domingo, 27 de setembro de 2009

A primavera nos ensina. Aproveite !

Começou a primavera. Depois de uma friaca que há muito não se via no Rio de Janeiro, e por isso acho que carioca não acredita em efeito-estufa, há esperanças de tempos melhores. Este primeiro fim-de-semana que está acabando hoje foi um belo presentinho de São Pedro. Mas, estive pensando como esta estação promete e segue umas dicas, muito pessoais, de como aproveitá-la.
Pode ser que se o Rio for escolhido como sede olímpica de 2016,  o que será conhecido no próximo dia 3 de outubro, a primavera seja naturalmente muito festiva. De cara, a Prefeitura e o Estado já declararam ponto facultativo e programam muita festa no dia.
Como não costumo contar com ovo que ainda não saiu da galinha, ignorarei solenemente o dia 3 e o que poderá se suceder a partir dele, seja alegria ou tristeza. Então vamos ao que acho que merece ser feito antes do calorão do verão, das festas de fim de ano, e de 2010, que como se sabe, não terá primavera, pois coincidirá com o período de eleições.

Esportes Náuticos - Vou tomar a liberdade de incluir o surfe. A estacão promete períodos de mar grande, para felicidade dos surfistas. Deve rolar uns dias bons para tow-in, como foi hoje e como foi ontem. Também devemos ter períodos de terral. Os points tradicionais, tipo meio-da-Barra, Macumba e Prainha são as dicas. Para kite surf, é a estação de ventos variáveis, mas vai ser possível empinar a pipa quase todo dia, com um pouquinho de paciência, depois de 14:00. Para a Vela, calendário cheio: Regata do Ciaga e da Escola Naval, chegada da Santos-Rio e circuito Rio. Da metade de novembro em diante, começam as regatas festivas e de fim de ano. Para quem só curte passeio, vai a dica: observe a Baía da Guanabara e se pergunte: porque não despoluem logo isso aqui ?
Para os da Pesca, na primavera começa a alternância de correntes de águas quentes e frias e aumenta a variedade de espécies de peixes. Para quem gosta de barco a motor, passeios às Cagarras e Tijucas. Atenção às ondulações, principalmente embarcações pequenas e jetskis. Começa a ficar bom para planejar esticadas a Angra.

Happy-hour na Orla - Bom demais, seja no quiosque de sua preferência ou na varanda de um clube. Bate-papo com amigos na varanda do Iate Clube ou do Marimbás ou, atravessando a ponte, no Sailing e no Jurujuba, ou na Marina da Glória, pertinho do Centro, são meus locais preferidos, com os barquinhos dando o tom de bucolismo e tranquilidade.

Paineiras e Vista Chinesa - Estação ideal para caminhadas ou pedaladas nas Paineiras e subir a Vista Chinesa. Lá em cima fica mais fresco - no bom sentido, claro - e tem as duchas e as cachoeiras. E o visual sem igual.

Mulheres de Chico - As componentes se auto-intitulam como um "bloco". Para mim, é mais que isso. Trata-se de um conjunto bem afinado centrado nos arranjos de percussão, só de (belas) mulheres, com repertório selecionado do Chico Buarque. O alto astral é certo, e para os ouvidos mais apurados vale a pena ver o que as moças fizeram com músicas como "Tanto Mar", "Roda Viva" e "Construção". A agenda delas é cheia. Consulte o site www.mulheresdechico.com.br.

Tocar um instrumento - Nunca é tarde para aprender a tocar um instrumento. E, se for de percussão, consulte a programação de cursos e clínicas da Maracatu. O espaço fica em Laranjeiras, na rua Ypiranga. Veja o site www.maracatubrasil.com.br. Você poderá até pensar em ser ritmista no próximo Carnaval.

E se chover ? - E não se iludam, porque teremos fins de semana de chuva. Se a opção for ficar em casa, a dica é se associar à Super Video. A locadora tem duas lojas na Zona Sul do Rio de Janeiro: uma em Ipanema e outra no Humaitá, garantindo cobertura de leva-e traz do Flamengo à Gávea. Tem de tudo: lançamentos, filmes-pipoca, filmes-cabeça, filmes de autor, raridades, blu-ray e ainda "aluga" curtas nacionais gratuitamente. Informações no site www.supervideobrasil.com.br.
Outra opção é reunir amigos, fazer uma vaquinha e comprar um monte de coisas para comer no Talho Capixaba, no Leblon, ou em algumas lojas dos supermercados Zona Sul , como a da Dias Ferreira, a da Praça General Osório, a do Leme e a do Parque das Rosas.

Calçadão e ciclovias - Dia 19 de outubro começa o horário de verão. Aproveite a malha de ciclovias, do Santos Dumont ao Pontal, incluindo Lagoa e algumas ruas de Copacabana e Botafogo, e saia no horário do trabalho e dê uma pedalada. Se o negócio for andar, ande, e se for correr, corra. Além de saudável ( aliás, os cariocas não valorizam o fato de terem em sua orla o ar menos poluído de qualquer cidade com mais de 5 milhões de habitantes do mundo !), dá para ver e ser visto. Mas respeite as regras porque ultimamente as ciclovias estão virando terra de ninguém, de tanto abuso.

Off-Rio - Búzios e Angra valem se o cidadão estiver disposto a sair em horários esquisitos ou tolerar engarrafamentos. A Serra é a melhor pedida, antes que tudo fique tomado e reservado pelas férias de verão. Se você tem um carro bom de tranco, vá a Visconde de Mauá e ao Parque da Bocaina. Em Mauá não deixe de visitar o Alcantilado e na Bocaina, o Vale dos Veados. Se seu caso é ficar um pouco menos escondido e com acesso mais fácil, Itaipava e o trio Mury/Lumiar/São Pedro da Serra são as dicas. Em Itaipava, se esbalde nos restaurantes. Em Mury, idem. Em Lumiar e São Pedro se informe sobre as cachoeiras e os roteiros de aventura. Uma dica para os mais animadinhos é o Parque Estadual de Ibitipoca, perto de Juiz de Fora, com sua paisagem única e trilhas dentro, eu disse, dentro mesmo, de riozinhos do parque.

E aproveite a Primavera. Que como disse o Beto Guedes, "abre a janela do meu peito, porque a lição sabemos de cor, só nos resta aprender"...

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

Zelaya e a falta de zelo

Em 28 de junho deste ano, escrevi aqui mesmo sobre a mudança abrupta no comando do Executivo de Honduras.
Me surpreendi ao reler o que tinha sido escrito. Na minha opinião àquela época, o assunto era merecedor de muito pouco interesse da opinião pública, mas eu, de alguma forma, havia me interessado. Na época li sobre a História de Honduras e cheguei a analisar dados da sua economia, de sua balança de pagamentos e de sua balança comercial. Concluí que um país tão pequeno, cuja população tem 45 % de jovens menores e 15 anos, e tão dependente dos Estados Unidos economicamente não poderia ter sido o cenário de um "golpe de estado" tão limpo quanto foi o afastamento de Manuel Zelaya do poder. Senão, relembremos: o tal Zelaya, à margem da Suprema Corte e do Legislativo, resolveu sustentar um plebiscito sobre a extensão do mandato presidencial, fato que não foi bem aceito nem pala Suprema Corte e pelo Legislativo, o que parece bastante óbvio, mas recebeu também a oposição das Forças Armadas. Pois bem, com o impasse criado e com o Presidente Zelaya descumprindo visivelmente o rito constitucional do País, um grupo se articulou e, em vez de mandar o Zelaya desta para melhor, como costuma acontecer na América latina, resolveu exportá-lo compulsoriamente para a Costa Rica. Sem uma gota de sangue derramado sequer.
Algum tempo depois, atendendo a apelos de Hugo Chávez e da condenação que o "golpe" recebeu da OEA é que começaram os distúrbios em Honduras. Zelaya foi recebido em alguns países. Inclusive no Brasil.
E então a história começou a despertar interesse por aqui.
Mas eu jamais poderia imaginar, em 28 de junho, que o Brasil se envolveria de forma tão intensiva, controversa e central em um imbroglio em um país pequeno e distante, que deveria despertar interesse menor ou pequeno na geopolítica racional de um governo brasileiro. Nem em meus piores pesadelos imaginaria que o que escrevi até com ironia tinha o profético tom de causar o embate ideológico que se sucedeu e culminar com a estapafúrdia situação atual. Senão, mais uma vez, relembremos: Zelaya, já na Costa Rica, recebeu primeiro o apoio incondicional do alucinado Hugo Chávez, e depois dos líderes adeptos da "democracia direta", o inca equatoriano e o bugre boliviano. Uma adesão pouco prudente e estranha, a da presidente do Chile, Michele Bachelet, depois veio o anúncio da OEA condenando o golpe, aí sim entrou em cena o Brasil. O retrado da entrada do Brasil no clamor internacional pode ter sido só resultado do caráter semanal do badaladíssimo programa de rádio "Café com o Presidente". Mas o tom do Brasil foi duro. Depois vieram os países do Primeiro Mundo, mais exatamente França e Estados Unidos, com manifestacões tímidas.
Bom, lamento profundamente dizer que todas estas manifestações estavam inundadas de salvas à democracia, mas vazias em conhecimentos básicos sobre o caso hondurenho. Primeiro, Zelaya é um populista, adepto da ideologia da democracia anti-democrática em voga no hemisfério, e pesavam sobre ele denúncias de corrupção e perepetuação no cargo. Em segundo, porque o bigode e o chapéu dele formam um figurino que é impossível associar a alguém normal. Em terceiro, porque manobrava para driblar a Constituição. Em quarto, porque ele se isolou dos dois outros poderes tradicionais da República, o Judiciário e o Legislativo. Em quinto, porque ameaçou as instituições todas com a elite da Polícia. E em sexto, porque a Constituição hondurenha, por mais esquisita que seja, prevê a remoção do Chefe do Executivo em caso de descumprimento de duas decisões da Suprema Corte, como Manoel Zelaya se achou capaz de fazer. Então, cabe a pergunta: foi golpe ?
Mas vá lá, o rito hondurenho é sumário demais. Para comparar, Collor teria perdido o timão do navio em duas semanas, se fosse hondurenho e, por aqui, só foi posto no bote salva-vidas uns meses mais tarde. E ninguém achou anti-democrático.
A ignorância então pareceu dar lugar ao casuísmo ideológico lulo-bolivariano. Afinal, Zelaya joga no time de Lula, de Chávez, de Morales, de Kirchner, do Ortega, do Correa. E ganhou visitas com status de chefe de Estado em todos este países, inclusive em Brasília.
Tentou voltar à Honduras uma vez. Ficou no Posto de Fronteria.
E tentou uma segunda, aparecendo na embaixada...do Brasil !!!
Agora que a coisa está esquentando é que resolveram analisar o caso com mais calma. Mas agora é tarde. E o mais triste de tudo: o Brasil  ocupa posição central e dúbia na questão. Afinal, o sujeito é hóspede da embaixada brasileira em Tegucigalpa.
Alega-se que Zelaya está asilado na Embaixada. Mas quem é idiota de acreditar nisto ? Asilo é matéria difusa no Direito Constitucional e no Direito Internacional. O cidadão que pede asilo em uma representação diplomática estrangeira, o faz porque não reconhece que suas garantias pessoais estão sendo respeitadas pela autoridade de seu país e nascimento. Mas cada caso é um caso. Um "serial-killer", um traficante ou um pedófilo, pode se sentir assim e pedir asilo, o que não quer dizer absolutamente que esteja certo. O Cesare Battisti, por exemplo: era militante do falido PCB italiano, e em sua ideologia cabia a praxis de atentados que subtraíam vidas de pessoas que nada ou pouco tinham a ver com o diálogo político. Ele merece a condição de refugiado político no Brasil ? Certamente não. Seja lá o que for decidido no Supremo, ele sabe, eu sei, o Tarso Genro sabe, e a Itália toda sabe que o sujeito matou gente.
Mas voltando ao Zelaya, asilado do quê ? De ter tentado entrar num país que, apesar de exótico, o inclui na pauta de exportações com pleno respaldo constitucional e com rara convergência de interesses, de tão fulminante que foi ? Mais uma vez, eu sei, o Lula sabe, o Zelaya sabe e todo mundo sabe que a forma certa era obter o respaldo da comunidade internacional. E ele estava conseguindo !!!
Voltar ao país parece pouco oportuno e, sobretudo, pouco patriótico, pois o confronto seria certo. Era óbvio que sua volta mergulharia Honduras numa confusão só. E o Brasil, salvo maiores explicações, parece ter patrocinado o tumulto !!!  Sinceramente, eu sei, o guarda da Embaixada brasileira sabe e o Amorim sabe que o sujeito não apareceu disfarçado, às duas da manhã, tocando a campainha da Embaixada e avisou pelo interfone:
- Hola, que tal ? Acá es Zelaya ? Tienes abrigo ?
E a porta se abriu e ele entrou.
E agora a batata assa à hondurenha. E está claro que o Brasil sozinho não resolve.
Ou seja, o asilo do Zelaya é questão de zelo. Ou de falta dele.

