez isso explique porque lembro mais da Copa de 1970, quando tinha 7 anos, do que da 1974, quando tinha 11.
No dia seguinte da final. Com o Brasil tri-campeão, fui conferir a minha super-bandeira. Uma ventania da noite a rasgara e ela tinha ido embora. Chorei porque queria guardá-la. Era o meu símbolo particular de ter jogado naquela Copa.
A idade que eu tinha em 1970 ( 7 anos) me levava ao lúdico, à idolatria de Pelé, Tostão, Rivelino, Gerson, Jairzinho e até de alguns que apareceram menos, como Paulo César e Marco Antonio. Hoje, 40 anos mais velho, sou crítico, rabugento, vejo mais o erro que o brilho, enxergo más intenções onde elas provavelmente não existem e entendo como sensacional algo que em 1970 era mais visível que é o improviso, o jogador voluntarioso, o drible. Com toda a sinceridade, não consigo ver o Petkovic de 2009 sentado nem no banco de reservas do América da década de 70, que tinha no meio-de-campo Ivo, Thadeu, Braulio e Gilson Nunes.
Por isso, acho que a Copa de 70 foi o meu momento inesquecível no futebol em todos os tempos. Para começar a justificar isso, cabe ressaltar que, apesar de 7 anos de idade, registrei e nunca mais apaguei da memória alguns detalhes daquela Copa. Lembro, por exemplo, do sorteio dos grupos. Os cabeças-de-chave eram México (anfitrião), Itália (campeã européia), Inglaterra (campeã do mundo) e Alemanha Ocidental (vice mundial e europeia). O Brasil não era cabeça-de-chave. No sorteio, caiu no Grupo C, logo chamado de Grupo da Morte, com Inglaterra, Tchecoslováquia ( que seria campeã europeia dois anos depois) e Romenia, que tinha desbancado Espanha e França nas Eliminatórias.
João Saldanha foi substituído por Zagalo alguns meses antes. A campanha nas Eliminatórias tinha empolgado, sob o comando de Saldanha. O Brasil massacrou Colômbia, Venezuela e Paraguai numa sequência de jogos fabulosos de Tostão. Entre as Eliminatórias e a Copa, Tostão levou uma bolada no olho e quase ficou fora da Copa. E esse problema seria o que o iria tirar dos campos precocemente, em 1973. Pelé tinha tido um mau ano em 66, mas recuperara-se em 67 e 68. Em 1969, Pelé começou a dar sinais de esgotamento. Foi quando surgiu a notícia do problema de visão que ele teria. Hoje, sabe-se que Pelé era fisicamente mais bem preparado que 90 % dos jogadores de seu tempo e sua presença em qualquer jogo parava até guerra. Ele simplesmente estava esgotado fisicamente, porque tinha que jogar tudo que é jogo. Não parece muito hoje, mas o jogo de Pelé dependia de suas arrancadas, de uma velocidade impressionante e de uma impulsão que o fazia, com 1,70, subir mais que gigantes de 1,85. Haviam também nomes bons em profusão atuando no Brasil: Rivelino, Paulo César, Jairzinho, Edu ( do América - RJ), Ademir da Guia, Samarone, Dirceu Lopes, todos de meio-campo. O Brasil era pobre em zagueiros e goleiros. Volantes, como hoje vemos jogar então, nem pensar. Talvez Dudu, do Palmeiras fosse o mais próximo do que se chama de "volante de contenção" atualmente. Haviam Zanata, Liminha, Denílson, Zé Carlos, todos muito técnicos. E havia Piazza, que marcava mais duro.
Pois bem. Imagine-se no lugar de Saldanha para acomodar isso tudo no time. Ele avançou Tostão para centro-avante, deslocou Jairzinho para as laterais, recuou um pouco Gerson e colocou o ponta Edu, do Santos. Piazza era o meio-campo recuado. A zaga era Britto e Joel ( ou Fontana, do Vasco). Nas laterais, Carlos Alberto e Marco Antonio, um moleque promissor do Fluminense. No gol, problemaço: Felix, Leão e Ado ( Corinthians) disputavam quem seria titular, mas nenhum inspirava confiança.
