Como uma mandala, o título sugere que os assuntos se relacionam e se retro-alimentam.
Será um bom exercício, resultado de uma divagação nada impossível, cujo conteúdo e espírito da coisa só poderão ser constatados ao final da missiva, pois é mister discorrer sobre os antecedentes.
Quando o Muro de Berlim caiu, em 1989, o comunismo ruiu e o que parecia ser a dialética política dominante semi-eterna acabou como num passe de mágica. Ecoonomistas se debruçaram sobre os indicadores dos países satélites da ex-URSS., e dessa própria, para tentar entender o súbito fenômeno. Capitalistas trataram de aproveitar a oportunidade e ganhar dinheiro em países onde essa cultura ( a de ganhar dinheiro) estava esquecida pelas duas geracões pós 1945. A China se deu conta que alimentar mais de um bilhão de almas e exercer controle rigoroso sobre tal contingente não valia a pena num mundo que visivelmente saltava para uma integração comercial e financeira plena e deu as costas para o comunismo de tabuada e implantou um regime comunista na filosofia e plenamente capitalista na prática.
E os historiadores e filósofos ? Li coisas diametralmente opostas, do receio e da crítica de Leandro Konder ao entusiasmo da turma de Chicago e de Harvard.
Mas um sujeito chamou mais a atenção que todos, o historiador e filósofo Francis Fukuyama, americano de origem distante nipônica, plenamente integrado à cultura ianque, que, em 1991, portanto um tanto ou quanto precipitadamente, lançou um livro chamado "O Fim da História" onde pregava que a História como processo, na concepção de Hegel e seguida por muitos, inclusive Marx, havia acabado, já que o liberalismo ocidental prevalecera com o colapso soviético e o mega-ajuste chinês. A História teria de ser modificada e, como disciplina em si, não fazia mais sentido.
Fukuyama é um grande pensador e ele mesmo começou a duvidar do que escreveu quando fatos nada afastados da doutrina de Hegel começaram a acontecer no Iraque/Kuwait, em vários pontos da África e principalmente, na Guerra dos Bálcãs que significou o esfacelamento da Iugoslávia com conotações religiosas e étnicas. Sem esquecer o duradouro impasse Israel-palestinos, que transcende o local e empolga todo o mundo árabe. A História estava viva. De certa forma, sob uma roupagem mais pontual, menos global, mas os princípios de Hegel lá estavam todos, fosse na Europa, na Ásia ( os já citados mais a questão tibetana e de Mianmar), na Oceania (Timor e Filipinas) e na América do Sul ( democracias novas lidando com problemas de conduta e crises econômicas).
Fukuyama lançou artigos corrigindo seu rumo, mas sem abandonar sua convicção. Curiosamente, em 2000 Fukuyama proferiu uma série de palestras praticamente abandonando a teoria do "fim da História"e seu sub-produto, "O Último Homem". Começou, talvez mais impressionado com os fatos ocorridos na Bósnia, para o qual contribuíram fortes vetores de religião e conflitos étnicos, a construir um novo raciocínio. Também foram aos ouvidos de Fukuyama os sacolejos nas economias argentina, mexicana, russa e brasileira ( janeiro de 1999), nesta ordem, que mostravam um fluxo de capitais intenso capaz de causar mais efeitos do que uma guerra ou decisões de gabinetes da diplomacia tradicional.
Incrível, mas Fukuyama previu que "...a História está desmembrada, mas viva, e acontecimentos dramáticos parecem cada vez mais imprevisíveis e de difícil estudo (....) não será impossível pequenas forças botarem potências de joelhos, como não será impossível que as potências e o capital destruam estas pequenas forças."
Algo de futurologia neste extrato se confirmaria dramaticamente em 11 de setembro de 2011, que hoje completa 9 anos e ainda provoca dúvidas e perplexidade. Definitivamente, o edifício de Fukuyama desabou junto com o World Trade Center. A História tinha um novo motor. O conflito religioso-moral com forte dose de tempero dos tempos coloniais.
O que veio depois, todos sabem. O Estados Unidos empreenderam campanhas no Iraque e no Afeganistão caríssimas, com resultados práticos pouco visíveis até agora. Uma China pujante crescendo a à velocidade de Mach 7 no PIB, e os países periféricos se ajustando e ganhando espaço no cenário mundial.