sábado, 19 de setembro de 2009

Uma pequena raridade em casa

Em uma noite de maio deste ano, estava a trabalho em São Paulo e não tinha nem programa nem disposição para sair à noite. Combinei então com um amigo de nos encontrarmos em horário de Jornal Nacional, comer alguma coisa, jogar conversa fora e, para unir útil ao agradável, num shopping, onde ele poderia substituir um celular avariado, e onde eu desejava ver uma lojinha de modelismo que já conhecia há tempos.
O acervo da lojinha estava muito fraco. Mas o balconista me ofereceu duas peças de colecionador que estavam em consignação. Eram duas miniaturas de carros pilotados por Ayrton Senna em sua carreira.
Depois da morte de Senna, duas fábricas de miniaturas européias lançaram coleções completas de todos os carros que Senna pilotou em vida, até karts.
Fui apresentado então a uma Williams antiga onde Senna fez seu primeiro teste na F1 em 1983 e a um Porsche 956 preto e amarelo. O Porsche me chamou a atenção. Desconhecia o fato de Senna ter pilotado protótipos do tipo Le Mans. Desembolsei a grana pedida pelo colecionador, digamos que tenha sido 10 contos de réis, e levei a miniatura.
Fui pesquisar sobre a história desta aparição estranha de Senna na categoria protótipos. Muita gente diz muita coisa. Juntei mais de dez fontes e concluí que as coisas aconteceram mais ou menos assim.
Em 1994, Senna era um novato na F1 e estava na Toleman. Foi o ano da célebre corrida submarina de Mônaco, que Senna ganharia caso não tivesse sido suspensa. Ele já era um fenômeno reconhecido, pela carreira na F-3 inglesa, mas duvidava-se de sua rápida afirmação na F1, que contava com um esquadrão de feras como Prost, Lauda, Piquet, Rosberg e o ascendente Mansell. Para completar, no início da temporada, Senna mostrou-se franzino e despreparado fisicamente para um longo GP num carro de ponta ( Senna percebeu isso rápido e tornou- se uma referência no preparo físico para pilotos de Grande Prêmio).
Antes do GP de Mônaco em que ele assombrou o mundo, Senna flertou com outras possibilidades. A primeira delas foi com a equipe Joest de protótipos, hoje a grande equipe da Audi, mas que na época era uma equipe independente da Porsche. Senna recebeu um convite para correr algumas provas pela equipe Joest, sendo que, uma delas, inclusive a tradicional 24 horas de Le Mans daquele ano. Como os calendários atrapalhavam a F1, Senna não podia aceitar.
Até que, logo após o GP de Mônaco, com fama de revelação confirmada, Senna recebeu um convite para participar de um festival da Mercedes-Benz em Nurburgring, que, além de marcar a reinauguração do autódromo teria uma competição com um formato especial: pilotos de várias épocas e categorias correriam duas baterias em Mercedes C190 idênticos. Pois bem: Senna pulverizou a concorrência e faturou o Festival, em cima de feras da F1, de Rallye e da categoria protótipos.
A Equipe Joest então insistiu para que Senna permanecesse mais uma semana em Nurburgring, para disputar os 1000 km, prova válida pelo Mundial. Senna aceitou, pois o calendário permitia e os comentários sobre sua performance o encheram de esperanças de ser bem sucedido nesta categoria também. Para completar, a Joest era a equipe a ser batida naquele ano, tendo vencido com o veterano Henri Pescarolo e Stefan Johansson em Le Mans. E Senna foi convidado para dividir o cockpit do Porsche 956, com número 7, exatamente com Pescarolo e Johansson.
Mas o resultado não foi bom. Largaram em nono lugar e logo após a largada, um defeito no carro o deixou nos boxes por oito voltas. A equipe terminou com um decepcionante oitavo lugar.
Senna disse ter gostado do carro, da potência do motor e da estabilidade em curvas, mas reclamou muito do peso do carro. Nunca mais pilotaria um carro da categoria Protótipo na vida.
Pois foi essa miniatura que adquiri, por curiosidade. O brinquedinho é de uma perfeição inacreditável como as fotos deste Blog ilustram. De quebra, aprendi uma história curiosa sobre este mito do esporte a motor do Brasil.
E, recentemente, fiz uma pesquisa para saber se muita gente tem uma miniatura semelhante. Um colecionador de Portugal me informou que esta miniatura não deve ter sido produzida em número maior que 100 unidades. Como ele divulgou lá para os amigos dele eu não sei, mas há cerca de quinze dias atrás, recebi um e-mail me oferecendo cinco vezes os dez contos de réis que desembolsei. Não vendi. Fiquei satisfeito de ter tido a sorte de ter uma pequena raridade em casa

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

A onda das citações

E o Twitter muda os hábitos...
Tem uma verdadeira multidão que está utilizando os exíguos 140 caracteres para exalar aforismos, máximas, hai-kais, pensamentos, citações, reflexões.
E a consequência disto é que pensar muito e dizer pouco voltou a ficar na moda.
De repente, Confúcio, Balzac, Shakespeare, Oscar Wilde, Victor Hugo, Ralph Waldo Emerson, entre outros, estão sendo multiplicados, citados, twittados e até tendo seus direitos autoriais usurpados, posto que há muito pseudo-filósofo de plantão. A banalização das citações só encontra exceção, na minha opinião, em Millor Fernandes, que sempre se expressou assim e o continua fazendo em vários meios de comunicação, inclusive no Twitter.
No meu caso, e isto pode ser visto no meu perfil já há muito tempo, da mesma forma que não tenho talento para textos longos, não tenho vergonha nenhuma de dizer que curti muito mais "Além do Bem e do Mal" do que "A Crítica da Razão Pura". Ou seja, prefiro ideias explicitadas de maneira curta e espirituosa a tortuosos exercícios de retórica, sem tirar ou acrescentar mérito a um ou a outro. Apenas questão de gosto pessoal.
Assim sendo, sempre colecionei citações. Tenho uma prateleira inteira de livros só de citações, desde aforismos de Nietzsche a coisas menos intelectuais como "Sementes de Reflexões". E resolvi preencher este espaço com algumas delas que considero muito especiais, seja pela ironia, seja pela sabedoria ou seja por qualquer outro motivo. Afinal, existem máximas que servem apenas para provocar o raciocínio e a criatividade.

Seja moderado em tudo. Inclusive, na moderação. - Horace Porter

Falsa modéstia é o rabo escondido com o gato de fora. - Millor Fernandes

Amigo verdadeiro é aquele que nos quer apesar de nada. - Sofocleto

A única diferença entre o santo e o pecador é que o santo tem um passado e o pecador tem um futuro - Oscar Wilde

Ordem, contra-ordem, desordem - Napoleão Bonaparte

Consciência é uma voz interna que nos adverte que alguém possa estar olhando - H. L. Mencken

Eu achei que estava errado uma vez, mas estava errado - Lee Iacocca

Inveja é aquilo que sentimos quando um sujeito estea saindo do dentista quando você está entrando - Samuel Szwarc

Ironia é uma forma sutil de ser mau - Berilo Neves

De quantas infâmias se formam um êxito ? - Honoré de Balzac

Perdoar é divino e é um bom negócio. - Gustavo Capanema

Quem não envelhece, morre novo. - Moncelo Almuli

Quem tem hábito de não carregar mágoas, nem se lembra do perdão - Anônimo

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

Cotidiano no. 3, no. 4, no. 5...

A versão original

Hay dias que no se lo que me pasa. Eu abro o meu Neruda e apago o sol. Misturo poesia com cachaça. E acabo discutindo futebol. Acordo de manhã pão com manteiga e muito, muito sangue no jornal...
Mas não tem nada não, tenho o meu violão.

Minha paródia

Hay dias que no se lo que me pasa. Eu vejo na internet que não há sol. Misturo tudo sem cachaça. E prefiro o Rubinho num velotrol. Acordo de manhã e iogurte sem colesterol, e muito, muito roubo no jornal...
Mas não tem nada não, estou com o cu na mão.


Peguei emprestado parte de Cotidiano no. 2, de Vinicius e Toquinho. Ficou muito pé-quebrado. Mas não era a ideia chegar ao nível do poetinha. A ideia era a substituição do espírito de conformismo do original pelo susto. Sim, em vez de pegar meu violão, reflito sobre o que está realmente acontecendo no mundo. Está tudo muito louco, desordenado, surpreendente. Os fatos e informações se sucedem, me bombardeiam diariamente e estão me deixando completamente estupefato. Será que há uma conspiração genial e abrangente para subestimar completamente meu discernimento e minha compreensão, e diante de tantas coisas absurdas, simplesmente me assustar e me deixar em estado de torpor por falta de poder de reação ?
Senão vejamos: Belchior sumiu, apareceu e, claro, sumiu de novo. Berlusconi promoveu orgias romanas, sem ser imperador romano e o país onde fica o Vaticano aceita. Na Venezuela, o governo de Chávez persegue órgãos de imprensa, e Oliver Stone faz um filme transformando o esquisito bolivariano em herói. Na Argentina, em plena discussão de um projeto de Lei vital para as já abaladas pretensões do casal K&K, a os fiscais da Receita, em massa, resolvem vasculhar o Clarín, veículo de imprensa referência do país. Rubinho condena Nelsinho por bater de propósito mas se esquece que deu passagem para Schumacher...de propósito. Quem formulou o marco do Pré-Sal, se esqueceu de ver se existe uma empresa chamada "Petrosal" e acha que em 90 dias, coisas um pouquinho mais complicadas que isto deverão estar discutidas. O Senado ultrapassou os limites de falta de nobreza, inclusive com farta distribuição de cartões amarelos e vermelhos e o assunto acabou em duas semanas. O bispo Macedo e sua igreja estão entupidos de denúncias e críticas, mas o Presidente não se sente encabulado ao aparecer do lado de notórios bispos da mesma igreja para introduzir mais uma festa religiosa no calendário oficial do Brasil. Todo os dias, no Rio de Janeiro, tem protesto que começa na Candelária, e termina onde a Polícia resolve baixar o sarrafo. Santa Catarina, que era atacada por furacões vindos do mar, agora é atacada também por tornados vindo da Argentina. Deu onda de 1 m ( honesto) no Tietê. O time do Dunga está jogando bem. O Brasil ia comprar 38 bilhões de dólares em balas dum-dum francesas anunciados em pleno 7 de setembro, mas ainda estuda gastar esta bagatela em garruchas norte-americanas ou armamentos eróticos suecos. O Serra tem 50 % nas pesquisas e o Aécio 10%, mas o PSDB não sabe ainda quem deve ser o candidato. O advogado do Collor aparece degolado, empalado e mutilado, junto com a família toda, e é apenas latrocínio. O Protógenes se filia ao PC do B. O Sarney acha que na internet não deve haver limites para os políticos ( como se tivessem algum...). O Mantega diz que quem não seguir o programa de Lula, depois de seu mandato, "vai apanhar muito". O Rio é favorito para sediar Olimpíadas. Um pombo entrega uma mensagem mais rápido que um e-mail na África do Sul, onde em 2010, deverá ter uma Copa, com vuvuzelas e tudo.
E querem que eu fique calmo...