Quando Zagalo chegou, resolveu fazer umas mudanças. Tirou Joel da zaga e recuou Piazza. Lançou Clodoaldo, jovem do Santos, habilidoso mas não muito bom marcador, como volante, e surpreendeu o mundo ao escalar Rivelino na ponta-esquerda.
O Brasil entrou em campo para a estreia contra a Tchecoslováquia com Felix, Carlos Alberto, Britto, Piazza e Marco Antonio ( substituído por Everaldo, que ganhou o lugar); Clodoaldo, Gerson e Pelé; Jairzinho, Tostão e Rivelino. Ou seja, eram cinco jogadores de meio-ataque no mesmo time, um cabeca-de área transformado em zagueiro, uma lateral-esquerda com dois novatos e um goleiro prá lá de inconsistente. Lembro que cheguei da escola e liguei a televisão, em preto-e-branco, hipnotizado para ver o jogo. Começou mal. Uma bobeada de Britto e Carlos Alberto e um tcheco faz 1 a 0 logo aos 15 minutos. Para completar, comemorou com um sinal da cruz. Como pode ??? País comunista aceita prática religiosa ??? Roí unhas 25 minutos. Aí Pelé cavou uma falta inexistente na entrada da área, O goleiro tcheco Viktor era considerado um dos melhores do mundo, mas quase tinha tomado um chapéu do meio-de-campo de Pelé a alguns minutos e parecia nervoso. Uns 5 estavam colocados para bater a falta, que pedia a clássica batida por cima da barreira, buscando o alto do gol. Nada disso. Rivelino deu um pique e soltou um foguete bem em cima do tal do Viktor. O cara estava na bola, mas não deteve o chute. 1 a 1 e Rivelino comemorando como se estivesse exorcizando traumas antigos, agitando os braços com força.
O segundo tempo começou com o time europeu medroso e aparentemente cansado. Aí, Gerson, como faria outras várias vezes na Copa, fez um lançamento de uns 5 quilômetros para Pelé, que estava marcado. Entra em cena o gênio. Pelé se antecipou ao marcador, com sua impulsão fenomenal aparou a bola no peito lá na cota dos três metros de altura, deixou cair no chão, e empurrou para o gol. Saí igual um louco correndo pela casa. Era um golaço. Eu não escondia o fascínio de ver o meio-campo do Brasil tocando a bola, de uma lateral a outra, sempre parando em Gerson. Numa dessas escalas forçosas no canhotinha, ele descobriu um Jairzinho tentando bater o recorde mundial dos 100 m rasos pela direita e pimba ! outra bola de 5 quilômetros. Jairzinho fez graça, jogou por cima do agora totalmente apavorado Viktor e emendou para o gol vazio. Fui para a janela, olhei a bandeira que tinha feito em verde e amarelo e que modéstia à parte era a maior da rua em que eu morava. Eu estava vibrando. Mas ainda tinha mais. Numa jogada individual, Jairzinho driblou a defesa adversária toda e fez o quarto. 4 a 1. Desci para a rua, festa na rua, com muito papel picado e a criançada se divertindo.
O jogo seguinte era contra a Inglaterra. O mais temido. Os 4 a 1 tinham me dado a falsa impressão que tudo seria fácil. Não lembro de detalhes do primeiro tempo, apenas do chute de um atacante inglês no rosto de Felix. Aliás, neste jogo, Felix justificou sua convocação. No tradicional chuveirinho inglês, Felix se virou socando bolas de tudo que foi jeito. Gerson não estava em campo. Paulo César, em seu lugar, meio isolado na esquerda. A defesa inglesa parecia a muralha de um castelo. Pelo menos, os ingleses não aprontavam muito com a bola no chão.
No intervalo fui para o quarto e rezei. Juro.
No segundo tempo o Brasil dominou mas nada de gol sair. Enfim, Tostão fez uma jogada maluca na meia-esquerda e cruzou para Pelé, que, com calma ajeitou para Jairzinho que, sem calma nenhuma, disparou um foguete para ver se aquele impressionante goleiro segurava. Gol. Não lembro do resto do jogo. Desci para a rua para comemorar de novo. Uma cena desse dia nunca mais esquecerei. Passou na minha frente um Opala pintado de verde e amarelo com o placar do jogo Brasil 1 Inglaterra 0. Pensei: qual maluco faria isso ? Acho que muitos. Havia uma euforia absoluta no ar.