Hobsbawn previu também a Era do Controle. Paralelo a isso tudo o boom internético e de tecnologia digital permite hoje que qualquer cidadão seja observado 24 horas por dia. Saímos da Era do Confinamento para a Era do Controle das massas. Um tsunami que arrasa Sri Lanka é noticiado e com imagens no Brasil em um par de horas. Um boato sobre a dívida pública grega faz torrentes de dólares migrarem de ativos em minutos.
Para completar tudo isso, em 2008 o capitalismo quebrou. Seu antagonista, o comunismo, já havia deixado a disputa quando o predominante resolveu se auto-flagelar, criando mecanismos de crédito que simplesmente não correspondiam à producão e ao lastro em moeda existente. Protestos em todo o mundo, um país falido , sim um país inteiro falido - a Islândia - , privatizações nos corações do capitalismo, Wall Street e Detroit. O caos se avizinahava. Nem tanto. Os governos centrais mostraram fôlego para sustentar o sistema financeiro, mas deixaram de fazer seus deveres de casa sociais.
Aí surge José Saramago. Em um livro não muito percebido, de 2004, pois foi publicado logo após o festejado "Ensaio sobre a Cegueira". Saramago antevê um estado de coisas em que os cidadãos se distanciam tanto do governo e este dos cidadãos, que num fictício país, todos, sem excecào, votam em branco numa importante eleição. Estados de sítio, teorias conspiratórias e tudo o que se possa imaginar acomete o governo do tal país. Mas os cidadão continuam votando em branco. Tanto faz como tanto fez quem sentará no Poder. As coisas não mudam mais ao sabor de uma vontade mas sim de uma quantidade de variáveis tão grande que é impossível prever se a figura A fará melhor governo que a figura B. O próprio governante está de carona e nào há necessidade de ninguém para governar. tanto que enquanto o governo do fictício país se desdobra para resolver o incrível vexame, a vida nas ruas segue normalmente, não há piquetes, não há protestos, todos vão ao trabalho normalmente, todos vão aos jogos de futebol, mas continuam a votar em branco. Saramago deu o nome a este livro de "Ensaio sobre a Lucidez", palavra última esta que não se apresenta em nenhum momento do texto, sugerindo que lúcido é esquecer o Poder em uma sociedade que caminha para um desconhecido destino, melhor ou pior, não será por obra e arte do mandatário. É como se o velho dito francês, após mais uma troca de república, "plus ça change, plus c'est la même chôse.", estivesse enraizado. Mudar para quê ?
E aí me ocorre o que se passa na atual corrida eleitoral no Brasil de 2010. O candidato dito da oposição renega o governo de seu partido oito anos antes e se parece mais com a situação do que nunca. A candidata da situação é figura polêmica, imprevisível talvez, mas está pasteurizada a um ponto que tudo leva a crer que o Brasil experimentará um continuísmo maquiado. E, neste ponto, não fosse a tradicional forca do clientelismo, do voto de cabresto e dos votos para beneficiar grupelhos que se apoderam de partes do Poder Público para enriquecer, coisa totalemente normal no Brasil, me arriscaria a dizer que seria uma eleicão fértil para abstencões e votos em branco. Votar em terceiros, sem chance, é como lavar as mãos, a indiferença provoca o sentimento do "tanto faz". E prevejo um "tanto faz"real.
Há os que temem o bolivarianismo do Brasil. Fukuyama, citado lá no início talvez concorde pois sempre pensou que com exceção da Austrália, não há pecado ao Sul do Equador. Venezuela, Bolívia, Argentina, Equador e Paraguai são vizinhos. Estão mortos de saudades de Simón, na verdade para implantar um caudilhismo tipo "programa de auditório". Acerte as perguntas e ganhe um carnê da Revolução da Felicidade ! Só que os dados econômicos destes vizinhos não apontam um futuro muito glorioso e libertador não.
E o Brasil não é país que permite brincadeiras ou inconsequências mais. Seja quem for, não vai governar, vai ao sabor das ondas, ao contrário do que previu Fukuyama, forçado a mudar de ideia pelo 11 de setembro e pelo setembro de 2008, e de acordo com Saramago, tanto vai fazer como tanto vai deixar de fazer. Vai repartir o Poder para garantir mais um período de continuísmo e aquinhoar velhos abutres com seus quintais de carniça usuais.