sábado, 5 de setembro de 2009

Petróleo mal temperado

Em o "Cravo bem Temperado", Bach inovou em composição. Abusou de contrapontos, usou dissonâncias. Isso soava muito estranho na época de vida do célebre compositor alemão. Mas, a informação é introdutória e voltaremos ao Johann Sebastian lá pelo final do texto.
A formação geológica onde recentemente foram descobertas grandes reservas de petróleo alardeadas pela empresa estatal brasileira e pelo Governo Brasileiro foram batizadas de reservas da camada Pré-sal. O nome tem a ver com o posicionamento geológico destas reservas, que ficam em profundidades superiores a uma extensa e insistentemente inconveniente camada de sal que, por sua vez, está em profundidades maiores que as reservas de petróleo já encontradas no Brasil, notadamente na plataforma continental, em alto-mar.
Ao contrário do que dizem, não se trata exatamente de uma benção. Não gosto de Geologia e acho que meus 5,75 leitores também não devem achar interessante o tema. Mas me parece natural que, se essas acumulações de petróleo foram encontradas ao largo da costa da Lulolândia, também devem ocorrer em outros países e lugares. Por exemplo, Angola. Lá tem Pré-sal. No Golfo do México tem também. E em outras situações, descobertas similares devem ocorrer. Se são comerciais ou não, cabe avaliar caso a caso. As do Brasil, ao que parecem, são, salvo uma queda livre dos preços do petróleo no mercado internacional. O raciocínio é simples, e qualquer cidadão que tenha resolvido furar um poço artesiano no quintal de casa, sabe. Quanto mais profundo o lençol de água, mais caro é o poço. E este petróleo do Pré-Sal está bem longe da superfície habitada pelos terráqueos. Então custa mais caro que o petróleo que não está.
Se o preço do petróleo cair, trazer essa benção para a superfície pode perder o caráter divino e se tornar maldição.
Isto dito, de forma pouquíssimo técnica, partamos para relembrar Daniel Yergin, autor do primeiro compêndio histórico e econômico sobre o petróleo, de respeito e isento. Ele publicou seu best-seller "The Prize" em 1982 e ganhou o Pulitzer no ano seguinte. No livro está narrada com precisão de detalhes a história do petróleo desde 1861, ano que marca a introdução do "óleo de pedra" como mercadoria, na Pennsylvania, até a véspera da publicação. Depois foi reeditado e atualizado até o início da década de 90, quando George Bush, o pai, teve uma escaramuça com o Iraque, por causa da invasão do Kuwait, mas ao contrário do filho, alguns anos depois, em vez de varrer o Iraque e mandar desta para melhor a turma de Saddam Hussein, se deteve e lançou uma política de apaziguamento com os países do Oriente Médio.
Yergin nos conta bastidores das manobras que permitiram o desmonte do monopólio da Standard Oil, de Rockefeller. Conta também como Stálin, líder sindicalista georgiano, explodiu tudo na província petrolífera de Baku para contestar o regime monárquico russo, em 1905. Conta também como foi a criação da Opep. Enfim, nos dá o sentido que a história do petróleo é uma história de poder, de guerras, de raciocínios complexos de geopolítica, influências, controles econômicos das nações desenvolvidas sobre as nacões pobres em desenvolvimento e ricas em petróleo.
Pois bem. Logo após a publicação do livro, os preços do petróleo apresentaram uma queda acentuada. O perigeu foi em 1998 e 1999 quando o barril chegou a ser negociado a US$ 12,00.
Daí para a frente, e acompanhado por uma crescente preocupação sobre mudanças climáticas, o petróleo continuou estratégico, mas adquiriu um caráter de "commodity livre" cada vez mais acentuado. Com isto, provocará menos guerras, senão nenhuma, e o estratégico não é mais ser abençoado por Alá para ter grandes reservas.
Os preços passaram a flutuar ao sabor da oferta e demanda, já que os lados fornecedores e compradores, que sempre foram cartelizados, racharam, uma vez que não havia convergência de interesses. A OPEP não conseguia disciplinar seus associados a respeitaram a cotas de produção. As grandes empresas petrolíferas ( sempre acompanhadas da alcunha "'Sete Irmãs", embora o número possa ter variado de 5 a 20, dependendo do critério) começaram uma briga de foice pelas fatias de mercado, e buscaram fusões para sobreviver, como a Exxon e a Mobil, a BP e Amoco, a Chevron e a Texaco, a Repsol e a YPF, a Total/Fina/Elf.
Em 2008 o petróleo atingiu US$ 140, recorde histórico, mas despencou com a surpreendente crise de liquidez a cerca de US$ 35. Deve se estabilizar em torno dos US$ 70 a US$ 100. Mas começa a sofrer fortes pressões por ser o vilão na emanação de gases do efeito estufa. Além disso, seria de uma tolice absoluta supormos que grande economias como a japonesa, a norte-americana, a francesa e a alemã já não diversificaram, ou estão em vias de diversificar, suas matrizes energéticas para não ficarem reféns de hidrocarbonetos. Novas tecnologias limpas e renováveis surgem em velocidade assustadora. E é pouco provável e pouco prudente acreditar que o petróleo terá a mesma importância que tem hoje daqui a uns 30 anos. O petróleo bruto está virando uma "commodity livre" e, em breve, com outras substitutas para competir.
Mas, voltemos ao Pré-Sal. Diante disto, e considerando que o Brasil mudou seu marco regulatório monopolístico e anacrônico ( tinha sido estabelecido em 1953...) em 1997, seria necessária mesmo uma miríade de Projetos de Lei, confusos, estatizantes, que mexem com estruturas que se consolidam há somente dez anos no Brasil, demandam debates legislativos complexos e carregados de ideologias e pouco conhecimento técnico para mudar, de novo, o marco regulatório porque foi encontrada uma nova reserva ? Seria ?
Se fosse uma necessidade absoluta e urgente, seria interessante também, por equivalência de precaução, definir políticas e marcos regulatórios para o uso da energia nuclear, para o desenvolvimento de centros de pesquisas de fontes de energia das marés, de origem geotermal e de células de Hidrogênio, por exemplo, estas sim, mudando em técnica, e economicidade em grande velocidade.
Petróleo com sal, sem sal, com pimenta, com cominho, manjericão ou qualquer ingrediente deste tipo, ao entrar na Refinaria, sai como combustível do mesmo jeito. Ou como insumo para a indústria petroquímica, que, por sinal, reavalia seu portfolio de insumos também com bastante velocidade, buscando alternativas aos derivados de petróleo.
Se, há, de fato, preocupações sobre a distribuição da riqueza proveniente destas novas reservas, o marco regulatório que aí está atende plenamente, prevendo inclusive regimes excepcionais que poderiam ser aplicados em um caso ou outro. E, caso se mostrassem insuficientes, há formas menos bruscas e sem alteracão do texto constitucional, com previsão expressa em Lei que, já hoje, podem adequar as regras.
Na edição do marco regulatório do Pré-Sal sobrou acomodação de interesses e há senso de oportunismo político explícito. E é desnecessário e retrógrado. O petróleo caminha para um processo de "commoditização" livre, com preços e oportunidades fluindo conforme o mercado estabelece, e não conforme um governo ou uma empresa estabelece. Não é possível que isto não esteja visível.
Além do sal, o governo adicionou tanto tempero na nova Lei, que o prato está difícil de ser engolido.
E voltamos a Johann Sebastian Bach, que temperou seu cravo para produzir uma das peças clássicas mais importantes da Hitória da Música.
Essas novas regras do Pré-Sal são tão temperadas que, tal como um Bach às avessas, estamos correndo o risco de produzir um dos sistemas de regulação de uma atividade extrativista que deixará de herança a exposição das mentes que o elaboraram como patéticas, atrasadas, vistas aos olhos do mundo como excentricidades. E pior, deixar uma parte desta riqueza lá onde está, por excesso de tempero.
O dinheiro não gosta de lugares excêntricos. O mito do petróleo como garantidor de soberania e independência foi para o ralo há duas décadas. Petróleo é empreendimento, é atividade que gera lucro. Não tem pátria, não tem coração.
O cravo de Bach não era um fim em si mesmo. O cravo de Bach era um instrumento. Conhecemos o gênio de Bach pelo que ele fez ao tocar cravo. Não se conhecem gênios que fizeram alguma coisa na ordem inversa, ou seja, serem tocados pelos seus instrumentos.
Até a próxima descoberta geológica, que deve gerar outra extensa, espetacular e desnecessária discussão. E que a carga de tempero seja mais apetitosa.

sexta-feira, 28 de agosto de 2009

Aceitar

Havia prometido aos meus cada vez mais numerosos leitores que escreveria um texto sobre a experiência de um carioca ir, sem estar devidamente preparado, à Festa do Peão Boiadeiro de Barretos 2009.
Mas os últimos dias foram atribulados e este escriba amador acabou envolvido em outras prioridades. Para não deixar a Sheilla e o Rubinho congelados no Blog, busquei em um dos textos que já publiquei qual estaria mais ligado aos meus sentimentos atuais, e que, por uma incrível sequência de coincidências, observei que está afetando também muitas pessoas próximas.
Então segue um texto que tem 45 dias de publicado sob o título Negação, Raiva, Negociação, Depressão e Aceitação, de volta à tela.

Eu gostaria de evitar, mas sou forçado a mencionar um episódio de uma série de TV como uma pequena obra-prima que aborda as reflexões humanas diante da inevitabilidade da morte. Trata-se do primeiro episódio do segundo ano de "House", chamado Aceitação. Nos 45 minutos do episódio há um intenso conflito de todos os envolvidos com o fato de que dois pacientes estão condenados à morte. Um deles, um prisioneiro do "corredor da morte", assassino quádruplo, que, na véspera de sua execução, tem alucinações e problemas cardíacos, e várias complicações estranhas. O outro, uma moça saudável e de conduta irrepreensível, que chega se queixando de cansaço e tosse. O Dr. House se interessa mais pelo caso do prisioneiro. Aqui, então, começa um conflito com quase toda a sua equipe e com a direção do Hospital. Afinal, para que salvar a vida de um condenado à morte ? E porque o pouco caso com uma paciente cujo raio X indica um tumor no pulmão ? A lógica e a ética começam a duelar. Seria lógico deixar o condenado morrer e concentrar os esforços na moça com diagnóstico precoce de câncer ? A evolução da trama expõe a improvável convergência entre a lógica e a ética. O condenado irá morrer, mas não deveria ser por problemas de saúde, e sim por determinação do Estado. Estranho, mas é ético e lógico, não se pode negar. Já a moça, pelo diagnóstico da biópsia, tem tumores malignos. O máximo que se pode fazer é prorrogar sua vida por alguns meses. Ambos estão condenados a morrer. Um, pela lei. Outro, pela doença. É difícil aceitar que o condenado merece sim, morrer, mas não daquela forma. Como é difícil aceitar que uma moça jovem e saudável esteja com um diagnóstico fatal. Neste ponto, a evolução dos sentimentos que surgem diante da certeza da morte vira o enredo do episódio. Negação, Raiva, Negociação, Depressão e Aceitação. O que é genial no roteiro enxuto, é que todos, não só os doentes, acabem percorrendo estes estágios. Inclusive o Dr. House. Ao saber ou lidar com uma morte iminente, vem a Negação, em primeiro lugar. Ou seja, o sonoro "não, aquilo não é possível". Em seguida vem a Raiva, a irritação com a condição, que toma conta das ações e faz com que as atitudes fiquem pouco racionais. Em seguida, a Negociação, ou Barganha, quando começam a aparecer contrapartidas, e aspectos que nada ou pouco tem a ver com a situação e são usados para obter piedade, ou regalias, ou, o mais importante, alguma coisa que sustente a esperança de reviravolta. A Depressão vem a seguir: velha companheira da Raiva, a Depressão se manifesta pela apatia, pela desistência da luta, pelo desânimo. Por fim, a Aceitação, que não significa resignação, mas um estágio de reconhecimento do fatal, do inevitável, e como lidar com isto, com qualidade e buscando o conforto. Toda a trama só converge no estágio da Aceitação. A propósito, o condenado sai andando do Hospital, voltando para o "corredor da morte". Uma última apelação seria tentada, mas sem o apoio do Dr. House. Já a jovem moça recebe a confirmação de pouco tempo de vida. Chora e desaparece. Na última cena, Dr. House, cuja conduta é tão controversa, se mostra coerente: deprimido, bebendo sozinho em seu consultório, se levanta e deixa no quadro da sala apenas uma palavra escrita: aceitação.

Aos olhos de nosso senso de justiça, pessoas más merecem destinos ruins e pessoas boas merecem destinos bons. Infelizmente, o curso da vida não é sempre assim, apesar do grande esforço que fazemos para isso acontecer. Ou será que é isso que acontece mesmo, mas nossos julgamentos é que estão errados ? O melhor é aceitar.

domingo, 23 de agosto de 2009

Domingo de Grand Prix, dos 8 aos 100

Hoje, 23 de agosto de 2009, num exílio forçado longe de casa, resolvi dedicar a manhã a um descanso no isolamento do hotel, e assistir com calma à final do Grand Prix 2009 de vôlei feminino, no Japão, e o Grand Prix da Europa de Fórmula 1, na pista urbana de Valencia, na Espanha.

Depois de um sábado de visita à gigantesca festa do Peão de Boiadeiro de Barretos resolvi que iria dedicar um texto a esta manifestação cultural estranhíssima para um carioca, mas que não foi uma experiência exatamente ruim. Isso será assunto de um outro Blog.

O adiamento da missiva sobre a festança caipiro-rural-sertanejo-pop-cult-kitsch foi decidido há minutos.

Quando liguei a televisão, às 7:00 não poderia imaginar que iria assistir a dois momentos marcantes do esporte brasileiro. Quatro horas depois, haviam dois assuntos mais urgentes que a festa de Barretos, e atendendo, por curiosidade, pelo mesmo nome: Grand Prix, ou Grande Prêmio, em francês.