O terceiro jogo foi contra a Romenia e o menos emocionante pois o Brasil já estava classificado e logo da cara fez 2 a 0, com o Paulo César arrebentando na ponta esquerda. Mas a Romenia fez um gol. Então, me lembro que, com raiva, me debati e bati com a cabeça numa mesa de tampo de mármore que meus pais tinham na sala. Na mesma hora, Brasil 3 a 1. Meu pai pegou gelo, botei na testa, doía prá burro, mas eu nem ligava para a dor. Mas a Romenia fez o segundo e meu pai, gaiato, me disse: enfia a testa de novo na mesa para ver se o Brasil faz mais um gol. Lembro como se fosse ontem.
No mata-mata, o Brasil caiu contra o Peru. A lembrança das Colômbias, Venezuelas e Paraguais arrasados me deixavam calmos. Desconhecia eu completamente que os peruanos haviam eliminado a Argentina e para falar a verdade, eu não sabia que o futebol argentino era forte. Ouvia-se muito do Uruguai na época, fruto do trauma de 1950, mas pouco da Argentina. Início de jogo, 2 a 0, Tostão fazendo gol, parecia tudo tranquilo até que Britto e Felix resolveram complicar. Mas no final, com uma atuação de gala de Tostão, ficou 4 a 2. Me lembro de encarar o resultado como normal. Estava ficando convencido.
Aí veio o Uruguai. Pela primeira vez na minha vida, virei de costas para um jogo. Quase fui para o quarto chorar. O Uruguai fez 1 a 0, num frango premiado de granja de Felix e o Brasil não jogava nada. Para completar, os uruguaios se impunham na porrada e na arrogância. Tremi. De repente, Clodoaldo, que eu já até tinha esquecido que era jogador, recebeu um passe de Tostão e mandou para o gol. 1 a 1. Curioso que fiquei quieto. Só pensei na hora: falta um gol do Gerson...vai ser hoje...hoje, nem sei se o Gerson estava em campo, pois estava às voltas com uma contratura.
E não vou pesquisar para ver se estava ou não porque no segundo tempo surgiu em campo um herói que depois fui ter enorme orgulho de ver jogando com a camisa do Fluminense: Rivelino. O cara resolveu encarar os uruguaios, com dribles, elásticos, tomado porrada e levantando e encarando os celestes. Rivelino fez o segundo tempo contra o Uruguai encarnando a raça e a categoria. Mas o gol demorou até quase 30 minutos do segundo tempo, quando Jairzinho deu uma disparada e recebeu passe de Tostão para desempatar. Aí o Brasil abriu a caixinha de maldades contra o Uruguai. Pelé tentou gol de tudo que foi jeito. Rivelino pisava na bola e provocava os uruguaios. Carlos Alberto e Pelé se revezaram em retribuir as "gentilezas" dos adversários no primeiro tempo. Uruguaios na roda. Para fechar o show, um gol de linha de passe de treino com Pelé ajeitando para trás e Rivelino soltando uma bomba no canto. Rivelino comemorava com raiva. Transbordava alívio do stress, de sua entrega em campo. Talvez essa comemoração tenha sido a cena que mais me marcou nessa Copa.
Fim de jogo e a televisão começa a passar a prorrogação de Itália e Alemanha. Terminou 4 a 3 para os italianos, mas tiveram umas cinco viradas no jogo...que jogão...e eu não desgrudava da televisão. Só quando acabou, desci para a tradicional comemoração na rua e de lá de baixo, olhar o bandeirão que tinha pendurado da janela e que a esta altura já provocava certa ira de vizinhos de três andares abaixo, mas que sentiam que não podiam pedir para retirar...