O resto pode depender do deficit francês e da força do marco para continuar lastreando o euro, por exemplo. Diante de um cenário onde o euro desvaloriza muito, seja lá quem for, uma ex-terrorista ou um estudado político cheio de contradições e que renega o próprio partido, tanto faz, governará ao sabor da grande maré.
All the things I achieved in my life haven't been done by myself, exclusively. O owe a lot to my beloved friends. I've done a lot alone, but at the end of the day, people around made me better or worse. I can't write regularly without the help of my friends. They inspire me. I hope you all feel comfortable in this space.
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sábado, 11 de setembro de 2010
domingo, 8 de novembro de 2009
O Muro caiu, todo mundo viu, mas eu não
Fazem 20 anos da chamada "Queda do Muro de Berlim". Nestes 20 anos muita coisa foi analisada, estudada, reconstruída e elocubrada sobre o que poderia ter feito, num espaço curto de horas, aniquilar uma barreira política e ideológica que durava mais de 30 anos.
Como sempre, meu compromisso com precisão de dados, fatos e versões será pequeno. Simplesmente porque os dias compreendidos entre meados de outubro e o Natal de 1989 serão sempre inesquecíveis para mim.
Em outubro de 1989, minha ex-mulher estava grávida de nosso primeiro filho. A previsão do nascimento dava conta de algo entre 25 de outubro e 5 de novembro. No início de outubro tive de fazer uma viagem rápida a Londres. Quando cheguei lá, passado um dia ou dois, as imagens de alemães orientais lotando trens para a Hungria e de lá para o Ocidente passavam repetidamente na televisão. Um mês antes, a Polônia havia aberto a fronteira, com a vitória nas eleições do Solidariedade. Mas o êxodo de poloneses era pequeno.
Os húngaros então, deixaram a fronteira com a Áustria aberta. Poucos húngaros foram ao Tirol até porque nem passaporte tinham. Mas os alemães orientais vislumbraram um ardil. Orientais ou ocidentais, eram alemães. Hungria e Áustria eram escalas para os destinos na então Alemanha Ocidental.
Voltei ao Brasil com as imagens na cabeça. Aquilo não iria parar por ali. Num encontro de líderes do Pacto de Varsóvia, Gorbatchov ignorou solenemente Erich Honecker, da Alemanha Oriental e se esmerou em conversas com húngaros, tchecoslovacos e poloneses.
Nesse meio tempo, nasceu o Guilherme, em 31 de outubro de 1989. Internado no "Spa para pais novatos" da Clínica São Vicente, na Gávea, Rio de Janeiro, acompanhando mãe e filho que passavam otimamente bem, não desgrudava os olhos dos noticiários.
Os trens cada vez mais abarrotados. Protestos de uma Alemanha unida cada vez maiores. Líderes comunistas calados e acuados.
Quatro dias depois, a recém incrementada família voltava para casa. E eu, ao trabalho.
Primeira notícia ao chegar em casa e ligar a televisão: todo mundo em cima do muro, celebrando o fim da divisão.
Primeira notícia ao chegar no trabalho: reunião em Haia, na Holanda. Fiquei dividido. Meu filho recém nascido e minha mulher em casa, sem muitos sintomas de síndrome pós-parto. Aceitei ir, com muito medo de dar a notícia para a nova mamãe. Mas vislumbrando a possibilidade de chegar perto daquele momento histórico.
Embarquei num vôo da Varig que fazia Rio-Paris-Amsterdam. No Galeão, as imagens eram daquele povo todo alegre em cima do Muro, e de caras entre consternadas e surpresas de políticos. Em Schiphol, idem
Nem me lembro do que fiz em Haia. Aluguei um carro minúsculo e fui para a Alemanha. Minha intenção era ir a Berlin. Tolinho. Quando cheguei a Dusseldorf soube que tudo estava bloqueado. Mas o mais impressionante não foi a frustração. Foi sentir o clima. A tradicional sisudez alemã dava lugar à euforia em alguns e a um pessimismo em alto grau surpreendente em outros. Os eufóricos celebravam a possibilidade de reunificação do País. Os pessimistas tinham medo de mudanças, bruscas, num país que as teve em sequência no século XX, sempre traumatizantes.
Lembrei de meu filho pequeno e da minha ex-mulher. Vi que não viria muito mais do que já havia visto. Quem conhece a Alemanha sabe que é impossível imaginar a Alemanha desorganizada, confusa, tumultuada. Pois estava. Fiquei preocupado e voltei ao Brasil no primeiro vôo, e passei a acompanhar os fatos pela televisão mesmo ( não existia internet, muito menos twitter, é bom lembrar).