Não faço a mais vaga ideia de porque o equivalente à Liga Mundial de Vôlei masculina, na versão feminina recebe o nome de Grand Prix. Na Fórmula 1, o nome remonta ao início do século passado, quando as corridas de automóveis não tinham exatamente campeonatos, mas uma corrida por país por ano, desde 1906, era chamada de Grande Prêmio do país. Como o primeiro foi na França, ficou Grand Prix. A Fórmula 1 quando se organizou como campeonato em 1950, firmou o nome de Grand Prix, ou sua rubrica GP, em cada corrida.

E o domingo começou com o jogo final entre Brasil e Japão, pelo GP de vôlei feminino. Com a vitória da Rússia por 3 a 0 sobre a Holanda, restava ao Brasil vencer, por qualquer placar, mas vencer. E o jogo começou complicado, com o time japonês sacando muito bem e demolindo a defesa brasileira. Perto do final do set, com uma inversão 5-1, a nissei Anna Tienne, que acabara de entrar, fez uma defesa daquelas de cinema, o time cresceu e...bola para a Sheilla, que virou tudo. O Brasil passou a frente no placar só na casa dos 19 pontos e faturou. O segundo set foi mais complicado ainda. Mari, aniversariante do dia, estava mal na recepção e no ataque. Jogo equilibrado e o Japão venceu por 27 a 25. No terceiro e quarto sets, o normalmente calmo José Roberto Guimarães coçava a cabeça num estilo Bernardinho, mas mexia no time de forma perfeita. Entraram Sassá e Fabiana, o bloqueio brasileiro cansou as japonesas e a líbero Fabi defendeu muito. E, para variar, Sheilla virou tudo. Sem sustos, venceu o jogo.

Foi a oitava conquista brasileira na competição. E Sheilla eleita a melhor do campeonato.

O vôlei brasileiro é um fenômeno. Domina as quadras e as praias e produz talentos como nenhum outro. Sheilla não é uma novata, mas há muito que vem jogando muito bem. Agora teve o reconhecimento devido. E foram oito conquistas da competição mais importante do vôlei, depois do campeonato Mundial e das Olimpíadas, mas que é a mais cansativa delas.

Aí, quase sem pausa, começa o GP de Fórmula 1, em Valencia, com Rubinho em terceiro. Era a primeira corrida depois que a mola do Rubinho foi parar na testa do Massa. Só tinha o Rubinho para torcer mesmo. Isso foi até motivo de comentários maldosos durante a semana. O velho Barrica largou em terceiro atrás das Mc Laren. Não ultrapassou nenhuma das duas, mas atualmente, sendo rápido na hora certa, e se o cidadão que vai à frente der uma bobeada, uma paradinha no posto de gasolina faz ganhar posições. E, a 19 voltas do fim, lá estava o Rubinho em primeiro. Só perderia por falta de sorte, coisa que, aliás, os brasileiros andam esbanjando.

Na hora pensei: e se o Schumacher tivesse corrido ? Ia cumprimentar o Rubinho ? E o Massa sendo homenageado no capacete do Rubinho ? E quem disse que o Rubinho era um piloto aposentado em atividade ? Estaria pensando o que ? Mas o mais importante nessas 19 voltas era a contagem regressiva para ver, pela centésima vez, um brasileiro vencer na Fórmula 1. E ver um esportista tendo a chance de mudar seu legado.

Se me dissessem, de 2006 para cá, que a honra da centésima vitória brasileira caberia ao Rubinho, eu certamente duvidaria. Mas o mundo gira, a Lusitana roda, e o circo da Fórmula 1 tem suas mulheres barbadas e seus palhaços. Estas 19 voltas separavam Rubinho de escapar da pecha de atração de circo, para fazer história. Foi tranquilo. 19 voltas controlando o Hamilton.

E tem Rubinho no lugar mais alto do pódio, o que era muito improvável há um ano atrás. Mas tem mais que isso. Ao subir lá em cima, o piloto brasileiro da Fórmula 1 mais ironizado de todos os tempos venceu a mítica centésima corrida para Pindorama. E de quebra, sua décima vitória particular. Rubinho deixou de ser o palhaço instantaneamente e foi o trapezista, foi o mágico, foi outra atração mais nobre do circo.

E façam as contas. Emerson Fittipaldi ganhou 14 corridas, José Carlos Pace ganhou 1, Nelson Piquet (pai) ganhou 23, Ayrton Senna ganhou 41, Felipe Massa ganhou 11. Com as dez do Rubinho: 100.

100 GP´s na Fórmula 1. 8 GP´s no vôlei feminino. Nos números, uma manhã marcante. Para alguns esportistas, um dia especialíssimo.

Sheilla, reconhecida. Rubinho, redimido.

O surgimento e a recuperação, aos 8 e aos 100.

sábado, 15 de agosto de 2009

Os Beatles do riso ?

O grupo inglês Monty Python pode estar para o humor assim como os Beatles estão para o rock. Atenção, escrevi "pode". Não afirmo.
Os Python estrearam em 1969, como uma reunião de seis comediantes britânicos provenientes de origens distintas. A diversidade do grupo talvez seja a razão para o resultado: um humor absolutamente "nonsense", mas nem por isso idiota ou sem pretensão. As críticas dos Python são de uma acidez incomparável, tendo o seu ápice no famoso longa-metragem "A Vida de Brian" que esculhamba de forma inteligente os filmes de reconstituição da vida de Jesus Cristo, e que só pode ser percebida como grosseira ou blasfêmia por aqueles que vem ameaça em tudo o que não podem compreender direito.
O programa dos Python na TV britânica chamava-se "Flying Circus". No Brasil, em fins da década de 70 surgiu um espaço cultural no Arpoador chamado "Circo Voador", uma clara referência. Sua principal atração, o grupo "Asdrúbal Trouxe o Trombone", tinha forte influência dos Python, bem como seus componentes e seus trabalhos posteriores, assim como a linhagam Casseta & Planeta. Nos Estados Unidos, o humor dos Python influenciou uma escola enorme de atores e roteiristas de humor, a começar pelo Saturday Night Live, e chegando ao South Park.
Além da TV, o Monty Python fez shows, filmes, roteiros para outros filmes e, quando chegou ao fim, seus integrantes continuaram influentes em várias áreas. Artistas do mundo todo colaboraram e fizeram aparições nos shows e filmes, incluindo Steve Martin, Ringo Starr, George Harrison, Rowan Atkinson (o Mr. Bean), John Belushi, Madeline Kahn, Tom Hanks, entre outros.
Quando o grupo foi acusado de homofobia, Graham Chapman, um de seus integrantes, assumiu publicamente ser homossexual. Outro membro, Terry Gilliam, tinha nacionalidade britânica e norte-americana e quando discordou publicamente das políticas de George W. Bush, recebeu uma moção de desconfiança da casa Branca. Não vacilou. Renunciou à sua cidadania norte-americana.
"A Vida de Brian" teve suas filmagens suspensas dois meses antes de seu início pois os produtores temiam a reação dos conservadores e da Igreja. O admirador George Harrison, ao saber disto, financiou e produziu o filme. Quando George morreu, em 2001, três componentes dos Python ( Michael Palin, Terry Gilliam e Terry Jones) resolveram conjuntamente com Eric Clapton, Jeff Lynne e Ringo organizar um tributo a George, um ano após sua morte.
Para além do sarcasmo, os Python foram, individualmente o que podemos chamar de "gente boa", sujeitos que gostaríamos de ser amigos.
O humor dos Python é "nonsense", mas provavelmente o mais erudito dos "besteiróis".
O quadro que considero o maior exemplo é o da final do Campeonato Mundial de Filosofia, disputado no Estádio Olímpico de Munique, entre Grécia e Alemanha. A Alemanha entra em campo primeiro, com a formação 4-2-4, com: Leibnitz, Kant, Hegel (capitão), Schopenhauer e Schelling; Beckenbauer ( surpresa de última hora) e Jaspers; Schlegel, Wittgenstein, Nietzsche e Heidegger. A Grécia vem com uma óbvia formação defensiva em 5-3-2, com: Platão, Epítecto, Aristóteles, Sófocles, Empédocles e Plotrino; Epicuro, Heráclito (capitão) e Demócrito; Sócrates e Arquimedes. Aristóteles é o líbero e considerado o melhor jogador do campeonato.
O trio de arbitragem é formado pelo juiz Confúcio, e seus auxiliares São Tomaz de Aquino e Santo Agostinho.
O juiz dá a saída e os jogadores deixam a bola parada e começam a pensar e filosofar em campo. Sócrates dá uma arrancada falando sozinho e sem bola. O goleiro Platão contempla o campo. Beckenbauer, como todos os outros, fica parado com a mão no queixo.
Perto do fim do jogo, o técnico alemão, Lutero, resolve escalar Karl Marx. Não há consenso sobre quem deve sair e Wittgenstein, voluntariamente, abandona o campo. Marx não consegue mudar nada no ataque, como esperado.
A um minuto do fim, Arquimedes grita Eureka ! e inicia a jogada do gol. Após o gol, há uma intensa discussão entre Hegel, Kant e Confúcio sobre se o gol é parte da realidade ou não é, enquanto Marx reclama de impedimento !
Isso tudo se dá em apenas 3`45" ! E há muito mais a ser visto e observado no pequeno filme que está disponível no Youtube, legendado em Português no link:
http://www.youtube.com/watch?v=S4cdLmHlNOk&feature=PlayList&p=D7374580480E3FA8&playnext=1&playnext_from=PL&index=8
Vale a pena.
Faltam duas observações. Dois dos componentes dos Python ainda não foram citados. Um é John Cleese, que já ganhou o Oscar de ator coadjuvante e escreveu junto com Palin "Um Peixe chamado Wanda", e atuou até em filmes de 007. E Eric Idle, talvez o mais versátil do grupo, também foi jogador de futebol profissional e músico, tendo escrito as versões para o teatro de musicais baseados em textos dos Pyhton. O quadro do Campeonato Mundial de Filosofia foi supostamente de sua autoria, isoladamente. Idle foi o único que brigou com o resto do grupo, recentemente, quando as coletâneas do "Flying Circus" foram remasterizadas e relançadas em DVD.
Se podem ser comparados aos Beatles, é difícil concluir.
Mas na apresentação do famoso show que fizeram no Hollywood Bowl, em meados da década de 80, o locutor os chama, ironicamente de John, Paul, George e Ringo.
Ninguém reclamou.

terça-feira, 11 de agosto de 2009

Ribeiro/Lula

O filme Frost/Nixon, baseado na peça homônima, reconstrói o que teria sido a história antes, durante e depois da fulminante entrevista que o jornalista britânico David Frost fez com o único Presidente da história dos Estados Unidos que renunciou, Richard Nixon. Era um encontro improvável.
Apesar de ter renunciado, Nixon ganhou o perdão do seu sucessor Gerald Ford e iniciava um esforço de reconstrução de sua imagem, com a intenção de voltar à ativa na política norte-americana. Além disso, muitos tinham medo de Nixon, pois seu discurso era firme, era um político sagaz, experiente, que tinha enfrentado debates extenuantes com JFK, Brezhnev, Mao-Tse-Tung, de Gaulle, entre outros.
Já Frost era um bom entrevistador mas também era um reconhecido festeiro e humorista, além de não ser americano. Frost pagou 600 mil dólares a Nixon pela entrevista.
O prognóstico era de que Nixon engoliria Frost. O que de fato aconteceu em 75% do tempo. Nixon não só conseguia fazer um marketing pessoal positivo, principalmente em cima das decisões tomadas sobre o Vietnam e a aproximação com a China, como Frost estava visivelmente sem condições de conduzir a entrevista.
Até que Frost percebe que aquilo é mais que uma entrevista. É um embate e ele está prestes a perder e ainda por cima tendo pago para Nixon voltar à cena política. Numa sequência fulminante de afirmativas e perguntas arrancou de Nixon a famosa frase "o que um Presidente decide não pode ser considerado ilegal" e a expressão atemorizada e deprimida do ex-Presidente num close, enquanto repetia fatos e dados sobre subornos e conspirações para intimidar os adversários após o episódio de Watergate.
Então, pode ser inferido que, de acordo com as características do entrevistado, talvez o entrevistador mais inusitado seja aquele que consiga extrair o que o público quer ver: verdades, histórias esclarecidas, semblantes de tristeza por ter sido flagrado faltando com a verdade, ou mesmo de alegria se comprovado algo a favor do entrevistado que o redimiu de um julgamento anterior.
Aqui no Brasil, as pessoas públicas não estão nunca dispostas a este tipo de exposição de entranhas. Alguém imagina Collor falando sobre o "impeachment" ? E, neste momento, sem a proteção do parlatório, Sarney falaria com algum jornalista ? E Renan Calheiros ? E FHC ? E Marcos Valério ?
Então fiz a seguinte inferência: se um entrevistador mal informado e que nem jornalista de profissão é pudesse falar com Sarney ou com José Dirceu, por exemplo, numa sessão de entrevistas com regras claras, o que aconteceria ? Para falar a verdade, não tenho a mais vaga ideia, mas aqui vão algumas sugestões:

Acelino "Popó" Freitas / Collor - Sem dúvida, um programa imperdível. Além de não entender algumas explicações do entrevistado, Popó iria perguntar a toda hora se o alagoano conhece a fundo a realidade de ser camponês no Nordeste. E, caso Collor lançasse aquele seu olhar de fronteiriço-violento, Popó não titubearia e daria-lhe logo um "upper" de direita. Na tomada seguinte, Collor estaria lá, com um curativo no queixo, respondendo às perguntas de Popó. Conteúdo talvez fosse o menos importante nesta entrevista.

