Em 28 de junho deste ano, escrevi aqui mesmo sobre a mudança abrupta no comando do Executivo de Honduras.
Me surpreendi ao reler o que tinha sido escrito. Na minha opinião àquela época, o assunto era merecedor de muito pouco interesse da opinião pública, mas eu, de alguma forma, havia me interessado. Na época li sobre a História de Honduras e cheguei a analisar dados da sua economia, de sua balança de pagamentos e de sua balança comercial. Concluí que um país tão pequeno, cuja população tem 45 % de jovens menores e 15 anos, e tão dependente dos Estados Unidos economicamente não poderia ter sido o cenário de um "golpe de estado" tão limpo quanto foi o afastamento de Manuel Zelaya do poder. Senão, relembremos: o tal Zelaya, à margem da Suprema Corte e do Legislativo, resolveu sustentar um plebiscito sobre a extensão do mandato presidencial, fato que não foi bem aceito nem pala Suprema Corte e pelo Legislativo, o que parece bastante óbvio, mas recebeu também a oposição das Forças Armadas. Pois bem, com o impasse criado e com o Presidente Zelaya descumprindo visivelmente o rito constitucional do País, um grupo se articulou e, em vez de mandar o Zelaya desta para melhor, como costuma acontecer na América latina, resolveu exportá-lo compulsoriamente para a Costa Rica. Sem uma gota de sangue derramado sequer.
Algum tempo depois, atendendo a apelos de Hugo Chávez e da condenação que o "golpe" recebeu da OEA é que começaram os distúrbios em Honduras. Zelaya foi recebido em alguns países. Inclusive no Brasil.
E então a história começou a despertar interesse por aqui.
Mas eu jamais poderia imaginar, em 28 de junho, que o Brasil se envolveria de forma tão intensiva, controversa e central em um imbroglio em um país pequeno e distante, que deveria despertar interesse menor ou pequeno na geopolítica racional de um governo brasileiro. Nem em meus piores pesadelos imaginaria que o que escrevi até com ironia tinha o profético tom de causar o embate ideológico que se sucedeu e culminar com a estapafúrdia situação atual. Senão, mais uma vez, relembremos: Zelaya, já na Costa Rica, recebeu primeiro o apoio incondicional do alucinado Hugo Chávez, e depois dos líderes adeptos da "democracia direta", o inca equatoriano e o bugre boliviano. Uma adesão pouco prudente e estranha, a da presidente do Chile, Michele Bachelet, depois veio o anúncio da OEA condenando o golpe, aí sim entrou em cena o Brasil. O retrado da entrada do Brasil no clamor internacional pode ter sido só resultado do caráter semanal do badaladíssimo programa de rádio "Café com o Presidente". Mas o tom do Brasil foi duro. Depois vieram os países do Primeiro Mundo, mais exatamente França e Estados Unidos, com manifestacões tímidas.
Bom, lamento profundamente dizer que todas estas manifestações estavam inundadas de salvas à democracia, mas vazias em conhecimentos básicos sobre o caso hondurenho. Primeiro, Zelaya é um populista, adepto da ideologia da democracia anti-democrática em voga no hemisfério, e pesavam sobre ele denúncias de corrupção e perepetuação no cargo. Em segundo, porque o bigode e o chapéu dele formam um figurino que é impossível associar a alguém normal. Em terceiro, porque manobrava para driblar a Constituição. Em quarto, porque ele se isolou dos dois outros poderes tradicionais da República, o Judiciário e o Legislativo. Em quinto, porque ameaçou as instituições todas com a elite da Polícia. E em sexto, porque a Constituição hondurenha, por mais esquisita que seja, prevê a remoção do Chefe do Executivo em caso de descumprimento de duas decisões da Suprema Corte, como Manoel Zelaya se achou capaz de fazer. Então, cabe a pergunta: foi golpe ?
Mas vá lá, o rito hondurenho é sumário demais. Para comparar, Collor teria perdido o timão do navio em duas semanas, se fosse hondurenho e, por aqui, só foi posto no bote salva-vidas uns meses mais tarde. E ninguém achou anti-democrático.
A ignorância então pareceu dar lugar ao casuísmo ideológico lulo-bolivariano. Afinal, Zelaya joga no time de Lula, de Chávez, de Morales, de Kirchner, do Ortega, do Correa. E ganhou visitas com status de chefe de Estado em todos este países, inclusive em Brasília.
Tentou voltar à Honduras uma vez. Ficou no Posto de Fronteria.
E tentou uma segunda, aparecendo na embaixada...do Brasil !!!