Mas aqueles dias não terminariam na Alemanha. Como castelo de cartas, uma a uma das repúblicas comunistas ruíram. A mais marcante foi a da Romênia, bem no Natal de 1989. O ditador Nicolau Ceausescu foi discursar na sacada do Palácio Presidencial e recebeu estrondosa vaia. Se retirou da sacada e sumiu. Cinco horas depois, ele e a mulher estavam presos. Julgamento transmitido pela televisão. Ceausescu e a estranha mulher humilhados e surrados em frente às câmeras. Doze horas depois, estavam sendo encaminhados a uma sala para serem...enforcados ! E foram, ao vivo e a televisão ainda mostrou os corpos com pescoço quebrado e olhos esbugalhados. Chocante.
Aqueles dias não saíram da minha memória. Fiquei obcecado por visitar aqueles países. A primeira chance veio em 1993. Aluguei um carro e dirigi sozinho de Amsterdam a Berlin, em um tiro só.
Achei que, em quatro anos, já haviam despejado dinheiro suficiente para melhorar Berlin Oriental. Errei. Continuavam sendo duas cidades. O lado oriental povoado por veículos Trabant, pessoas com expressão sofrida, roupas velhas, sujeitos estranhos, vendedores de souvenirs comunistas ( até peça de blindado russo podia ser comprada). Por questão de tempo, passei poucos dias, mas era a minha primeira ida a Berlin e foi inesquecível.
Depois voltei em 1995. Mesmo roteiro automobilístico Amsterdam-Berlin, mas, desta vez, com um amigo. A estrada em antigo território comunista estava melhor. Mas Berlin Oriental continuava quase igual. A mesma gente com semblante sofrido, roupas surradas e os imortais Trabants. O metrô tinha sido interligado, mas quando se entrava no antigo lado oriental a velocidade do trem caía à metade. As estações eram cenários de filmes tipo "O Albergue". Do lado antigo ocidental, vi profusão de mansões, gente bonita, shopping centers novos, Mercedes-Benz e BMW novos.
Arriscamos uma ida a Dresden. A cidade com história trágica: já tomada e pacificada pelos soviéticos na II Guerra foi alvo do mais violento bombardeio aliado não-atômico. Pelo simples motivo de destruir o legado artístico e cultural da cidade que abrigou uma das mais afamadas Universidades da Europa e que foi simplesmente o centro da música durante 5 séculos. Só vi prédios cinzentos em estilo mesclado Stalin-Mobutu-Niemeyer. Ou seja, o planejamento do Niemeyer, a austeridade do Stalin e o acabamento do Mobutu. Terra arrasada. Identidade alemã inexistente e dinheiro, bem, dinheiro dos ocidentais. Os orientais continuavam em estado pré-capitalista.
Fui à recém criada República Tcheca. Apesar de Praga ter renovado minhas esperanças de que o legado comunista teria um fim não muito longo, nas estradas proliferavam prostitutas e tudo o que se pode imaginar ligado à pornografia.
Voltei mais vezes, principalmente entre 1996 e 2000. Melhoras daqui e dali. Mas não adiantava, a divisão era visível. Desde 1989, a população da antiga Alemanha Oriental encolheu em dois milhões de pessoas, mesmo com investimentos pesados em cidades como Dresden e Leipzig. A crise de 2008 atingiu em cheio os países da antiga Cortina de Ferro. Uma viagem de Londres a Beograd por exemplo, é quase tão chocante quanto ir da Zona Sul do Rio de Janeiro até o Complexo do Alemão.
Hoje surgem detalhes. O muro não caiu exatamente. Um oficial do "check-point" Charlie, aliás o ponto de passagem de um lado para o outro, e não o Portal de Brandenburgo, teria interpretado uma ordem de dispersar a multidão como deixar a multidão passar para o outro lado.
E que o colapso comunista era inevitável. O deficit do sistema comunista era financiado com dinheiro de abastados capitalistas ocidentais. E o dinheiro secava e a carestia no lado comunista crescia. Os governos precisavam ou exportar gente ou importar insumos para os países não pararem. E Reagan sabia muito bem disto, por isto teria discursado no mesmo ponto simbólico do Portal de Brandemburgo em 1987, ao alcance de rifles russos, exortando os alemães a derrubarem o muro.