Mainardi/FHC - O sujeito que escreveu um livro chamado "Lula é minha Anta" deve ser pró-FHC, certo ? Não. Diogo Mainardi enfrentaria FHC com uma retórica que seria simplesmente um deleite para os que gostam de citar outros autores e mostrar ostensivamente sua erudição e intelectualidade. FHC, grande sociólogo e estadista, doutor "honoris causa" de umas trezentas universidades mundo afora e Mainardi, que leu Wittgenstein aos 12 anos e Kant no original aos 17, fariam um duelo socrático. Com uma diferença: FHC não consegue ser ferino para ser levado a sério e Mainardi só consegue ser levado a sério quando é ferino.

Gonçalves/Rousseff - Imaginem...Dercy e Dilma ? Das duas uma, ou Dilma escancarava um sorriso e uma risada sincera em público, pela primeira vez na vida, ou Dercy começaria uma série de observações sobre sua vida sexual. Infelizmente, esta é uma entrevista impossível. Mas, no lugar da Dilma, eu consideraria seriamente a possibilidade, afinal ela precisa mostrar uma imagem mais descontraída. Riscos ? Bem, Nixon correu riscos também.

Luxemburgo/Sarney - Seria a maior guerra de egos possível no Brasil. O problema seria a entrevista descambar apara assuntos do tipo "a tinta que uso para tingir o cabelo pode melhorar o visual do seu bigode, o senhor já pensou nisto ?" Ou então, "minha manicure é ótima, mas estou procurando outra. O Senhor indica alguma em Brasília?". Sem dúvida, haveria um diálogo imperdível sobre alfaiates e figurinos de paletós.

Ribeiro/Lula - Não consigo imaginar ninguém melhor para um bate-papo com o Lula do que o Agildo Ribeiro. Alem do humor escrachado, Agildo reagiria de imediato com alguma careta ao primeiro plural errado do entrevistado. Lula tentaria ser engraçado, porque é de seu feitio, mas Agildo o botaria de joelhos com algumas imitações. Lula tentaria o contragolpe rindo e Agildo o fulminaria com uma piada mais elaborada. Lula se escora na sua popularidade e só se sentiria de fato "impopular" se alguém o expusesse no mais popular escracho.

Outras hipóteses interessantes seriam Dicró/José Dirceu, Galvão Bueno/Arthur Virgílio (os dois falando ao mesmo tempo o tempo todo), Pe. Marcelo Rossi/Senador Crivella, João Saldanha/Paulinho da Força Sindical ( grandes chances de terminar em briga) ou um programa internacional, Garotinho/Hugo Chávez (que poderia ser chatérrimo ou hilário, a risco do patrocinador).

sexta-feira, 7 de agosto de 2009

Filmes Esquecidos

Em 19 de julho, escrevi um texto sobre meus filmes preferidos. Um dos que selecionei, e algumas pessoas me perguntaram onde encontrar e que filme é este foi Local Hero, que no Brasil durou pouco tempo no circuito comercial e parece que foi totalmente esquecido por aqui, sendo impossível achá-lo em locadoras e, creio, nem a Patricia Kogut conseguiria localizar uma programação de canais de televisão por assinatura, numa varredura desde 1994 até hoje, onde e quando este filme foi exibido. O título em Português para o filme foi de uma infelicidade total: Momento Inesquecível. No universo web, no entanto, observa-se que o filme tem seus seguidores-cultuadores mundo afora. É possível comprá-lo em vários sites fora do Brasil, mas só existe na configuração de região 1, ou seja, não é compatível com a maioria dos aparelhos reprodutores de DVD no Brasil e não existem legendas em Português. O grande rastro deste filme é o CD de sua trilha sonora, composta por Mark Knopfler, líder do Dire Straits. O tema principal é bem conhecido pois também aparece em gravações dos Straits ao vivo e em apresentações de Mark em shows.
Mas existem outros filmes igualmente muito bons que, sabe-se lá porque, também não são encontrados no Brasil, não são exibidos nem nos canais mais estranhos de TV por assinatura, e também não localizei versões do DVD disponíveis para região 4 ( a que compreende o Brasil) ou "ALL" que podem ser tocados em qualquer aparelho de DVD. Seguem algumas lembranças minhas e espero que os meus 8 leitores usuais complementem a lista com outros bons filmes que foram omitidos do público brasileiro.

Peter's Friends - O nome do filme no Brasil foi "Para o Resto de Nossa Vidas", outro batismo muito ruim. Trata-se de um filme dirigido por Kenneth Branagh, entre Henrique V e Frankenstein de Mary Shelley, filmado em 1992, e, infelizmente, esquecido no Brasil. Colegas de faculdade resolvem se reunir na mansão do amigo Peter, interpretado por Stephen Fry, e descobrem que suas diferenças aumentaram muito, mas sua amizade também aumentou, numa proporção maior, a ponto de tolerarem o pedantismo de um que se tornou escritor famoso, de outro que casou com uma atriz de TV famosíssima ( ela também comparece na reunião), de uma bela mulher que nunca encontrou ninguém para um relacionamento sério e que só pensa nisso e de outro que teve seguidos surtos nervosos e está completamente sequelado. O elenco é simplesmente sensacional tendo, além de Stephen Fry, o próprio Kenneth Branagh, Emma Thompson, Hugh Laurie, Alphonsia Emannuel, Tony Slattery ( no papel do surtado, impagável), Imelda Staunton e Alex Lowe. Alguns nomes não são muito conhecidos, mas seus rostos são muito familiares, pois este grupo é mais ou menos o mesmo que se formou junto em Cambridge em Artes Dramáticas, e tiveram algum sucesso, embora tenham seguido caminhos distintos: Branagh viveu um ciclo shakesperiano, Fry, Laurie e Slattery fizeram programas cômicos de TV, e Laurie hoje é o Dr. House, da série de TV. Emma Thompson dispensa apresentações. Staunton e Lowe seguiram Branagh em vários outros filmes. A trilha sonora é um capítulo à parte para os que viveram a década de 80. A abertura do filme, por exemplo, é com "Everybody Wants to Rule the World", do Tears for Fears, que casa perfeitamente com a chegada dos amigos à mansão.
No final, o anfitrião Peter tem uma surpresa para seus convidados e percebe-se então um ciclo fechado de crítica mordaz, bem-humorada e equilibrada sobre os valores, problemas, vícios e virtudes de quem cruzou os anos 80 buscando um rumo na vida. Imperdível para quem está na casa dos 40 a 55 anos.

California Suite - Uma comédia de erros, passada integralmente num hotel de luxo da California onde estão hospedados simultaneamente 5 casais. O roteiro é de uma peça teatral que fez sucesso no grande circuito (Londres, Broadway e Los Angeles). Para o filme, foi composta uma trilha sonora especialíssima, de autoria de Claude Bolling, que compôs peças de jazz e clássico para Yo-Yo-Ma, Jean Pierre Rampal e Andrés Segovia, entre outros, dividida em cinco movimentos, cada um dos quais reproduz o clima do casal em destaque. O elenco contou com Jane Fonda, Alan Alda, Maggie Smith, Walter Matthau, Michael Caine, Richard Pryor, e Bill Cosby entre outros. Maggie Smith ganhou o Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante em 1979 por sua atuação. Alan Alda concorreu ao Oscar de Melhor Ator. O diretor Herbert Ross idem. O autor da peça original e roteirista Neil Simon perdeu o Oscar para Roteiro Adaptado, mas ganhou menção honrosa da Academia. Claude Bolling ganhou prêmio de melhor trilha no Tony, no British, no Goden Globe e na New York Academy, mas no Oscar não. Enfim, um filmaço. Mas que não conseguimos achar em DVD's no Brasil.

What's Up, Doc - Esse recebeu o pior nome possível no Brasil: "Essa Pequena é uma Parada". Trata-se de uma comédia repleta de referências dirigida por Peter Bogdanovich em 1972, que acabou mais conhecido por "Lua de Papel", de 1974. Estrelado por Barbra Streisand, Ryan O'Neal ( num incrível papel cômico, logo após o lacrimogêneo Love Story) e Madeleine Kahn, que estreou com este filme no cinema e abocanhou todos os prêmios de 1973, menos o Oscar. As referências começam no título original, o bordão do coelho Pernalonga, e repetido diversas vezes por Barbra Streisand. O roteiro se baseia numa confusa troca de maletas idênticas, que contém desde uma montanha de dinheiro de um mafioso até amostras de rochas para um congresso de Geologia e se passa num hotel e nas ladeiras de São Francisco. O filme tem números musicais, afinal Barbra Streisand não estaria no elenco à toa. Mas todos são irônicos e com referências, como "As Time Goes By", incluindo um "Play it again., Sam". A música ambiente do hotel é sempre de Cole Porter. Em uma cena em que os personagens se misturam a um evento em Chinatown, os chineses estão inexplicavelmente tocando "La Cucaracha".
Mas existem outras referências impagáveis. O carro utilizado numa fuga é um Fusca idêntico (sem o número) ao Herbie, do filme de Disney. Uma perseguição de carros é uma versão bem-humorada de "Bullit". Mas a melhor de todas vem no fim do filme quando Ryan O'Neal repete, com todas as sílabas, uma fala de seu personagem em Love Story, para, pensa e diz em seguida:
- Essa foi com certeza a pior frase que já disse em toda a minha vida.
Deboche puro.

Unfaithfully Yours - Finalmente uma tradução decente, que em Português recebeu o título de "Infielmente Tua". Uma comédia mal digerida por crítica e público, dirigida por um desconhecido em 1984, e, que não passava de uma refilmagem de um filme com Rex Harrison, de 1948, esse sim muito elogiado.
Mas a refilmagem é uma comédia mais ágil e Dudley Moore, no papel principal, é muito mais engracado que Rex Harrison. Ele interpreta um famoso maestro que suspeita que sua mulher (uma Nastassja Kinski deslumbrante) o trai com o violinista da orquestra. Antes de sair de casa para reger um concerto para violino, de Tchaikovski, ele vê sinais que confirmam sua suspeita. A mesma é reforçada pelo comportamento arrogante e irônico do violinista (Armand Assante).
Enquanto rege o concerto, ele imagina o plano perfeito para matar a mulher e o amante, e as cenas imaginadas por ele casam perfeitamente com a música. Daí ele decide colocar em prática o plano, que não sai nada parecido com o que imaginou enquanto regia o concerto, e a música de fundo passa a ser uma peça de Wagner.
Dudley Moore está impagável, e, além disso, foi escalado às pressas para um papel que seria de Peter Sellers, que morreu dias antes de começar as filmagens. Neste filme também fica claro um talento de Moore que poucos conhecem: ele era um exímio e dedicado pianista clássico, além de ator. Enfim, ele salva, e com honras, o que teria tudo para ser um filme totalmente esquecido. Vale pela atuação de Moore.