Agora que a coisa está esquentando é que resolveram analisar o caso com mais calma. Mas agora é tarde. E o mais triste de tudo: o Brasil ocupa posição central e dúbia na questão. Afinal, o sujeito é hóspede da embaixada brasileira em Tegucigalpa.
Alega-se que Zelaya está asilado na Embaixada. Mas quem é idiota de acreditar nisto ? Asilo é matéria difusa no Direito Constitucional e no Direito Internacional. O cidadão que pede asilo em uma representação diplomática estrangeira, o faz porque não reconhece que suas garantias pessoais estão sendo respeitadas pela autoridade de seu país e nascimento. Mas cada caso é um caso. Um "serial-killer", um traficante ou um pedófilo, pode se sentir assim e pedir asilo, o que não quer dizer absolutamente que esteja certo. O Cesare Battisti, por exemplo: era militante do falido PCB italiano, e em sua ideologia cabia a praxis de atentados que subtraíam vidas de pessoas que nada ou pouco tinham a ver com o diálogo político. Ele merece a condição de refugiado político no Brasil ? Certamente não. Seja lá o que for decidido no Supremo, ele sabe, eu sei, o Tarso Genro sabe, e a Itália toda sabe que o sujeito matou gente.
Mas voltando ao Zelaya, asilado do quê ? De ter tentado entrar num país que, apesar de exótico, o inclui na pauta de exportações com pleno respaldo constitucional e com rara convergência de interesses, de tão fulminante que foi ? Mais uma vez, eu sei, o Lula sabe, o Zelaya sabe e todo mundo sabe que a forma certa era obter o respaldo da comunidade internacional. E ele estava conseguindo !!!
Voltar ao país parece pouco oportuno e, sobretudo, pouco patriótico, pois o confronto seria certo. Era óbvio que sua volta mergulharia Honduras numa confusão só. E o Brasil, salvo maiores explicações, parece ter patrocinado o tumulto !!! Sinceramente, eu sei, o guarda da Embaixada brasileira sabe e o Amorim sabe que o sujeito não apareceu disfarçado, às duas da manhã, tocando a campainha da Embaixada e avisou pelo interfone:
- Hola, que tal ? Acá es Zelaya ? Tienes abrigo ?
E a porta se abriu e ele entrou.
E agora a batata assa à hondurenha. E está claro que o Brasil sozinho não resolve.
Ou seja, o asilo do Zelaya é questão de zelo. Ou de falta dele.
All the things I achieved in my life haven't been done by myself, exclusively. O owe a lot to my beloved friends. I've done a lot alone, but at the end of the day, people around made me better or worse. I can't write regularly without the help of my friends. They inspire me. I hope you all feel comfortable in this space.
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quarta-feira, 23 de setembro de 2009
terça-feira, 11 de agosto de 2009
Ribeiro/Lula
O filme Frost/Nixon, baseado na peça homônima, reconstrói o que teria sido a história antes, durante e depois da fulminante entrevista que o jornalista britânico David Frost fez com o único Presidente da história dos Estados Unidos que renunciou, Richard Nixon. Era um encontro improvável.
Apesar de ter renunciado, Nixon ganhou o perdão do seu sucessor Gerald Ford e iniciava um esforço de reconstrução de sua imagem, com a intenção de voltar à ativa na política norte-americana. Além disso, muitos tinham medo de Nixon, pois seu discurso era firme, era um político sagaz, experiente, que tinha enfrentado debates extenuantes com JFK, Brezhnev, Mao-Tse-Tung, de Gaulle, entre outros.
Já Frost era um bom entrevistador mas também era um reconhecido festeiro e humorista, além de não ser americano. Frost pagou 600 mil dólares a Nixon pela entrevista.
O prognóstico era de que Nixon engoliria Frost. O que de fato aconteceu em 75% do tempo. Nixon não só conseguia fazer um marketing pessoal positivo, principalmente em cima das decisões tomadas sobre o Vietnam e a aproximação com a China, como Frost estava visivelmente sem condições de conduzir a entrevista.
Até que Frost percebe que aquilo é mais que uma entrevista. É um embate e ele está prestes a perder e ainda por cima tendo pago para Nixon voltar à cena política. Numa sequência fulminante de afirmativas e perguntas arrancou de Nixon a famosa frase "o que um Presidente decide não pode ser considerado ilegal" e a expressão atemorizada e deprimida do ex-Presidente num close, enquanto repetia fatos e dados sobre subornos e conspirações para intimidar os adversários após o episódio de Watergate.