Seja como for, talvez tenha sido o momento simbólico ( tipo "Queda da Bastilha" e "Grito do Ipiranga") da História que vivi mais de perto.
E, apesar de tudo, da emoção da hora, da adrenalina de tentar chegar a Berlin, de comprar bugigangas de soldados russos mutilados, de viajar Eslováquia adentro vendo camponeses que talvez nunca tenham ido ao dentista, de ver soldados sérvios de 2 m de altura intimidando camponeses croatas, bósnios, albaneses e outros, enfim, de ir à Europa e ver miséria e drama, hoje posso contar que vi o episódio.
Mas não vi ainda a História mudar.
Como sempre, meu compromisso com precisão de dados, fatos e versões será pequeno. Simplesmente porque os dias compreendidos entre meados de outubro e o Natal de 1989 serão sempre inesquecíveis para mim.
Em outubro de 1989, minha ex-mulher estava grávida de nosso primeiro filho. A previsão do nascimento dava conta de algo entre 25 de outubro e 5 de novembro. No início de outubro tive de fazer uma viagem rápida a Londres. Quando cheguei lá, passado um dia ou dois, as imagens de alemães orientais lotando trens para a Hungria e de lá para o Ocidente passavam repetidamente na televisão. Um mês antes, a Polônia havia aberto a fronteira, com a vitória nas eleições do Solidariedade. Mas o êxodo de poloneses era pequeno.
Os húngaros então, deixaram a fronteira com a Áustria aberta. Poucos húngaros foram ao Tirol até porque nem passaporte tinham. Mas os alemães orientais vislumbraram um ardil. Orientais ou ocidentais, eram alemães. Hungria e Áustria eram escalas para os destinos na então Alemanha Ocidental.
Voltei ao Brasil com as imagens na cabeça. Aquilo não iria parar por ali. Num encontro de líderes do Pacto de Varsóvia, Gorbatchov ignorou solenemente Erich Honecker, da Alemanha Oriental e se esmerou em conversas com húngaros, tchecoslovacos e poloneses.
Nesse meio tempo, nasceu o Guilherme, em 31 de outubro de 1989. Internado no "Spa para pais novatos" da Clínica São Vicente, na Gávea, Rio de Janeiro, acompanhando mãe e filho que passavam otimamente bem, não desgrudava os olhos dos noticiários.
Os trens cada vez mais abarrotados. Protestos de uma Alemanha unida cada vez maiores. Líderes comunistas calados e acuados.
Quatro dias depois, a recém incrementada família voltava para casa. E eu, ao trabalho.
Primeira notícia ao chegar em casa e ligar a televisão: todo mundo em cima do muro, celebrando o fim da divisão.
Primeira notícia ao chegar no trabalho: reunião em Haia, na Holanda. Fiquei dividido. Meu filho recém nascido e minha mulher em casa, sem muitos sintomas de síndrome pós-parto. Aceitei ir, com muito medo de dar a notícia para a nova mamãe. Mas vislumbrando a possibilidade de chegar perto daquele momento histórico.
Embarquei num vôo da Varig que fazia Rio-Paris-Amsterdam. No Galeão, as imagens eram daquele povo todo alegre em cima do Muro, e de caras entre consternadas e surpresas de políticos. Em Schiphol, idem
Nem me lembro do que fiz em Haia. Aluguei um carro minúsculo e fui para a Alemanha. Minha intenção era ir a Berlin. Tolinho. Quando cheguei a Dusseldorf soube que tudo estava bloqueado. Mas o mais impressionante não foi a frustração. Foi sentir o clima. A tradicional sisudez alemã dava lugar à euforia em alguns e a um pessimismo em alto grau surpreendente em outros. Os eufóricos celebravam a possibilidade de reunificação do País. Os pessimistas tinham medo de mudanças, bruscas, num país que as teve em sequência no século XX, sempre traumatizantes.
Lembrei de meu filho pequeno e da minha ex-mulher. Vi que não viria muito mais do que já havia visto. Quem conhece a Alemanha sabe que é impossível imaginar a Alemanha desorganizada, confusa, tumultuada. Pois estava. Fiquei preocupado e voltei ao Brasil no primeiro vôo, e passei a acompanhar os fatos pela televisão mesmo ( não existia internet, muito menos twitter, é bom lembrar).