É isso. Se quiserem comprar, sites americanos tem todos, mas para região 1. Converter para região 4 é fácil, mas contente-se com legendas em inglês mesmo, ou, em alguns casos, em espanhol.
E aumentem a "lista dos filmes esquecidos".

terça-feira, 4 de agosto de 2009

De Valera e a personalização do Estado

De todas as biografias de políticos que tive a oportunidade de ler, nenhuma se igualou na capacidade de criar uma confusão tão grande sobre o papel de uma personagem histórica do século XX como a do onipresente Eamon de Valera. De 1916 a 1973, por 57 anos, portanto, este cidadão ocupou posições centrais na vida política irlandesa, e certamente, tem seu lugar na História. Exatamente qual lugar é que parece ser o problema. Um pequeno resumo de fatos biográficos e da incrível sobrevida deste pouco conhecido estadista europeu ( o mais longevo do século XX) pode ilustrar.
Para começar, não nasceu na Irlanda, e sim em Manhattan, nos Estados Unidos, em 1882, filho de um traficante de açúcar hispano-cubano chamado Juan de Valeros e de uma irlandesa. E foi batizado como Jorge de Valeros. Mas seu pai morreu em 1887 e sua mãe retornou à Irlanda onde seu nome tomou a forma gaélica-anglo-saxônica de Eamon de Valera. Estudou e se formou na Irlanda. Não se sabe ao certo quando se engajou na luta dos "Voluntários", grupo de jovens e intelectuais que lutavam pela independência da Irlanda do domínio inglês, mas é reconhecido por historiadores que de Valera era um orador e escritor excepcional e certamente durante a sua formação como Matemático abraçou a causa nacionalista irlandesa e tornou-se um católico fervoroso.
Em 1916 foi um dos líderes da "Revolta da Páscoa", uma espécie de tentativa de golpe contra as autoridades inglesas de Dublin e que terminou mal. Os líderes foram presos e condenados à morte. De Valera escapou, por ser cidadão com dupla nacionalidade, e, também porque em meio a uma guerra mundial complicada, os ingleses não pretendiam criar uma situacão sensível com os Estados Unidos. Um dos líderes da "Revolta da Páscoa" foi Michael Collins, um jovem e brilhante camponês de Cork, educado em Londres, que aliou como poucos a capacidade de liderança militar com a administrativa. Collins não foi preso porque era tão hábil que sua figura não era conhecida. De 1916 a 1922, Collins liderou a cena política irlandesa, mesmo por vezes sendo considerado uma espécie de mito. Cathal Brugha e Arthur Griffith também dividiram as atenções e a liderança, raramente questionada, de de Valera pós-"Revolta da Páscoa".
E aqui chegamos a um dos períodos inquietantes de sua biografia. Em primeiro lugar, é sabido que de Valera surtou durante a "Revolta da Páscoa". Sua inabilidade emocional para lidar com confrontos físicos o perseguiria por toda a vida. Em seguida, quando os "Voluntários" se organizaram como partido, o Sinn Fein, e decidiram por manter um braço armado, o IRA, quem sobressaiu de forma assustadora como líder foi Collins. Além de forte e corajoso, Collins organizou as finanças do movimento, inaugurou a guerrilha e montou praticamente sozinho as ações que sacudiram o poder central inglês. Cathal Brugha liderava o gabinete e Griffith as conversações com os representantes de Londres. Observando isso, de Valera decidiu em 1919 ir para os Estados Unidos com o fim de obter apoio da colônia irlandesa, do presidente Calvin Coolidge e de angariar fundos. A guerrilha recrudesceu e de Valera permanecia na América, sem enviar notícias precisas a Dublin. Retornou 1 ano e meio depois, sem apoio o político prometido na bagagem. Amenizou o tom de fracasso da estadia o fato de ter conseguido angariar fundos para o Sinn Fein, curiosamente usando mais a ascendência hispânica do que a irlandesa.
Mas de 1920 a 1921 os irlandeses, liderados por Collins, tinham liquidado praticamente toda a burocracia de governo inglesa em Dublin de forma violenta e incontestável. Londres aceitou negociar um Tratado de Paz em 1921. De Valera, nomeado Presidente pelo Parlamento ( Deáli) graças a uma manobra constitucional, se recusou a ir a Londres para negociar o Tratado. Nomeou Griffith e Collins, entre outros. Liquidou, então, a confidencialidade da figura de Collins. O Tratado, depois de 4 meses de negociação em que Collins acabou assumindo a liderança, não garantiu a independência completa da Irlanda, que teria um Parlamento, um Primeiro-Ministro irlandês, um Lorde Protetor inglês e reconheceria a soberania da Coroa Inglesa. Além disso, o Tratado dividia o país em duas partes, existentes até hoje, sendo que o Norte continuara parte do Reino Unido. De Valera se mostrou irritado com o resultado mas submeteu-o à aprovacão no Deáli. O Tratado foi aprovado por 64 a 57. De Valera abandonou o Deáli levando com ele cerca de 40 parlamentares. O Tratado também foi objeto de sufrágio, e população o aprovou por maioria, com exceção da situação da Irlanda do Norte. Collins assumiu a Presidência e um discurso moderado, surpreendente para quem tinha sido um guerrilheiro tão feroz. De Valera se refugiou no Sul do País e fundou o Fianna Feil, opositor do Sinn Fein. Muitos acreditam que de Valera não foi a Londres porque já sabia que os ingleses não cederiam e não gostaria de trazer a notícia ruim de volta para casa. No entanto, o carisma de Collins fez com que todos entendessem o Tratado como um primeiro passo para a Independência total. Restou a de Valera dividir o País. Outra decisão controversa foi a de atacar navios ingleses em Galway. Churchill ameaçou mandar forças para garantir os interesses ingleses. Collins disse que os irlandeses iriam lutar como pudessem, mas internamente buscava o diálogo com de Valera. Collins foi assassinado em 22 de agosto de 1922, quando seu comboio foi atacado justamente quando ia de Dublin a Cork para um encontro informal com de Valera.
Liam Lynch, sucessor de Collins foi assassinado em 1923, e o Sinn Fein solicitou um trégua ao Fianna Feil. De Valera, num discurso famoso em 1926 afirmou que a trégua era uma vitória do Fianna Feil e se intitulou Presidente do Conselho. A Irlanda estava imersa em uma crise econômica caótica, emigração em massa, ameaça de uma terceira crise de alimentos, e o Palamento (Deáli) ratificou a lideranca do Fianna Feil. A partir daí, até 1973, de Valera seria figura central na política irlandesa, sempre ocupando o topo da estrutura política, mesmo quando seu partido sofreu derrotas.
E, de fato, ao longo dos anos 30, com uma batalha comercial com os ingleses e grande esforço diplomático, a Irlanda, com o nome gaélico Eire, foi reconhecida por diversos países como república. Finalmente, em 1936, o Eire foi admitido na Liga das Nações. O papel de de Valera neste período custou caro aos irlandeses, que continuaram emigrando em massa, mas foi decisivo para o país obter o status de independente, com exceção da Irlanda do Norte.
Mas os episódios controversos continuaram. De Valera apoiou publicamente Francisco Franco na guerra Civil espanhola, permitiu a criação de um grupo fascista dentro do Fianna Feil, reprimindo-o depois, quando um dos líderes, um militar renomado, reclamou o Ministério de Relações Exteriores. Manteve um duro discurso anti-inglês, mas escancarou a economia irlandesa ao poder da libra, após 1936. Oscilou seu humor nas relações com os Estados Unidos, principalmente com Roosevelt. Reconheceu a União Soviética, mas proferiu vários discursos anti-comunistas.
Na Segunda Guerra, de Valera declarou a Irlanda neutra mas estabeleceu um "estado de sítio" disfarçado, o "The Emergency". Teoricamente, a Irlanda mantinha relações idênticas com os Aliados e com o Eixo, mas manteve representação diplomática junto ao governo colaboracionista de Vichy, o que equivale a reconhecer a legitimidade do mesmo. Até Pearl Harbour, a Irlanda franqueou suas águas a incursões de submarinos alemães. Após Pearl Harbour, franqueou seus portos para que navios aliados fizessem reparos e seu espaço aéreo à RAF, decisão esta que só se tornou conhecida a poucos anos.
A maior mancada de de Valera foi no dia do suicídio de Hitler. A Irlanda e Portugal foram os dois únicos países do mundo que declararam luto oficial pela morte do Fuerher. Portugal, sob a tutela de Salazar, colocou as bandeiras a meio-pau e só. De Valera fez uma visita oficial à representação diplomática alemã e participou da solenidade em memória a Hitler em Dublin. Conseguiu irritar até os suíços, igualmente neutros, que o censuraram publicamente. Mas, quinze dias depois do suicídio de Hitler, a Alemanha capitulou. De Valera, então, num espetáculo de incoerência inigualável, ordenou então que as comemorações "pela paz" tomassem as ruas do país. Foi a maior manifestação pró-inglesa da história da Irlanda, com mais de dois milhões de pessoas nas ruas bebendo e empunhando bandeiras dos Aliados, inclusive a 'Union Jack". Em um discurso ao fim da guerra, Churchill, um velho inimigo, criticou pesadamente a postura de de Valera, que o respondeu num discurso considerado histórico na Irlanda reiterando que seria impossível para a qualquer país colaborar com quem o escravizou por 700 anos, mesmo que isso parecesse o mais certo a fazer.
Em 1949, os Estados Unidos incluíram a Irlanda no Plano Marshall, e de Valera fez as pazes com de Gaulle. Em compensação, fechou a representação diplomática em Moscou. Cabe ressaltar que os russos, mesmo após Lênin, tiveram boas relações com os escoceses e irlandeses, por conta da pesca e de empreendimentos marítimos conjuntos. Mas o Comunismo era intolerável para o direitista e católico de Valera. Livros foram proibidos, a censura, que, já vigorava desde a década de 30, passou a ser dura. De Valera se alinhou entre os mais ferrenhos anti-comunistas dada que a "vocação católica da Irlanda seria eternamente incompatível com o socialismo".
A década de 50 viu de Valera no ostracismo por alguns anos. Não foi um afastemento total já que, a esta altura, ele era um herói vivo da independência do domínio britânico. Em 1959, assumiu a Presidência da Irlanda até 1973, sempre por eleições. Foi responsável pelo ingresso da Irlanda no Mercado Comum Europeu, embrião da Comunidade Européia. Aproximou-se dos Estados Unidos e da Inglaterra, tendo sido recebido várias vezes pela Rainha Elizabeth II.
Durante a década de 60, percebendo que o momento pedia outra postura, reabilitou todos os heróis do período de 1916 a 1936, incluindo desafetos célebres, como Griffith e sobretudo, Collins. Sobre este último, em 1966, de Valera disse que o povo irlandês reconhecerá o seu papel fundamental na independência, e seu martírio, e, a "seu juízo, colocará este peso nos meus próprios ombros". Uma forma muitíssimo elegante de reconhecer culpa, senão direta, já que foi provado que de Valera não ordenou o ataque que matou Collins, pelo menos por omissão, pois ele sabia que no trajeto entre Dublin e Cork haviam várias emboscadas prontas.
De fato, de Valera é um herói irlandês, apelidado de "Long Fella", ou o camarada para sempre. Os historiadores se dividem entre os seus erros e acertos. De Valera alcançou o seu objetivo como estadista, transformando a Irlanda, ou pelo menos 80% do seu território, em país livre e soberano. Questionam-se apenas se o preço pago pelos irlandeses poderia ter tido uma boa redução. E, se nas suas convicções nacionalistas não estava embutida uma ambição doentia e uma vaidade perigosa.
A propósito, o apelido de Collins era "Big Fella", ou o grande camarada.
Talvez em dupla, os camaradas fizessem mais, em menos tempo e expondo menos os irlandeses. Talvez com mais espírito de estadista e menos de ser o "espírito irlandês encarnado" ( como ele se definiu nos anos difíceis entre 1916 e 1922), melhor, mais nobre e menos controverso fosse o seu legado.
Como último comentário, um dado macro-econômico. Durante a vida de de Valera, o maior crescimento anualizado do PIB irlandês foi de 3%, com média de 1%. Depois de de Valera, a média passou a 3%, número chinês para a Europa.
Morreu em 1975, com 91 anos de idade. O clima em Dublin, no dia de sua morte, era difícil de definir. Mais ou menos como sua conduta.

domingo, 2 de agosto de 2009

Eu não sou a Regina Duarte !