Então, pode ser inferido que, de acordo com as características do entrevistado, talvez o entrevistador mais inusitado seja aquele que consiga extrair o que o público quer ver: verdades, histórias esclarecidas, semblantes de tristeza por ter sido flagrado faltando com a verdade, ou mesmo de alegria se comprovado algo a favor do entrevistado que o redimiu de um julgamento anterior.
Aqui no Brasil, as pessoas públicas não estão nunca dispostas a este tipo de exposição de entranhas. Alguém imagina Collor falando sobre o "impeachment" ? E, neste momento, sem a proteção do parlatório, Sarney falaria com algum jornalista ? E Renan Calheiros ? E FHC ? E Marcos Valério ?
Então fiz a seguinte inferência: se um entrevistador mal informado e que nem jornalista de profissão é pudesse falar com Sarney ou com José Dirceu, por exemplo, numa sessão de entrevistas com regras claras, o que aconteceria ? Para falar a verdade, não tenho a mais vaga ideia, mas aqui vão algumas sugestões:
Acelino "Popó" Freitas / Collor - Sem dúvida, um programa imperdível. Além de não entender algumas explicações do entrevistado, Popó iria perguntar a toda hora se o alagoano conhece a fundo a realidade de ser camponês no Nordeste. E, caso Collor lançasse aquele seu olhar de fronteiriço-violento, Popó não titubearia e daria-lhe logo um "upper" de direita. Na tomada seguinte, Collor estaria lá, com um curativo no queixo, respondendo às perguntas de Popó. Conteúdo talvez fosse o menos importante nesta entrevista.
Mainardi/FHC - O sujeito que escreveu um livro chamado "Lula é minha Anta" deve ser pró-FHC, certo ? Não. Diogo Mainardi enfrentaria FHC com uma retórica que seria simplesmente um deleite para os que gostam de citar outros autores e mostrar ostensivamente sua erudição e intelectualidade. FHC, grande sociólogo e estadista, doutor "honoris causa" de umas trezentas universidades mundo afora e Mainardi, que leu Wittgenstein aos 12 anos e Kant no original aos 17, fariam um duelo socrático. Com uma diferença: FHC não consegue ser ferino para ser levado a sério e Mainardi só consegue ser levado a sério quando é ferino.
Gonçalves/Rousseff - Imaginem...Dercy e Dilma ? Das duas uma, ou Dilma escancarava um sorriso e uma risada sincera em público, pela primeira vez na vida, ou Dercy começaria uma série de observações sobre sua vida sexual. Infelizmente, esta é uma entrevista impossível. Mas, no lugar da Dilma, eu consideraria seriamente a possibilidade, afinal ela precisa mostrar uma imagem mais descontraída. Riscos ? Bem, Nixon correu riscos também.
Luxemburgo/Sarney - Seria a maior guerra de egos possível no Brasil. O problema seria a entrevista descambar apara assuntos do tipo "a tinta que uso para tingir o cabelo pode melhorar o visual do seu bigode, o senhor já pensou nisto ?" Ou então, "minha manicure é ótima, mas estou procurando outra. O Senhor indica alguma em Brasília?". Sem dúvida, haveria um diálogo imperdível sobre alfaiates e figurinos de paletós.
Ribeiro/Lula - Não consigo imaginar ninguém melhor para um bate-papo com o Lula do que o Agildo Ribeiro. Alem do humor escrachado, Agildo reagiria de imediato com alguma careta ao primeiro plural errado do entrevistado. Lula tentaria ser engraçado, porque é de seu feitio, mas Agildo o botaria de joelhos com algumas imitações. Lula tentaria o contragolpe rindo e Agildo o fulminaria com uma piada mais elaborada. Lula se escora na sua popularidade e só se sentiria de fato "impopular" se alguém o expusesse no mais popular escracho.
Outras hipóteses interessantes seriam Dicró/José Dirceu, Galvão Bueno/Arthur Virgílio (os dois falando ao mesmo tempo o tempo todo), Pe. Marcelo Rossi/Senador Crivella, João Saldanha/Paulinho da Força Sindical ( grandes chances de terminar em briga) ou um programa internacional, Garotinho/Hugo Chávez (que poderia ser chatérrimo ou hilário, a risco do patrocinador).
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domingo, 2 de agosto de 2009
Eu não sou a Regina Duarte !
Mas estou com medo.
Eu não sou, nem quero ser comparado à Regina Duarte. Na campanha das eleições de 2002, no horário reservado ao PSDB, ela disse que tinha medo do Lula. "Lula", no caso, me pareceu ser um pouco mais que o candidato. Ter medo do Lula deve ser coisa de quem tem mania de perseguição. Sozinho, Lula não mete medo em ninguém. Ele não sabe falar, mal sabe ler e deve escrever bisonhamente. Não deixará legado duradouro.