Mas aqueles dias não terminariam na Alemanha. Como castelo de cartas, uma a uma das repúblicas comunistas ruíram. A mais marcante foi a da Romênia, bem no Natal de 1989. O ditador Nicolau Ceausescu foi discursar na sacada do Palácio Presidencial e recebeu estrondosa vaia. Se retirou da sacada e sumiu. Cinco horas depois, ele e a mulher estavam presos. Julgamento transmitido pela televisão. Ceausescu e a estranha mulher humilhados e surrados em frente às câmeras. Doze horas depois, estavam sendo encaminhados a uma sala para serem...enforcados ! E foram, ao vivo e a televisão ainda mostrou os corpos com pescoço quebrado e olhos esbugalhados. Chocante.
Aqueles dias não saíram da minha memória. Fiquei obcecado por visitar aqueles países. A primeira chance veio em 1993. Aluguei um carro e dirigi sozinho de Amsterdam a Berlin, em um tiro só.
Achei que, em quatro anos, já haviam despejado dinheiro suficiente para melhorar Berlin Oriental. Errei. Continuavam sendo duas cidades. O lado oriental povoado por veículos Trabant, pessoas com expressão sofrida, roupas velhas, sujeitos estranhos, vendedores de souvenirs comunistas ( até peça de blindado russo podia ser comprada). Por questão de tempo, passei poucos dias, mas era a minha primeira ida a Berlin e foi inesquecível.
Depois voltei em 1995. Mesmo roteiro automobilístico Amsterdam-Berlin, mas, desta vez, com um amigo. A estrada em antigo território comunista estava melhor. Mas Berlin Oriental continuava quase igual. A mesma gente com semblante sofrido, roupas surradas e os imortais Trabants. O metrô tinha sido interligado, mas quando se entrava no antigo lado oriental a velocidade do trem caía à metade. As estações eram cenários de filmes tipo "O Albergue". Do lado antigo ocidental, vi profusão de mansões, gente bonita, shopping centers novos, Mercedes-Benz e BMW novos.
Arriscamos uma ida a Dresden. A cidade com história trágica: já tomada e pacificada pelos soviéticos na II Guerra foi alvo do mais violento bombardeio aliado não-atômico. Pelo simples motivo de destruir o legado artístico e cultural da cidade que abrigou uma das mais afamadas Universidades da Europa e que foi simplesmente o centro da música durante 5 séculos. Só vi prédios cinzentos em estilo mesclado Stalin-Mobutu-Niemeyer. Ou seja, o planejamento do Niemeyer, a austeridade do Stalin e o acabamento do Mobutu. Terra arrasada. Identidade alemã inexistente e dinheiro, bem, dinheiro dos ocidentais. Os orientais continuavam em estado pré-capitalista.
Fui à recém criada República Tcheca. Apesar de Praga ter renovado minhas esperanças de que o legado comunista teria um fim não muito longo, nas estradas proliferavam prostitutas e tudo o que se pode imaginar ligado à pornografia.
Voltei mais vezes, principalmente entre 1996 e 2000. Melhoras daqui e dali. Mas não adiantava, a divisão era visível. Desde 1989, a população da antiga Alemanha Oriental encolheu em dois milhões de pessoas, mesmo com investimentos pesados em cidades como Dresden e Leipzig. A crise de 2008 atingiu em cheio os países da antiga Cortina de Ferro. Uma viagem de Londres a Beograd por exemplo, é quase tão chocante quanto ir da Zona Sul do Rio de Janeiro até o Complexo do Alemão.
Hoje surgem detalhes. O muro não caiu exatamente. Um oficial do "check-point" Charlie, aliás o ponto de passagem de um lado para o outro, e não o Portal de Brandenburgo, teria interpretado uma ordem de dispersar a multidão como deixar a multidão passar para o outro lado.
E que o colapso comunista era inevitável. O deficit do sistema comunista era financiado com dinheiro de abastados capitalistas ocidentais. E o dinheiro secava e a carestia no lado comunista crescia. Os governos precisavam ou exportar gente ou importar insumos para os países não pararem. E Reagan sabia muito bem disto, por isto teria discursado no mesmo ponto simbólico do Portal de Brandemburgo em 1987, ao alcance de rifles russos, exortando os alemães a derrubarem o muro.
Seja como for, talvez tenha sido o momento simbólico ( tipo "Queda da Bastilha" e "Grito do Ipiranga") da História que vivi mais de perto.