Mas estou com medo.
Eu não sou, nem quero ser comparado à Regina Duarte. Na campanha das eleições de 2002, no horário reservado ao PSDB, ela disse que tinha medo do Lula. "Lula", no caso, me pareceu ser um pouco mais que o candidato. Ter medo do Lula deve ser coisa de quem tem mania de perseguição. Sozinho, Lula não mete medo em ninguém. Ele não sabe falar, mal sabe ler e deve escrever bisonhamente. Não deixará legado duradouro.
Por isso, não quero ser comparado à Regina Duarte.
Também não concordo com o partidarismo do "medo". Como não tenho medo do Lula, também não tenho medo do Serra, do Sarney, do Renan, do Garotinho, do Cabral, do FHC, do Stalin, do Hitler, do Saddam ou do Hugo Chávez, individualmente.
O que me dá medo é o aparelhamento do Estado com os quais todos estes, e mais umas várias dúzias que eu poderia citar, compactuaram. Sim, porque sozinhos nada teriam feito. O raciocínio pode ser explicitado por um fato histórico, notório e claro. O que seria de Hitler sem Goebbels e mais uma meia dúzia ?
Tenho amigos e conhecidos que vão de um extremo ao outro do espectro político. Conheço bem suas convicções e superficialmente as teorias que suportam estas convicções. Também não tenho medo da esquerda, da direita, do meio...
Por isso, por favor, não quero ser comparado à Regina Duarte.
Mas os fatos parecem querer me convencer de que devo ter medo.
Eu nunca vi tanto esforço conjunto para desmoronar as instituições como agora.
É coisa demais acontecendo ao mesmo tempo: crise no Senado, sem-vergonhice do Berlusconi, descrédito total do poder público estadual e municipal, cara-de-pau reincidente e grave do Lula, que ora defende ora se afasta das crises, Justiça com vísceras podres expostas, Polícia Federal fazendo investigação e divulgando aqui e acolá sabe-se lá porque, Igreja e igrejas completamente desnorteadas e temporais demais para quem almeja algo espiritual e, para acabar com toda a minha crença de que restou alguma coisa na qual eu possa repousar meus olhos e fazer uma leitura sem ter que abrir um caleidoscópio de inferências e ilações, escarafunchando entrelinhas e cruzando notícias aparentemente desconexas para formar uma idéia, a imprensa soçobrou. E feio. Não sobrou nada.
Não vou justificar meu ponto de vista com retrospectivas longas ou considerações profundas porque nem jornalista sou. Não acredito no PIG, nem no que venha a ser a sua oposição. Não tenho mais o menor respeito pelo Paulo Henrique Amorim, como também não tenho pela Míriam Leitão, que fique claro. Leio tudo o que posso e sou acometido de espanto, somente.
O fato recente, que mereceria repúdio coletivo da imprensa, fosse dos jornalões ditos membros do PIG, fosse das publicacões alinhadas com os partidos da "base aliada", é um desembargador conceder uma liminar para que um jornal pare de publicar gravações de investigações da Polícia Federal sobre um pessoal do Maranhão.
Isso não é de dar medo ?
Pouco importa como o jornal está obtendo as transcrições das gravações. Se for de forma ilícita, que se apure o ilícito. Pouco importa que o jornal esteja dando destaque às mesmas. Qualquer veículo de informação pode dar destaque à atuação do zagueiro do Arranca-Toco F.C., bem como ao último evento na Indonésia que vitimou umas três centenas de pessoas, pois a linha editorial do mesmo é, e deve ser sempre, independente. Leia-o e compre-o quem quiser.
Pouco importa também que seja o jornaleco do bairro ou o grande jornal de circulação paulistano-nacional.
É simples para mim. No estado de direito com garantias mínimas, qualquer um pode divulgar a notícia que bem entender, e que arque com as consequências de suas publicações. Mas não se deve impedir ninguém de divulgar nada. Das duas, uma: ou é verdade ou é calúnia. A ser apurado, após ter sido publicado ou dito, porque antes, para mim, é censura.
Mas vá lá que o tal jornal tenha extrapolado e mereça que a espada e a cegueira da Lei intercedam. Sabe o que me deixou com medo mesmo ? Foi ler muito pouco, ou nada, em outros grandes, ou pequenos jornais, sobre a tal liminar.
Se o resto da imprensa tolera, ou não combata, que um jornal, concorrente por sinal, seja impedido por liminar de publicar alguma coisa, trata-se de uma situação que pode ter diversas interpretacões, e Deus-me-livre-guarde de imaginá-las, porque já estou com muito medo.
Coincidentemente, o governo de Chávez, o da Venezuela, no mesmo dia do expediente do desembargador, fechou algumas dezenas de emissoras de rádio "não-bolivarianas".
Por favor, não quero ser comparado à Regina Duarte. Mas estou com medo.

quarta-feira, 29 de julho de 2009

A Crítica à Meritocracia Pura

Este texto é dedicado a pessoas, profissões, coisas, bichos, enfim, qualquer coisa que passa quase totalmente despercebido, mas que tem importância fundamental no contexto em que se encontram.

Oboé - Quase todo mundo já assistiu a uma orquestra tocar. Viu o maestro, viu uma dezena de violinistas, viu até o contra-baixo. Se tem solista, viu o piano. Se tem um instrumento pouco usual, também viu, como a harpa, por exemplo. Mas, perdido ali no meio dos instrumentos de sopro, mais exatamente no naipe das madeiras, da qual também fazem parte a flauta, o clarinete, o saxofone e o fagote, está o oboé. O oboé clássico tem uma sonoridade melancólica. Os oboés piccolo tem um som de instrumento de sopro árabe. E toda orquestra tem um oboé !!! Trata-se de um instrumento antigo, cujo nome não vem do árabe, como muitos pensam e sim do francês huitbois, ou alto sopro, pelo seu timbre mais agudo. E o que tem o oboé de mais ? Simples. Apesar de dificílimo de tocar, ele não desafina. E o oboé clássico emite o som neutro em Lá. Então, antes do maestro entrar para um concerto, entra o violinista spalla, ou primeiro violinista, que fica à esquerda do maestro e faz um sinal para o oboísta (nome do cidadão que aprendeu a tocar oboé) emitir um Lá. Ele emite o Lá e então todos os outros músicos tocam o Lá e fazem a afinação final. Só aí entra o maestro. Nos intervalos, se o maestro percebe algo estranho em algum instrumento, cutuca o spalla ( espécie de maestro regra três), e lá vai o oboé de novo atacar de Lá, para todos se afinarem. O oboé é, portanto, uma espécie de diapasão da orquestra.

Montador de Punga - Punga é aquele cavalo mansinho que chega perto de um puro-sangue mais nervosinho, antes ou depois de um páreo, normalmente porque o jóquei que monta o puro-sangue está tendo algum pequeno problema para levar sua montaria ao destino certo. O montador do punga se encarrega de, além de levar o punga, claro, controlar o outro cavalo mais arisco. Antes do páreo, fica ali atrás do "starting gate", ajudando nos trabalhos de colocar os mais arredios nos boxes de partida. Então, o montador do punga, que não aparece nem no rodapé do programa de uma reunião ( como se chamam as sequências de páreos), trabalha em todos os páreos, corta a mão tentando segurar o outro cavalo nervoso, às vezes vai ao chão, ganha menos de salário do que custa a ração dos puro-sangues, mas sem ele ia ter muito "barata voa" antes e durante o cânter, nas baias, no "starting gate"...ou seja, sem o punga e, principalmente, sem o montador do punga um páreo poderia levar horas para ser preparado.

Proeiro - Proeiro é o sujeito que faz parte da tripulação de um veleiro mas não é o comandante. Pau para toda a obra. Seus requisitos são: agilidade de macaco, força de elefante, olhos de gavião, ouvido aguçado e sonar acoplado, resistência etíope, pescoço de girafa, autonomia infinita sob a água, peso ideal, sem uma grama a mais ou a menos, e total insensibilidade à dor. Tem que ter uma capacidade de levar broncas que são capazes de revolver dos túmulos umas quatro gerações de ancestrais e ficar quieto. Levar a culpa se a regata foi perdida e ser esquecido se a regata for ganha. Não levanta o troféu e não lê o nome na lista de resultados. Mas um comandante não veleja sem eles. Tem alguns que até cumprimentam e agradecem aos seus proeiros em determinadas situações. Mas são raros.

Rolamento - Entre o eixo e a roda vai uma coisa chamada rolamento. Só serve para que o eixo e a roda não se desgastem. Quando olharem um carro, imaginem que entre o eixo e as rodas existem dois anéis que servem de "trilhos" para bilhas, ou roletes deslizarem. Eles existem para que os eixos não durem apenas alguns quilômetros e as rodas não se acabem com o atrito. Por serem compactos, os rolamentos são muito bem lubrificados e resistem a muitas pancadas e intempéries. No entanto, quando um dá defeito, começa a roncar e o dono do carro, via de regra fica irritado. Em primeiro lugar, pelo barulho insistente e que aumenta mais ainda quando a velocidade aumenta. Em segundo lugar, porque é uma peça cara. Mas pouco se leva em consideração a folha de serviços prestados pelo rolamento ao longo de sua vida útil. Aguenta porrada, lama, água, buraco, pneu furado, e, salvo mau uso extremo, é uma das últimas coisas do carro que vai quebrar. Mas não adianta, quebrou, é xingado, jogado no lixo impiedosamente e lembrado como vilão. Eu já vi fanático por automóvel guardar como peça de museu virabrequim, pistão, válvula, e até cano de descarga. Rolamento eu nunca vi ninguém guardar.

Gandula - Não joga, é xingado, apanha às vezes, não ganha salário, mas sem eles um jogo de futebol duraria uma eternidade. Com jogadores como o Lúcio, o Edcarlos e o Obina, as bolas iriam muito frequentemente ir parar muito longe. Os gandulas resolvem este problema, devolvendo as bolas rapidamente. Bem, quando o time da casa está ganhando os gandulas diminuem a velocidade ou jogam bolas em quantidade superior à desejada que é de 1 (uma) bola apenas. E quando o time da casa está perdendo alguns gandulas se empolgam indevidamente. Antigamente ainda havia o prêmio de poder estar perto dos craques e ver o jogo de graça, mas como hoje não existem mais muitos craques e os que existem podem ser vistos até em biroscas da Vila Cruzeiro, com travestis ou em boates, e a Gatonet é muito mais legal que ir ao jogo, nem isso vale mais a pena. Então, atualmente ser gandula é um ato de desprendimento absoluto.

Barata - Bicho que não serve para nada, mas nada mesmo e dizem que em caso de hecatombe atômica só sobreviveriam as baratas e o Oscar Niemeyer. No entanto, as baratas prestam dois favores inestimáveis. O primeiro: se aparecer em restaurante, a conta sai de graça. E segundo: se você matar uma barata na frente de uma namorada nova, pronto , você é o novo super-herói dela, um deus grego, um Maciste, um ser imbatível diante das maiores forças da Natureza.

É só olhar em redor e mais coisas importantíssimas aparecerão e, questão básica e imediata: tem o reconhecimento que merece ?

segunda-feira, 27 de julho de 2009

Serginho não é um "virtuose"

Sergio Dutra dos Santos, de 34 anos, nascido na periferia pobre de São Paulo, detentor de 1,85 m de altura. Acabam aqui os dados biográficos oficiais pesquisados, porque este Blog vai ser escrito à base de emoção.
Este é o Serginho, o Escadinha, o líbero do time brasileiro de vôlei.
Ontem, em Belgrado, na Sérvia, este Sergio de nome brasileiríssimo se tornou o astro do vôlei mundial. O Brasil conquistou seu oitavo título da Liga, numa vitória épica sobre os donos da casa.
Ao longo do jogo, Giba fez valer o seu papel de capitão. Leandro Vissotto arrasou de oposto. Murilo, num quinto set primoroso, mostrou ao que veio. Bruninho, filho de Bernardinho, calou de vez os que acharam que ele estava lá pelo pedigree. O time ganhou sem ser favorito e depois de um ano de 2008 com algumas decepções.
Mas Serginho estava lá também. E quem viu o jogo não pode esquecer a atuação dele. Buscou bolas difíceis, fez defesas impossíveis, cobriu bloqueios sérvios que cairiam no chão brasileiro com certeza, ainda deu muito esporro em todos, até no Giba, também incentivou todos, e, quando a bola não ia de segunda para o Bruno, sem problemas, Serginho levantou. E bem. Até ponto de bola colocada o cara marcou.
Eu gostaria de saber se, no dia em que modificaram a regra do vôlei para permitir a entrada de um jogador exclusivo de defesa, que não poderia atacar, com uniforme diferente dos demais, que fica só nas três posições da linha de trás, que sai de quadra e retorna umas 60 vezes numa partida de 5 sets equilibrada, que não deve ser alto, e que, de cara, observou-se que era o "homem para levar porrada", alguém imaginou que um líbero ( nome impróprio para quem tem pouca liberdade em quadra) seria eleito o melhor jogador de uma competição internacional.
O vôlei é um esporte de plasticidade sensacional. A velocidade da bola, as jogadas sincronizadas, cortadas a 150 km/h, bloqueios de argamassa humana, fintas do levantador. Isso é espetacular. Defesas são espetaculares também, mas só algumas. E, só são espetaculares as que acontecem e com sucesso. As parciais, as que vão para fora, as "medalhas", essas não são nem registradas.
Mas Serginho começou a mudar isso. Já há uns cinco ou seis anos, quem acompanha vôlei tenta entender o domínio brasileiro neste século. Seriam atacantes brilhantes ? Seriam levantadores geniais ? Seria um bloqueio intransponível ?
Salvo uma estatística ou outra apontarem Giba o melhor pontuador, Gustavo o melhor bloqueador e Ricardinho o gênio dos levantamentos, aos poucos o segredo do Brasil foi sendo desfeito: é a defesa. Os times passaram então a dificultar ao máximo as coisas para a defesa brasileira com saques mirabolantes, ponteiros sensacionais que são acionados mais de 15 vezes num único set ( Poltavsky, Kraziski, Mijailovic, Leon...reparem o que esses caras são acionados num jogo contra o Brasil), meios de rede de 2,20 m...tudo vale para bater o Brasil.
A defesa no vôlei não interrompe o ataque adversário. O vôlei é o único esporte de equipe cujo contato físico inexiste. A defesa é uma percepção da tática de ataque adversária. É esperta, maliciosa, tenaz. Não precisa de força bruta, não precisa destruir a jogada adversária. Precisa evitar o contato da bola que chega com seu território, sua quadra. E, de quebra, jogar a bola para um lugar ou para o alto, que permita, o contra-ataque.
Este é o mapa mental do defensor. Bem...podemos dizer que ponteiros como Murilo e Giba são grandes defensores também. E são. Mas Serginho aprimorou a defesa a ponto de irritar os adversários. A bola tem seu contato evitado com o chão porque alguma parte do corpo de Serginho se colocou no caminho. E ainda fez mais: jogou-a para o alto, com tempo para o levantador armar um ataque.
Serginho se tornou o maior nesta arte: ele sabe como ninguém evitar que a bola vinda das mãos de um sérvio qualquer de dois andares de altura exploda na quadra. Ele sabe que quando Giba bate, deve se colocar ao seu lado e, se Giba for bloqueado, lá está ele para que a bola não caia no chão e mais uma tentativa seja possível.
Quem criou o líbero não sabia que ia existir um Serginho. Que de coadjuvante passou a protagonista. E que, de defensor, passou a ser o nascedouro de jogadas para os atacantes brilharem.
Ontem, isso foi observado. E muito bem observado. Até porque, se no final do jogo ainda tivessem dúvidas, Serginho encarregou-se de dirimi-las justamente no último ponto: ataque do Brasil e o bloqueio sérvio funciona e joga para o chão brasileiro, Serginho já estava lá, mas não era um movimento qualquer, e um peixinho providencial evitou o ponto sérvio e botou a bola magicamente na mão de Bruninho que inverteu o ataque e jogou para Giba apenas colocar, a meia-força, no chão, sim, no chão, no solo, na terra sérvia. Ponto. Set. Match. Campeonato. Dúvidas desfeitas. Serginho é o "cara", é escolhido o Most Valuable Player da Liga, o melhor jogador da Liga.
Do menino pobre que não sabia que esporte praticar, até ontem ser coadjuvante era o seu papel. Agora ele é o astro. E, finalmente, com reconhecimento justo, em uma competição dura. Sem a falsidade de pagamento de tributos tardios a "heróis secundários".
Valeu, Sergio Dutra dos Santos.
E que o vôlei e o Serginho nos inspirem a considerar o menos espetacular tão importante quanto o "virtuose".