Por isso, não quero ser comparado à Regina Duarte.
Também não concordo com o partidarismo do "medo". Como não tenho medo do Lula, também não tenho medo do Serra, do Sarney, do Renan, do Garotinho, do Cabral, do FHC, do Stalin, do Hitler, do Saddam ou do Hugo Chávez, individualmente.
O que me dá medo é o aparelhamento do Estado com os quais todos estes, e mais umas várias dúzias que eu poderia citar, compactuaram. Sim, porque sozinhos nada teriam feito. O raciocínio pode ser explicitado por um fato histórico, notório e claro. O que seria de Hitler sem Goebbels e mais uma meia dúzia ?
Tenho amigos e conhecidos que vão de um extremo ao outro do espectro político. Conheço bem suas convicções e superficialmente as teorias que suportam estas convicções. Também não tenho medo da esquerda, da direita, do meio...
Por isso, por favor, não quero ser comparado à Regina Duarte.
Mas os fatos parecem querer me convencer de que devo ter medo.
Eu nunca vi tanto esforço conjunto para desmoronar as instituições como agora.
É coisa demais acontecendo ao mesmo tempo: crise no Senado, sem-vergonhice do Berlusconi, descrédito total do poder público estadual e municipal, cara-de-pau reincidente e grave do Lula, que ora defende ora se afasta das crises, Justiça com vísceras podres expostas, Polícia Federal fazendo investigação e divulgando aqui e acolá sabe-se lá porque, Igreja e igrejas completamente desnorteadas e temporais demais para quem almeja algo espiritual e, para acabar com toda a minha crença de que restou alguma coisa na qual eu possa repousar meus olhos e fazer uma leitura sem ter que abrir um caleidoscópio de inferências e ilações, escarafunchando entrelinhas e cruzando notícias aparentemente desconexas para formar uma idéia, a imprensa soçobrou. E feio. Não sobrou nada.
Não vou justificar meu ponto de vista com retrospectivas longas ou considerações profundas porque nem jornalista sou. Não acredito no PIG, nem no que venha a ser a sua oposição. Não tenho mais o menor respeito pelo Paulo Henrique Amorim, como também não tenho pela Míriam Leitão, que fique claro. Leio tudo o que posso e sou acometido de espanto, somente.
O fato recente, que mereceria repúdio coletivo da imprensa, fosse dos jornalões ditos membros do PIG, fosse das publicacões alinhadas com os partidos da "base aliada", é um desembargador conceder uma liminar para que um jornal pare de publicar gravações de investigações da Polícia Federal sobre um pessoal do Maranhão.
Isso não é de dar medo ?
Pouco importa como o jornal está obtendo as transcrições das gravações. Se for de forma ilícita, que se apure o ilícito. Pouco importa que o jornal esteja dando destaque às mesmas. Qualquer veículo de informação pode dar destaque à atuação do zagueiro do Arranca-Toco F.C., bem como ao último evento na Indonésia que vitimou umas três centenas de pessoas, pois a linha editorial do mesmo é, e deve ser sempre, independente. Leia-o e compre-o quem quiser.
Pouco importa também que seja o jornaleco do bairro ou o grande jornal de circulação paulistano-nacional.
É simples para mim. No estado de direito com garantias mínimas, qualquer um pode divulgar a notícia que bem entender, e que arque com as consequências de suas publicações. Mas não se deve impedir ninguém de divulgar nada. Das duas, uma: ou é verdade ou é calúnia. A ser apurado, após ter sido publicado ou dito, porque antes, para mim, é censura.
Mas vá lá que o tal jornal tenha extrapolado e mereça que a espada e a cegueira da Lei intercedam. Sabe o que me deixou com medo mesmo ? Foi ler muito pouco, ou nada, em outros grandes, ou pequenos jornais, sobre a tal liminar.
Se o resto da imprensa tolera, ou não combata, que um jornal, concorrente por sinal, seja impedido por liminar de publicar alguma coisa, trata-se de uma situação que pode ter diversas interpretacões, e Deus-me-livre-guarde de imaginá-las, porque já estou com muito medo.
Coincidentemente, o governo de Chávez, o da Venezuela, no mesmo dia do expediente do desembargador, fechou algumas dezenas de emissoras de rádio "não-bolivarianas".
Por favor, não quero ser comparado à Regina Duarte. Mas estou com medo.
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