E, apesar de tudo, da emoção da hora, da adrenalina de tentar chegar a Berlin, de comprar bugigangas de soldados russos mutilados, de viajar Eslováquia adentro vendo camponeses que talvez nunca tenham ido ao dentista, de ver soldados sérvios de 2 m de altura intimidando camponeses croatas, bósnios, albaneses e outros, enfim, de ir à Europa e ver miséria e drama, hoje posso contar que vi o episódio.
Mas não vi ainda a História mudar.
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quinta-feira, 16 de julho de 2009
2009, 40 anos de lua, 20 anos de muro, 80 anos de quebra da bolsa.
Este ano está repleto de memórias. Hoje, comemoram-se 40 anos que o homem norte-americano pisou em solo lunar. Ainda tem a lembrança dos 40 anos do milésimo gol do Pelé.
E, para alegria de muitos e tristeza de alguns, os 20 anos da queda do muro de Berlim. Vinte anos...e não é que ouvi de uma amiga da minha idade que a queda do muro de Berlim foi um show do Pink Floyd ? Memória curta essa da minha geração...
De todas as recordações de anos com final 9, há uma estranha coincidência: os 80 anos do "crash" da Bolsa de Nova Iorque e os 20 anos do "crash" do comunismo são comemorados este ano, e de dez em dez anos, se encontram novamente para soprar velinhas do bolo juntos. Sim, o Muro de Berlim não foi, de per si, o fim do comunismo, mas foi o episódio mais marcante. Tivemos outros, claro, como a execução sumária e transmitida pela TV do líder comunista romeno Ceausescu, e a troca de bandeiras no Kremlin, numa noite fria de Moscou: saiu a vermelhinha e entrou a tricolor, rápido como um golpe de estado hondurenho.
Pois não é sensacional ? No mesmo ano podemos comemorar a falência do sistema capitalista, representado por um pânico em Wall Street e suicídios em massa, e a derrocada da artificialidade comunista, simbolizada no muro derrubado.
Isto é extremamente conveniente para os que não conseguiram se entender até agora. São capitalistas, mas defendem a intervenção do Estado. São ricos, mas financiam proletários e camponeses em investidas guerrilheiras. Estão no Poder, mas acumulam bens de forma distinta da população. Ou estão fora dele ( do Poder), mas almejam tomá-lo com motivações muito menos nobres que as ideológicas.
Isso sem contar os um bilhão e duzentos milhões de chineses que continuam sob a tutela de um Partido Comunista, mas vivem no mais pujante e pouco justo capitalismo do planeta.
Não é muito interessante esta coincidência ? E se somarmos que estamos no ano em que os governos socializam ícones do capitalismo, tipo GM ?
Enfim, 2009 é um ano para comemorarmos qualquer coisa. Sem preocupação com a coerência. Sem se preocupar com compromissos firmados em rodas de grêmios estudantis ? Sem se preocupar em discordar de um texto de própria autoria que a velocidade astronáutica da Economia se encarregou de deixar anacrônico, ou porque não admitir, errado ? Sem se preocupar de ter lido o Pasquim e ter concordado com tudo e hoje ler Fukuyama sem sentir repugnância ? Ou, sem se arrepender de um dia ter pego em armas para promover uma guerrilha e hoje se sentar no Poder e empregar suas energias todas em se manter, fazendo alianças exatamente com aqueles que poderiam ter passado pela mira das suas armas no passado ? Ou ainda, ter sido um entusiasta das idéias neo-liberais de Thatcher e Reagan e hoje entender que o mercado precisa de uma "certa dose de regulação" ?
Tudo isso sem culpa, sem compromisso, pois há saída para qualquer posicionamento ?
Não é um ano mesmo especial ?
Passo a imaginar Neil Armstrong e "Buzz" Aldrin lá na lua, olhando a Terra no horizonte, como uma esfera única e no seu íntimo sabendo que estavam lá pelo desenrolar de uma Guerra Fria, resultado de uma divisão ideológica do mundo e a corrida armamentista e de tecnologia. A esfera era única na visão, dividida em suas mentes.
Se eu hoje estivesse na lua e olhasse a Terra de longe, certamente enxergaria diferente.
Afinal, Chávez, Fidel, o norte-coreano esquisitão, Lula, Mugabe, Ahmedjinejad, os milicos de Mianmar, a foice, o martelo e o touro de Wall Street não seriam visíveis a olho nu.
E não conseguiria distinguir mais divisões na esfera azul. Nem as saudáveis.
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