Entre o jogo do Uruguai e a final eu lembro de muita coisa. O clima era positivíssimo. Haviam dúvidas se Gerson jogaria. Felix iria optar por jogar de luvas pela primeira vez na carreira...umas coisas esquisitas eram ditas sobre uniformes da seleção ( só recentemente soube que tratou-se de uma briga entre Adidas e Puma para calçarem os pés do Pelé na final). Os palpites diziam que seria 3 a 0, 3 a 1. Mas a Itália tinha um belo time, misto de Inter e Cagliari.
O jogo começou e eu tinha um nome em mente: Luigi Gigi Riva, artilheiro do italiano 69/70 jogando pelo modesto Cagliari. No início, Felix fez uma defesa de tirar o fôlego, mas me lembro de ficar calmo. Pelé subiu num cruzamento improvável de Rivelino e fez 1 a 0. Aí o Brasil resolveu dar show. Ao contrário de Jairzinho que jogava mal, Rivelino colocava sangue na ponta da chuteira. Facchetti não tinha a quem marcar: ora era Tostão, ora era Jair, ora era Pelé. Mas numa troca de bola boba na defesa, Clodoaldo foi dar de calcanhar e o bom Boninsegna ( que depois fez dupla de ataque com o Fabio Capello, hoje técnico da Inglaterra, na azzurra) aproveitou e empatou. O time brasilero ficou nervoso ainda mais com um gol anulado no final do primeiro tempo pelo juiz, que apitou fim do tempo antes de Pelé chutar livre de dentro da área.
O segundo tempo começou calmo, mas lá pelos 25 minutos eu já estava com várias almofadas em cima escondendo o rosto. O jogo persistia 1 a 1. Mas, numa jogada de força de Jair após bom passe de Everaldo, Gerson emendou uma bomba de canhota. Do meio para a frente, era o único jogador que não tinha marcado. Pronto, agora tinha feito. Golaço, e ânimo quadruplicado na Seleção Brasileira, italianos cansados e de guarda-baixa...showtime...
Gerson, em outro lançamento de 5 quilômetros para Pelé escorar de cabeça e Jairzinho entrar com bola e tudo, comandava o toque de bola no meio e o show. Dribles desconcertantes de Rivelino, jogando de novo um partidaço. Itália na roda, com Gerson apontando e distribuindo o jogo. Na jogada mas bonita de toda a Copa, Clodoaldo se livra de 4 italianos no meio, joga para Tostão que lança para Jairzinho como ponta-esquerda. Bola para Pelé na meia-lua da grande área. Sem olhar, o toque para o lado onde entrava na velocidade do som, o capitão Carlos Alberto para soltar uma bomba num gol apoteótico.
O desfecho ideal. O estádio idolatrando o futebol brasileiro. Unanimidade internacional. Era o time dos craques. Nunca se vira domínio tão predominante em finais de Copa desde 1958. Para completar conquista definitiva da Jules Rimet.
No dia da final não desci para festa tradicional na rua. Lembro de deitar no sofá da sala e ficar olhando para o céu. Como criança, a conquista daquele time era minha também. Me senti no topo no mundo. Mas com um sentimento de tranquilidade, e não de dominância. Era bom ter vivido aquilo. Era como se eu estivesse estado em campo.
Vi muita coisa emocionante no esporte depois disso. No futebol também, nas vitórias de Senna, no vôlei, nas lutas de Muhammad Ali. Sempre me envolveram emocionalmente. Mas acho que só em 1970 eu entrei em campo com a seleção.
Talvez isso explique porque lembro mais da Copa de 1970, quando tinha 7 anos, do que da 1974, quando tinha 11.
No dia seguinte da final. Com o Brasil tri-campeão, fui conferir a minha super-bandeira. Uma ventania da noite a rasgara e ela tinha ido embora. Chorei porque queria guardá-la. Era o meu símbolo particular de ter jogado naquela Copa.
segunda-feira, 29 de junho de 2009
O vira do Lúcio
Continuo achando a Seleção Brasileira um belo time. Mas nada que me encha os olhos. Há um toque de bola correto, com a gorduchinha correndo sempre no chão. O time tem jogadores bons, como o Kaká, o Luís Fabiano, o Julio Cesar. Mas tem mascarados, como o Robinho. Tem também uns caras que são ponto de interrogação, tipo Felipe Melo e Gilberto Silva. E falta gente na lateral-esquerda e um sujeito no meio-campo que jogue um pouquinho mais que Elano e Ramires, artigo meio raro hoje em dia.