domingo, 19 de julho de 2009

Os meus dez filmes preferidos ( ou dezessete).

No meu perfil que consta desta página está escrito que não listaria filmes preferidos porque seria muito longo. Me chamaram de "metido a besta", cinéfilo pretensioso, e coisas piores. Não tenho nenhuma pretensão de debater nada sobre existencialismo alemão, realismo russo ou nouvelle-vague com cinéfilos de carteirinha, bolsas de couro e roupas de tecido de fibras naturais. Não suportaria dois dedos de prosa com o Rubens Ewald Filho e acho que jamais conversaria com o José Wilker, se é que o Wilker deixa alguém conversar com ele.
Então, para acabar com este mal-entendido que me tirou o sono, e ficar carregando a culpa de uma pretensa intelectualidade, resolvi logo compilar uma lista de filmes favoritos. E verão que não há nada de mais.
De quebra, deixo este Blog no ar por uma semana, porque estou entrando em férias.
A lista foi feita com base em critérios próprios, muito próprios, e basicamente, um destes critérios teve um peso definitivo: todos os filmes abaixo me impressionaram muito quando os vi, e, se for convidado para assistir de novo, não vacilo, vou.
Três autores mereceram um destaque e elenquei os seus filmes que se enquadram na qualidade acima. Além disto, fiz uma menção honrosa. Por isto, a lista tem mais que 10. 
Mas, deixando o papo furado para lá, vamos aos filmes, com pequenas observações minhas mesmo. A ordem não tem relação com a preferência.
  • Witness ( A Testemunha) - de Peter Weir ( 1985), com Harrison Ford e Kelly Mc Gillis. Uma surpresa, mas certamente o filme que mais assisti em minha vida. O que era para ser um policial banal, vira um filmaço sobre o confronto da dura realidade da corrupção policial e a vida asceta, simples e agrária dos "amishes" da Pennsylvania. O filme recebeu uma nomeação para o Oscar de melhor roteiro e Harrison Ford, uma indicação para o Oscar. Na verdade, neste filme, Ford provou que podia fazer algo mais que Indiana Jones ou contracenar com robôs e monstros de outros planetas. Tem três cenas antológicas: a construção de um celeiro pela comunidade "amish", uma cena romântica entre Ford e Mc Gillis ao som de um rádio de automóvel velho e a surra num moleque especialista em humilhar "amishes" que lava a alma dos espectadores ascetas.
  • Lawrence da Arabia - de David Lean (1962), com Peter O'Toole, Omar Sharif, Alec Guinnes e Anthony Quinn. A obscura história de T. E. Lawrence, figura proeminente na Primeira Guerra Mundial e que depois resolveu sumir da vida pública. Levou dois anos para ser filmado. Alec Guinnes e Anthony Quinn estão perfeitos. Peter O'Toole exagera nos trejeitos de T.E. Lawrence, mas dá show ao engordar e emagrecer algumas vezes. Indispensável para quem quer entender alguma coisa da atual confusão política do Oriente Médio. Super ganhador do Oscar de 1963.
  • Asas do desejo ( Der Himmel uber Berlin) - de Wim Wenders ( 1987). Recebeu uma refilmagem hollywoodiana, chamada Cidade dos Anjos. O original foi com Bruno Ganz no papel do anjo apaixonado e a refilmagem foi com o Nicholas Cage no mesmo papel. Só pelo elenco, pergunto : dá para comparar ? A cena de Bruno Ganz na coluna da Vitória é antológica. O original alemão também tem detalhes perdidos no remake pipocão, como, por exemplo, a alternância da fotografia em preto-e-branco e colorida, e o fato da mocinha ser uma equilibrista de circo e não uma cirurgiã bam-bam-bam.
  • Local Hero (Momento Inesquecível) - de Bill Forsyth (1983), com Burt Lancaster e Peter Riegert.  Uma mensagem ecológica, com cenário espetacular do norte da Escócia, humor refinado, um pouquinho de Macondo, e um som capitaneado por Mark Knopfler com um tema lindíssimo. Um filmaço, infelizmente pouco percebido. O mais brutal capitalismo esbarra no tradicionalismo, e corrompe uma vila inteira, exceto um improvável herói. O título em Português é de uma falta de significado e ligação com o filme absurdos.
  • LA Confidential (Los Angeles, cidade proibida) - de Curtis Hanson ( 1987), com Kim Basinger, Kevin Spacey, Russel Crowe, Guy Ritchie, James Cromwell, Danny de Vito. Uma trama policial como poucas. Oscar de Melhor Roteiro Original de 1988 e Oscar para Melhor Atriz Coadjuvante para Kim Basinger. É um filme para ser assistido com máxima atenção.
  • Z - Costa-Gravas (1979), com Yves Montand, Jean Louis Trintignant e Irene Papas. Na época, a censura vigente no Brasil bobeou e Z foi exibido. Na prática, o filme é sobre um pacifista grego, chamado Gregori Lambrakis, que em 1973 lançou-se de corpo e alma em uma campanha pela não instalação de bases com artefatos nucleares na Europa. A caminho de um discurso, a personagem vivida por Yves Montand, chamado Zei, inspirado em Lambrakis, apanha um pouquinho e, como resultado de pancadas recebidas na cabeça, morre. Apesar de apanhar de jovens cabeludos e da Polícia, está em curso, na Grécia, um golpe de estado militar apoiado pela Otan, e o discurso pacifista é mal recebido. Oscar de Melhor Filme Estrangeiro de 1980. Até hoje não entendi como a censura da época deixou passar. Apesar de tudo, muito atual.
  • Pequeno Grande Homem - de Arthur Penn (1970), com Dustin Hoffman e Faye Dunaway. Um garoto branco é sequestrado por índios e passa a vida a circular entre as sociedades "civilizadas" e as indígenas. É simplemente espetacular como a narrativa irônica consegue provocar um fenômeno então inédito na filmografia norte-americana: o público torce pelos índios. E no fim, o garoto, já crescidinho, se vê na condição de "scout" do General Custer, em plena batalha de Little Big Horn ( a analogia com o nome Cheyenne "Pequeno Grande Homem" é imediata). Ele dá informações precisas sobre como se desenrolaria a batalha e Custer o ignora. Como se sabe, Custer perdeu a batalha e a vida. 
  • As Invasões Bárbaras - de Dennys Arcand (2003), com Rémy Girard e Stephanie Rousseau. Este é especial. É uma continuação de "O Declínio do Império Americano". Os personagens são os mesmos, envelhecidos. Um deles está doente terminal, no Canadá, mas o sistema de saúde do país o trata com desdém. Curioso que o doente e seus amigos critiquem o sistema, inspirado em suas idéias socialistas de 20 anos atrás. A solução é acionar o filho, um milionário jovem, capitalista até o último fio de cabelo, para ajudar a cuidar do pai. O filho não só corrompe todo o hospital, como consegue um tratamento decente para o pai, por métodos pouco ortodoxos. Para completar, a "heroína" da parte final do filme é uma dependente química em..."heroína" !!! Um filme ótimo para quem não sabe em que sistema vive, qual defende e quais são os valores de nosso tempo.
  • Os Suspeitos (Usual Suspects) - de Bryan Singer (1995), com Stephen Baldwin, Gabriel Byrne, Chazz Palminteri, Kevin Spacey, Benicio del Toro. Oscar de Roteiro Original em 1996 e Melhor Ator Coadjuvante para Kevin Spacey. A arrepiante história de Kayser Soze, contada por bandidos de encomenda. Teoricamente, um filme para Gabriel Byrne brilhar, mas até nisso a surpresa é a tônica do roteiro.
  • M*A*S*H* - de Robert Altman (1970) - Depois, originou uma série de TV. Mas não confunda o filme com a série. No filme, Donald Sutherland, Elliot Gould, Robert Duvall e Tom Skerritt se comportam de forma muito pouco normal para quem está no front da Guerra da Coréia. Mas o batalhão é de médicos. O filme é tão insólito que até licença para jogar golfe no Japão é concedida para os médicos. Há também um suicídio hilariante. Apesar de selecionado para o Oscar em várias categorias, ganhou uma só, técnica. Mexia muito com o conservadorismo americano quando ainda corria a pleno a Guerra do Vietnam...
Não é uma lista pouco pretensiosa ? Tem algo de refinado ou intelectual de mais nos exemplares acima ? E Godard ? E Fellini ? E Truffaut ? E Bergman ? Tá bom , vá lá, os caras são bons, mas difícil me causarem impacto.
Mas para não dizer que não falei de filme de autor, destaco três que admiro. O primeiro, naturalmente, é Charles Chaplin. Não gosto de tudo. O Grande Ditador, por exemplo, para mim, é piegas e sem o "timing" de comédia, drama, seja lá o que for. Mas os anos da United Artists produziram três filmes sensacionais. Destaco O Circo, com duas cenas históricas como a do relógio de bonecos e a mula que teimava em dar uma carreira no vagabundo - um filme inesquecível. Em Busca do Ouro, para mim, o mais significativo, o mais emblemático e o mais recheado de idéias copiadas por muitos outros, como a cena do baile e a "dança dos pãezinhos". Por fim, Luzes da Cidade, ótimo filme mudo quando todos queriam o cinema falado.
Alfred Hitchcock...sim, como não mencionar ? Mas, de novo, o que me deixou simplesmente boquiaberto foi assistir a dois filmes dele: Trama Diabólica (The Rope) e sua incrível única cena, absolutamente genial; e Janela Indiscreta, outra idéia inspiradíssima.
De Luís Buñuel gosto de muitos , mas o único que me deixou pensando muito tempo depois que o assisti, foi O Anjo Exterminador. O surreal levado às últimas consequências no cinema.
E a menção honrosa, vai para Mulholland Drive, traduzido para Cidade dos Sonhos, do David Lynch com uma Naomi Watts linda de doer. Mas não fiquei marcado pelo filme por isso não. Foi porque nunca vi duas pessoas concordarem sobre o que, afinal, o autor quis dizer ou contar com o filme.