Contra os Estados Unidos, todos lembrarão do segundo tempo. Realmente, o Brasil fez um belo segundo tempo, mas muito por conta de um gol aos 40 seg de jogo. Daí para a frente, o Brasil jogou e o time dos Estados Unidos não acreditou na vitória.
Mas me irritou profundamente os créditos dados ao Lúcio. Tudo bem, o cara grita, tem personalidade e fez o terceiro gol, numa bela cabeçada. Mas, vejamos...quem falhou no primeiro gol dos ianques ? Ele, Lúcio. Quem subiu desesperadamente ao ataque e possibilitou o segundo gol ianque? Um monte de gente, incluindo o Lúcio. Quem deu botinadas a não poder mais e tomou um cartão amarelo, que, 5 minutos depois, poderia ter virado um vermelho se o juiz fosse um pouquinho melhor ? Felipe Melo e Lúcio.
Ou seja, Lúcio, no fim das contas, foi vilão e herói. Noves fora, compensou os erros e acertos.
Não confio no estilo do zagueiro. Pelo visto, nem eu nem a comissão técnica do Bayern de Munique. Lúcio foi apontado como um dos responsáveis pela acachapante goleada de 7 a 1 que o Barcelona aplicou no Bayern na Liga dos Campeões. Jogou poucas partidas pelo Campeonato Alemão e foi expulso em metade delas.
E, no entanto, acho que já sei quem será o capitão da Seleção até a Copa e nela mesmo, inclusive. O cara ganhou status de intocável.
Quem está lendo pode achar que estou me baseando no que os jornalistas disseram e escreveram. Sim, em parte.
Mas me baseio numa característica do técnico, Dunga. Contestado, e até ridicularizado em 1990, foi o capitão de 1994. Curiosamente, estava em decadência na Europa, como Lúcio agora. Segurou a chance na Seleção com unhas e dentes. Jogou mal boa parte dos jogos do Brasil nas Eliminatórias, mas na Copa dos Estados Unidos foi mesmo um líder e guardo dois lances dele em que se transformou em figura fundamental: o primeiro foi um lançamento de três dedos para Romário entrar na cara do goleiro e abrir o placar contra Camarões. E o segundo, um lance que pouca gente dá importância, mas foi decisivo: Dunga disputou uma bola no meio-campo na difícil semi-final contra a Suécia, fez a falta no nórdico e caiu, como que sofrendo a falta. O juiz puxou o cartão amarelo para um incrédulo sueco, que, como já tinha um, com o segundo foi mais cedo para o chuveiro. E o jogo, que caminhava para um 0 a 0 no escaldante meio-dia de Pasadena, ficou à feição do Brasil com um jogador a mais e Romário, mesmo medindo meio metro menos que os zagueiros adversários teve perna para cabecear uma bola a 10 minutos do fim e garantir o Brasil na final.
Não descarto Lúcio. O cara até pode jogar na Seleção bem. Mas daí a ser unanimidade...ai...ai...ai....
Mas Dunga vê sua própria história na de Lúcio. Ele deve se lembrar de si mesmo quando observa o Lúcio em campo, não pelo estilo, mas pela falta dele.
A virada de Dunga já é história do futebol brasileiro.
A de Lúcio ainda está começando.
A propósito, dispensado pelo Bayern, Lúcio pode jogar em Portugal. É prudente observar se em vez de viradas na vida, Lúcio não dançará o vira. E mais prudente ainda é que o Dunga observe isso com cautela, porque nome certo na Copa, do time que virou o jogo de ontem contra os Estados Unidos, salvo contingências, só tem Julio Cesar, Kaká, Luís Fabiano, e o uniforme com cinco estrelinhas. Robinho, se a cabeça não der uma "ronaldada", é quase certo.
O resto, precisa se manter bem. Inclusive o técnico. Ou se o jogo ontem terminasse sem a virada, iriam preservar o Dunga ?
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